Lívia (esquerda), de 9 anos, decidiu aos 5 que ia vender pulseiras para ter seu próprio dinheiro; aos 9 anos, o sonho de Duda (direita) é ser estilista e criar um vestido de noiva
Foto: Carolina Miranda
Lívia (esquerda), de 9 anos, decidiu aos 5 que ia vender pulseiras para ter seu próprio dinheiro; aos 9 anos, o sonho de Duda (direita) é ser estilista e criar um vestido de noiva
Foto: Carolina Miranda
As mãozinhas da pequena Lívia Souza Duarte, de 9 anos, já deram vida a dezenas de pulseiras e chaveiros. Cheia de criatividade e determinação, a menina decidiu, por volta dos 5 anos de idade, empreender para ter dinheiro e “comprar as próprias coisas”. Apoiada e incentivada pela mãe, a analista de operações Letícia Alessandra, a criança deslanchou. “Não me lembro direitinho porque decidi fazer pulseiras. Acho que é porque eu gostava de criar coisas. Aí, fui fazendo até que fiquei boa”, conta a menina.
Inicialmente, os acessórios eram vendidos sempre que Lívia ia a um supermercado perto de casa com a mãe. Depois, ela foi conquistando outros públicos e até recebendo encomendas. “Toda vez que vendo, fico surpresa, e eu tenho vendido bem”, confessa a modesta artesã, revelando uma das estratégias do seu sucesso: “A escolha das cores eu faço pensando no que as crianças da minha idade vão gostar. A maioria gosta de amarelo, verde, azul e roxo”, afirma. “Eu acho muito interessante fazer pulseiras porque uso a criatividade para criar o que vem do coração”, acrescenta.
Enquanto para Lívia a evolução do negócio foi natural, para a mãe dela, não foi tanto. Letícia lembra que, no começo, teve muito medo de julgamentos. “A ideia surgiu do nada, e eu fazia questão de reforçar que o dinheiro das vendas era totalmente pra ela, com receio de acharem que eu estava explorando a minha filha. Mas as pessoas receberam bem e valorizaram o fato de ela ser tão pequena e já estar empreendendo”, diz.
Letícia também ressalta que não permite que a confecção das pulseiras e dos chaveiros atrapalhe os estudos. “A prioridade é sempre a escola. Ela cria os acessórios como uma diversão, nos momentos em que não tem tarefas”, sublinha a mãe.
A pequena Maria Eduarda de Almeida, a Duda, de 9 anos, também manifestou cedo um talento manual: ela costura as roupinhas das próprias bonecas e já ensaia criar peças pra si mesma. “Eu acho muito legal e divertido. Adoro fazer vestidos porque são mais bonitinhos e consigo colocar mais detalhes”, avalia a jovem promissora, que faz planos de ser estilista quando crescer. “Eu me imagino costurando e fazendo roupa pra vender. Quero criar um vestido de noiva com bordados de borboletas e flores, e um tanto de tecido pra deixá-lo bem bonito”, adianta Duda.
A inspiração da menina veio da própria mãe, a instrumentadora cirúrgica Angela de Almeida, e das avós e bisavós, todas prendadas na atividade. A observação despertou na criança o interesse pela atividade. Por volta dos 7 anos, Duda já arriscava seus primeiros pontinhos. Hoje, ela começa a se aventurar em uma máquina de costura infantil – sempre sob a supervisão de um adulto. “Eu gosto de costurar e não quero parar. Eu não conheço outras crianças que costuram, mas elas acham legal eu fazer isso”, revela.
A mãe de Duda conta que a filha se mostrou muito criativa desde novinha, mas a família sempre buscou respeitar o tempo dela para não atropelar nenhuma fase. “Eu espero ela manifestar interesse por alguma coisa, e, aí, deixo ela fazer, mas sem cobrança e priorizando o estudo”, pontua Angela. “Eu também comecei muito cedo. Minha mãe e minha avó costuram. Parece que é uma coisa hereditária. E a Duda é bem habilidosa. Fico lisonjeada e agradecida a Deus por ter o ser humano pequenininho que eu tenho dentro de casa com tanta criatividade e habilidade. Vai chegar o momento em que ela vai voar”, afirma a mãe, orgulhosa.
Para além do talento, as atividades desempenhadas por Lívia e Maria Eduarda chamam a atenção por serem incomuns na infância contemporânea. A psicóloga relacional sistêmica e professora do UniBH Aline Ottoni chama a atenção para esse ponto. “Essas experiências que elas estão vivenciando ao costurar ou se envolver com atividades artesanais estão sendo mais enriquecedoras do que ficar numa tela de computador”, afirma. “Tem muitas características sendo desenvolvidas e que precisam ser estimuladas. As crianças que não estão envolvidas em atividades cotidianas dos pais, dos avós e da experiência humana estão perdendo porque estão ficando empobrecidas com o relacionamento com a tela”, emenda Aline.
Por outro lado, a psicóloga alerta para o risco de sobrecarga. “É preciso estar atento aos estresses que o excesso de estímulo pode trazer. Se a criança começa a ficar muito perfeccionista, com hiperfoco, os pais devem começar a se perguntar se não estão restringindo as experiências dela”, frisa.
O Dia das Crianças surgiu no Brasil em 1924, a partir de um decreto assinado pelo presidente da época, Arthur Bernardes. Diferentemente dos dias atuais, a então chamada Festa da Criança não visava atender os interesses comerciais dos fabricantes nem das lojas de brinquedos, mas incitar a sociedade e o poder público a cuidar da educação, da saúde e do bem-estar das crianças. Naquela época, não havia direitos garantidos a elas. As mais pobres não frequentavam a escola e ainda eram obrigadas a trabalhar.
Antes da assinatura do decreto, o Dia das Crianças era comemorado em 2 de outubro no país, data em que a Igreja Católica celebra o Dia dos Anjos da Guarda.