
A família de Ysrael Pinho, de 6 anos, que faleceu em dezembro do ano passado após passar três vezes pelo pronto atendimento de um hospital particular de Betim, teve acesso ao prontuário médico da criança nesta semana. De acordo com o pai, o empresário Waters Gonçalves, o filho teria recebido uma dosagem elevada de adrenalina endovenosa (1,8 ml), o que pode ter sido a causa da morte.
Segundo o genitor, ele não foi informado sobre a administração do medicamento, geralmente utilizado para aumentar os batimentos cardíacos e a pressão arterial. Gonçalves afirma que a médica que atendeu o menino na segunda vez em que esteve na unidade de saúde informou que estava prescrevendo apenas um antiemético, medicamento para tratar náusea e vômito.
“Eu questionei a prescrição porque o Ysrael também estava tendo febre. Mas ela alegou que, naquele momento, a temperatura estava normal e ainda falou que eu estava desrespeitando-a como profissional. Depois, disse que ele deveria ficar 20 minutos em observação e, se não vomitasse mais, poderia ir embora”, relembra o pai.
De acordo com o empresário, profissionais consultados pela defesa teriam confirmado que a dose de adrenalina aplicada no menino seria “inaceitável” para o peso dele (18 kg). “Foi a mesma coisa que aconteceu com o garoto Benício”, ressalta o pai, referindo-se ao caso da criança de 7 anos que morreu após receber uma dosagem errada de adrenalina na veia em um hospital particular de Manaus (AM), em novembro de 2025.
Após a morte de Ysrael Pinho, em 1º de dezembro do ano passado, apontada como de “origem indeterminada”, a família da criança registrou um boletim de ocorrência. Na mesma semana, a Polícia Civil (PCMG) solicitou à Justiça a exumação do corpo do menino. Mas, segundo Waters Gonçalves, devido ao recesso do Judiciário, o procedimento ainda não foi autorizado.
A reportagem do O TEMPO Betim procurou a PCMG nesta quinta-feira (22/1) para obter uma atualização sobre o inquérito. Segundo a corporação, as circunstâncias da morte estão sendo apuradas. "À época dos fatos, foi solicitado ao Poder Judiciário o pedido de exumação do corpo e outras diligências investigativas seguem sendo realizadas, dentro dos limites legais, com o objetivo de esclarecer os fatos", disse a polícia em nota.
Já a Hapvida, operadora responsável pelo hospital onde o menino morreu, informou, também por meio de nota enviada nesta sexta-feira (23/1), que "de acordo com o prontuário, a dose, a concentração e a via de administração da medicação estavam corretos com o peso da criança e alinhadas às diretrizes pediátricas reconhecidas pelo Conselho Federal de Medicina (CFM)" - leia a nota na íntegra no fim da matéria.
Ysrael morreu enquanto era atendido na emergência do hospital. A família alega que houve falhas no atendimento e negligência médica. Em depoimento, o pai contou que o garoto começou a passar mal no sábado (29/11) à noite, apresentando febre e vômito. Na manhã de domingo (30/11), o quadro persistia, e a criança foi levada ao hospital para avaliação. Ysrael foi medicado e liberado, mas, no fim da tarde, teve novos episódios de vômito e voltou ao pronto atendimento, de acordo com Gonçalves.
“A médica que o atendeu foi bem grosseira”, diz o empresário, acrescentando que a profissional chegou a dizer que ele tinha deixado ela “estressada”. A criança recebeu uma injeção de antiemético e foi novamente liberada.
Na segunda-feira pela manhã, Ysrael passou mal de novo, e o pai voltou com ele pela terceira vez ao hospital. Antes mesmo de dar entrada na unidade, porém, o menino desfaleceu e foi levado para a emergência, onde começaram as tentativas de reanimação. “Ficaram me perguntando qual injeção ele tinha tomado, e eu dizia que eles é que tinham que saber”, relembra Gonçalves.
De acordo com o empresário, a família, que mora em Belo Horizonte, buscou atendimento em Betim em razão de o hospital da cidade ser mais vazio. “Espero que essa história viralize para que outros pais não passem pelo que passamos: enterrar um filho”, sublinha.
Ysrael era o primogênito de três irmãos. Ele deixou uma irmã de 4 anos e um irmão de apenas 6 meses. O menino celebrou o sexto aniversário cerca de duas semanas antes de morrer, e era uma criança “muito alegre e muito simples”, segundo o pai.
Ele conta que o filho, que era autista, adorava arroz com feijão e batatinhas e estava muito bem de saúde até começar a manifestar os sintomas que motivaram a ida ao hospital. “Todo mundo amava ele. Era meu grande amor”, conclui o empresário.
Confira a nota da Hapvida na íntegra:
Nota à imprensa
A operadora lamenta profundamente o falecimento do paciente Y.M.S.P. e manifesta sua solidariedade à família diante da perda irreparável.
O paciente recebeu atendimento imediato pela equipe plantonista e foram adotadas as intervenções indicadas para o quadro crítico apresentado, conforme protocolos de suporte avançado em pediatria. De acordo com o prontuário, a dose, a concentração e a via de administração da medicação estavam corretos com o peso da criança e alinhadas às diretrizes pediátricas reconhecidas pelo Conselho Federal de Medicina (CFM).
A direção da unidade segue em contato com os familiares, fornecendo informações e esclarecimentos desde o ocorrido. O prontuário já foi disponibilizado à família e os demais documentos estão sendo entregues sempre que solicitados, colaborando com o esclarecimento dos fatos.
A empresa reitera seu compromisso com a qualidade assistencial, com a transparência e com o respeito às famílias, e permanece à disposição.
(Matéria atualizada em 23 de janeiro de 2025, às 13h45, para incluir nota da Hapvida)