VAZIO PERMANENTE

Feminicídio: um crime, muitas vítimas

Como vivem familiares de mulheres que tiveram suas histórias brutalmente interrompidas pela violência de gênero

Por Iêva Tatiana

Publicado em 31 de janeiro de 2026 | 09:00

 
 
Da esquerda para a direita: prima, mãe, pai, irmã e tia de Jackeline de Oliveira (no detalhe), assassinada em 1994 Da esquerda para a direita: prima, mãe, pai, irmã e tia de Jackeline de Oliveira (no detalhe), assassinada em 1994 Foto: Brandon Santos e Arquivo pessoal

Os números escancaram uma realidade assustadora: com 139 ocorrências de feminicídios em 2025, Minas Gerais foi o segundo estado brasileiro que mais registrou mortes de mulheres no ano, ficando atrás apenas de São Paulo (233), segundo dados do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública, do governo federal. Em Betim, quatro vítimas tiveram suas histórias interrompidas entre janeiro e novembro últimos, e outras seis foram alvo de tentativa de assassinato, de acordo com o levantamento mais recente da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp).

Diante desse cenário – um recorte do que acontece em todo o território brasileiro –, foi instituído no país o Dia Nacional de Luto e Memória às Mulheres Vítimas de Feminicídio, que passa a ser celebrado em 17 de outubro – data em que a jovem Eloá Pimentel foi morta pelo ex-namorado após passar cerca de cem horas em cárcere privado dentro da própria casa, em Santo André (SP), em 2008.

A norma, sancionada em 9 de janeiro deste ano, tem origem no Projeto de Lei 935/2022, da senadora Leila Barros (PDT-DF). “A memorialização é uma importante ferramenta restaurativa que permite a construção da paz, uma vez que reconhece o trauma coletivo e cultural advindo de tanta violência, permitindo que a perplexidade vivenciada pela sociedade seja transformada em reflexão, em conscientização, e em ações e sentimentos positivos potencialmente preventivos, para que esse tipo de crime não aconteça com tanta naturalidade”, ponderou a parlamentar.

Para quem convive com a dor da perda, é ainda mais evidente o quanto o feminicídio é, de fato, traumatizante. Caçula de uma família de quatro filhos, a empresária Luciana Souza, de 48 anos, perdeu a irmã, Jackeline de Oliveira, em 1994. A jovem de 22 anos foi morta pelo ex-namorado, que não se conformava com o término do relacionamento. O episódio ficou conhecido na cidade como o “Crime do Dia das Mães”, por ter acontecido na data comemorativa. 

Luciana tinha 16 anos na época e até hoje não conseguiu se recuperar da dor que o assassinato da irmã provocou nela e na família. “Minha mãe nunca mais foi a mesma. Nem a comida dela teve o mesmo sabor. O Carlos, meu irmão mais velho, ainda chora pensando no que poderia ter feito para evitar a morte da Jackeline. Eles eram muito próximos. O vazio que ela deixou persiste. É como arrancar um dedo da mão: ninguém supera”, afirma.

Mais de três décadas depois do crime que chocou o município, Luciana ainda se lembra com exatidão do momento em que viu o caixão da irmã chegando ao cemitério. “Fiquei um ano sem conseguir dormir. Não tinha medicação que fizesse efeito. Nós duas compartilhávamos o quarto”, recorda-se, emocionada. “Eu fui a única dos irmãos que não se formou. Saí da escola no ano em que a Jackeline faleceu porque não tive condições de continuar estudando”, completa a empresária. 

Além do impacto da despedida precoce, Luciana precisou lidar com a impunidade. “O julgamento [do suspeito] só ocorreu 12 anos depois do crime, mas havia uma grande esperança em nossos corações. Queríamos que ele pagasse pelo que fez, mas ele foi absolvido. Não conseguiram provar que foi ele que matou a minha irmã”, lamenta. Hoje, ela resume o sentimento em relação à Jackeline: “Sinto falta de tudo”.

História de Poliana Ferreira vai ser contada no documentário 'Filhas', com lançamento previsto para este ano; no detalhe, ela com a mãe, Adriana (Fotos: Felipe Natali/Divulgação e Arquivo pessoal)

Do luto à luta

A advogada Poliana Ferreira, de 35 anos, também teve a vida transformada por um feminicídio. Em janeiro de 2006, a mãe dela, Adriana Ferreira, de 33, foi assassinada pelo companheiro na frente da filha. O crime foi cometido dentro do salão de beleza da vítima, depois de ela colocar um ponto-final no relacionamento abusivo que se estendeu por cerca de 15 anos. 

Menores de idade na época, Poliana e o irmão, então com 15 e 14 anos, respectivamente, foram levados para casas de parentes e viveram separados até ela alcançar a maioridade e buscá-lo para morar com ela. “Senti um vazio muito grande. Essa separação foi uma das coisas mais fortes que aconteceram comigo. Fui obrigada a trocar de escola, de casa, de cidade. Naquele momento, senti desespero por tudo que estava acontecendo. Minha mãe só queria viver, ser feliz e sair de um relacionamento extremamente violento, e ela não estava errada nisso”, frisa a advogada. 

Paralelamente ao luto, Poliana teve que lidar com o fato de o genitor ser um foragido. A inquietude da jovem e a busca por justiça acabaram traçando uma nova rota na vida da aspirante a jornalista, e ela seguiu por outro caminho. “Eu buscava respostas no Judiciário, na promotoria, na defensoria. Queria que me explicassem por que eu estava sem minha mãe”, relembra. “Mais tarde, consegui uma bolsa de estudos no curso de direito. Ninguém na turma sabia da minha história. Fiz o curso todo sem as pessoas saberem a dor que me levou para aquela sala”, emenda.

Com o tempo, outras peças foram se encaixando. O assassino de Adriana foi encontrado, condenado por um júri popular e cumpriu toda a pena. Hoje, Poliana não apenas defende outras vítimas como faz palestras para homens sobre violência doméstica e preside a Comissão de Enfrentamento à Violência Doméstica e Familiar da OAB-MG - Subseção Betim. 

“O que eu mais quero, do fundo do meu coração, é que nenhuma mulher ou filha passe por algo semelhante à história que eu sou obrigada a carregar. Essa é a minha maior prova de amor por pessoas que eu não conheço. Que os lares fiquem em paz: mulheres vivas, filhos com suas mães e mães com seus filhos”, conclui Poliana.


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