Diversos armamentos fabricados com impresso 3D foram apreendidos
Foto: Ministério da Justiça e Segurança Pública/Divulgação
Diversos armamentos fabricados com impresso 3D foram apreendidos
Foto: Ministério da Justiça e Segurança Pública/Divulgação
Uma organização criminosa que produzia e comercializava fuzis e outras "armas fantasma" — fabricadas com impressoras 3D — foi alvo de uma operação nacional, nesta quinta-feira (12/3), que cumpriu 36 mandados em Minas Gerais e outros 11 estados brasileiros. A operação "Shadowgun", coordenada pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), contou com o apoio da Polícia Civil mineira, que cumpriu mandados de busca e apreensão em Belo Horizonte, Betim e São José da Lapa, ambas na Região Metropolitana da capital.
De acordo com o MJSP, as investigações indicaram a existência de uma "rede estruturada" que desenvolvia, divulgava e comercializava os armamentos "de alto poder destrutivo" pela internet. "Esse tipo de armamento, por não possuir numeração de série e poder ser produzido com equipamentos acessíveis no mercado, é frequentemente classificado como 'arma fantasma', o que dificulta sua rastreabilidade e representa risco relevante à segurança pública", detalhou a pasta.
Além de Minas Gerais, também foram cumpridos mandados no Rio de Janeiro, São Paulo, Espírito Santo, Rio Grande do Sul, Pará, Paraíba, Sergipe, Santa Catarina, Goiás, Bahia e Roraima.
Com o apoio do Laboratório de Operações Cibernéticas (Ciberlab/Diopi/Senasp), foi identificada uma rede que compartilhava na dark web arquivos digitais, manuais de montagem e orientações para a produção clandestina destes armamentos. Para dificultar a rastreabilidade das transações financeiras, eles utilizavam criptomoedas, que depois eram investidos na aquisição de equipamentos, manutenção da infraestrutura digital e no financiamento das atividades do grupo criminoso.
Ainda conforme o MJSP, o grupo se apresentava publicamente como "defensores de projetos de código aberto. “A atuação coordenada entre as polícias civis, o Ministério Público e os órgãos de inteligência permite identificar e interromper estruturas criminosas que utilizam o ambiente digital para ampliar sua atuação. Esse trabalho conjunto fortalece a capacidade do Estado de prevenir e combater ameaças à segurança pública”, disse o secretário nacional de Segurança Pública, Chico Lucas.
Após o cruzamento de dados virtuais, a investigação identificou que parte dos destinatários destes armamentos tinham antecedentes criminais, inclusive com possíveis vínculos com milícias e organizações criminosas ligadas ao tráfico de drogas. Diante dos indícios, o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, por meio do CYBERGAECO, apresentou denúncia contra integrantes do grupo pelos crimes de organização criminosa, comércio ilegal de armas de fogo e lavagem de capitais.
O órgão de Justiça carioca pediu a condenação dos criminosos ao pagamento de R$ 2,3 milhões por danos morais coletivos, diante da "grave ameaça à segurança pública". A operação também contou com cooperação internacional, com participação da Agência Brasileira de Inteligência (ABIN), da agência norte-americana Homeland Security Investigations (HSI) e do Centro Integrado de Segurança Pública e Proteção Ambiental de Foz do Iguaçu (CISPPA-FIG).
Os levantamentos conseguiram identificar que o líder da organização era um engenheiro especializado em controle e automação, sendo o principal desenvolvedor técnico dos armamentos. Preso em Rio das Pedras, no interior de São Paulo, ele também seria o responsável por um manifesto ideológico que defendia o "porte irrestrito de armas". "O material circulou amplamente em redes sociais, fóruns e na dark web, criando um verdadeiro ecossistema clandestino voltado à produção e circulação de armamentos não rastreáveis", detalhou a Polícia Civil do Rio de Janeiro.
Utilizando um pseudônimo, o suspeito ainda compartilhava testes balísticos, atualizações de design e orientações sobre calibração e montagem das armas, incluindo um manual com mais de 100 páginas que permitia que qualquer pessoa com conhecimentos intermediários em impressão 3D conseguisse produzir uma arma em poucas semanas.
"As apurações apontaram que o principal produto disseminado pelo grupo é uma arma semiautomática impressa em impressora 3D e componentes não regulamentados. O projeto foi divulgado, acompanhado de um manual técnico detalhado e de um de um manifesto ideológico defendendo o porte irrestrito de armas. Além da difusão do projeto, o líder da rede também participava de debates ideológicos, incentivava a produção das armas fantasmas e utilizava criptomoedas para financiar suas atividades", completou a instituição policial.
Entre os líderes do grupo, ainda existiam outros três comparsas do engenheiro, que também foram alvo da operação. Eles atuavam como idealizadores e divulgadores do conhecimento acerca da produção dos armamentos. Um deles atuava no fornecimento de suporte técnico direto; outro cumpria a função de divulgador, analista e articulador filosófico do movimento; e o último era responsável pela propaganda e identidade visual.
"O principal alvo dos mandados de prisão, e líder da organização, produzia carregadores alongados de pistolas de diversos calibres na impressora 3D em sua residência e comercializava o material em uma plataforma de venda on-line. O material produzido por ele foi negociado com 79 compradores, entre 2021 e 2022", concluiu a polícia.