
O nome é a principal forma de identificação de um ser humano, uma escolha feita pelos pais que acompanha a pessoa por toda a vida. Nem sempre, porém, são escolhidos nomes comuns. Às vezes, são nomes curiosos e irreverentes, provocando até mesmo situações constrangedoras. A reportagem conversou com Lotária, Tabajara Haru e Última, moradores de Betim donos de nomes diferentes. Eles revelaram as histórias que cada um deles carrega e a razão de se chamarem assim.
A chef de cozinha Lotária de Almeida e Silva, de 58 anos, conta que seu nome foi uma escolha da mãe para homenagear uma amiga. O fato é que a homenagem rendeu desconforto para a filha. “Sempre que chego aos lugares e perguntam meu nome, logo apresento meu documento. Aí eles olham e pronto. Sempre querem saber por que minha mãe me deu esse nome”, diz. Lotária afirma que já teve vontade de trocar de nome, mas acabou desistindo. “Hoje tenho filhos e netos. Aí fica mais difícil”, justifica Lotária, que mora no bairro Vianópolis.
O nome dela é tão incomum que não consta no último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), realizado em 2022. “São apresentados apenas os nomes cuja frequência é maior ou igual a 20 para o total no Brasil”, diz o órgão.
O videomaker Tabajara Haru, de 36 anos, explica que seu nome, de origem tupi e que traz significados como “senhor da aldeia” ou “chefe”, também foi escolhido para prestar uma homenagem: da mãe dele para o pai dela – e avô dele –, que se chamava Tabajara.
O entrevistado revela que geralmente tentam associá-lo às “Organizações Tabajara” e ao “Tabajara Futebol Clube”, empresa e time fictícios do grupo humorístico Casseta & Planeta, criado nos anos 80. Mas não está entre as piores coisas que já lhe aconteceram. Tabajara, que mora no Alterosas, conta que já apanhou de policiais, que acharam que o nome era mentira, foi levado à diretoria no primeiro dia de aula e já quase perdeu trabalhos. Mas ele diz que, com o tempo, aprendeu a usar o nome a seu favor e, com isso, ganhou amizades. “Sempre tem alguém que pergunta: ‘Tabajara, quem é esse?’. Eu respondo: ‘É meu nome mesmo’. As pessoas riem, abrem espaço para conversar e assim fiz amizades”, conta.
Segundo o Censo de 2022, 385 pessoas no país têm Tabajara como primeiro nome, e 18 estão em Minas. Como sobrenome, Tabajara é usado por 503 pessoas no Brasil, sendo 28 no estado.
O nome da dona de casa Última Salles, de 67 anos, foi escolhido pelo próprio pai, após um parto difícil que quase tirou a vida dela e da mãe. Diante da situação, o pai, dizendo que não queria mais passar por aquele aperto cravou que o filho, se fosse menino ou menina, seria o “último” ou a “última”. Só que, na verdade, a filha acabou sendo a do meio. Ela já tinha oito irmãos e ganhou mais oito.
Moradora do Jardim Brasília, Última revela que o nome a incomoda e a faz passar por constrangimentos: “Quando estou em uma consulta e chamam por ‘Última’, todo mundo se levanta. Quando meu nome aparece no painel, todo mundo fica me olhando. Ninguém me leva a sério quando falo meu nome. Preciso soletrar, e, às vezes, acham que é trote”. Pra evitar esse tipo de situação, Última tem se apresentado como Ruti, mas poucos a chamam assim.
De acordo com o último Censo do IBGE, no Brasil 28 pessoas têm Última como primeiro nome, sendo 17 em Minas. Outras 24 pessoas no país usam a palavra como sobrenome.
A alteração do primeiro nome é permitida no Brasil e pode ser solicitada diretamente em cartório por qualquer pessoa maior de 18 anos, sem a necessidade de apresentar justificativa. O pedido deve ser feito presencialmente junto ao oficial de registro civil das pessoas naturais.
E quem está no processo de escolha do nome do filho precisa se atentar para regras estabelecidas pelo Código Nacional de Normas, do Conselho Nacional de Justiça.
Segundo as normas, o cartório pode recusar o registro de um nome que possa expor a criança ao ridículo. Caso os responsáveis não concordem, o oficial de registro deverá encaminhar o caso ao juiz, apresentando as justificativas do declarante pra que o magistrado decida.
O livro “Que Nome Darei ao Meu Filho?”, do casal de escritores Pandiá e Ana Pându, reúne cerca de 7.000 nomes encontrados nos mais diversos idiomas e já incorporados à língua portuguesa. A famosa obra brasileira funciona como um dicionário de nomes próprios e apresenta significados, apelidos, variantes e origens, além de personalidades famosas e horóscopos definindo o perfil dos bebês.