COLUMBOFILIA

Mensageiros alçados a atletas de alta performance

Criação de pombos-correios evoluiu pra modalidade esportiva; atividade centenária vem sendo mantida por novas gerações de competidores

Por Iêva Tatiana


Publicado em 15 de março de 2026 | 09:37
 
 
Edimilson Fernandes (à esquerda) se encantou pelo esporte há cerca de cinco anos; Fernando Nunes teve contato com a espécie ainda criança

Você provavelmente já viu uma revoada de pombos-correios sincronizada, acontecendo nos mesmos horários, diariamente, sem saber que a criação e o treinamento dessas aves fazem parte de um esporte de nome curioso: columbofilia. Na prática, os animais são transportados e soltos em locais distantes dos criatórios. Vencem aqueles que retornarem primeiro aos seus pombais de origem (o pouso final é registrado por meio de equipamentos eletrônicos). As competições ocorrem em três modalidades: velocidade (distâncias curtas), meio-fundo e fundo (distâncias médias e longas).

Aqui, no município, existem atualmente cerca de 50 criadores de pombos-correios desportistas, de acordo com o vice-presidente do Clube Columbófilo de Betim, Edimilson Fernandes. No caso dele, a prática teve início em 2021, mas sem a pretensão de participar de provas. No entanto, ele acabou tomando gosto pelo esporte, apesar da rotina puxada que ele exige. Fernandes acorda todos os dias às 4h30 para limpar o pombal, soltar as aves competidoras e tratar das que são exclusivas para reprodução. “Temos que ter o máximo de higiene, senão elas adoecem”, ressalta o criador, que vive no bairro São João.

Os cuidados com a espécie incluem a aplicação de remédios contra parasitas; ração diferenciada, com grãos selecionados; vitaminas; vacinação; anilhas para os filhotes; e chips para as provas. Toda essa dedicação vem trazendo bons resultados. Fernandes, que possui aproximadamente 200 aves, já realizou solturas a cerca de 600 km de casa – chegando próximo à divisa com a Bahia – e acumula troféus de campeonatos regionais e estaduais. “Comecei há cinco anos e não paro mais”, afirma o criador.

Costume de gerações

Fernando Nunes é outro columbófilo betinense. A paixão pelo esporte foi herdada do pai e do irmão mais velho, atual parceiro na atividade. Após um breve hiato na prática, os dois retomaram a criação de pombos-correios em 2024 e, hoje, possuem cerca de 60 aves em um criatório no bairro Guanabara. “Muitas pessoas não sabem muito a respeito e julgam com base nos pombos comuns, de rua. O correio foi trazido para o Brasil pelos portugueses e é um animal espetacular. Ele tem muita garra para voltar pra casa, com uma determinação fora do comum”, destaca o criador, frisando que grande parte das aves vem de países como Bélgica, Portugal, Alemanha e Espanha, considerados os berços da columbofilia. 

Por aqui, os campeonatos geralmente são realizados em maio e junho para os filhotes (distâncias mais curtas) e a partir de julho para os adultos, coincidindo com o período de estiagem. Nunes explica que cada ave se destaca em um tipo de competição: umas se saem melhor nas provas de velocidade, e outras, nas de fundo. “Quando vamos fazer a seleção dos casais para reprodução, olhamos o pedigree e o histórico de desempenho. Para nós, as aves são atletas e precisam seguir uma rotina cravada”, diz o columbófilo.

Pombos-correios têm capacidade de percorrer longas distâncias e voltar pra casa (Foto: Carolina Miranda)

 

Prática exige cuidados

Especialista em aves, a veterinária Nayara Araújo afirma que mesmo entre os profissionais da área a columbofilia é considerada inusitada por não ser comum. Ela ressalta que existem três tipos de pombos: o urbano, o correio e o asa branca, cuja criação em cativeiro não é permitida. “O correio apresenta mais resistência física e instinto de retorno. Ele também possui uma saliência mais avantajada acima das narinas e é maior, mais robusto”, compara Nayara.

Na prática esportiva, a veterinária reforça a importância de os limites das aves serem respeitados, sobretudo nas temporadas de competições. “É preciso haver higiene no pombal, que precisa ser ventilado e não deve ter um grande número de pombos juntos”, sublinha a especialista. “O preconceito de algumas pessoas ainda é muito grande, mas estamos conseguindo mudar um pouco essa mentalidade e mostrar que a ‘doença do pombo’ é, na verdade, um fungo que cresce nas fezes dele, nem é culpa da ave”, conclui.

Aves da espécie têm ‘bússola biológica’

Chamadas de pombos-correios por terem sido utilizadas para essa finalidade no passado, as aves dessa espécie tiveram grande importância em momentos históricos, como as duas guerras mundiais, levando mensagens de soldados entrincheirados. A incrível capacidade de conseguirem sempre retornar ao local onde vivem é explicada pelo veterinário especialista em animais silvestres e exóticos Thiago Freitas. “O pombal é o local em que as aves encontram segurança, alimento, parceiro reprodutivo e onde estabelecem o seu território. Elas utilizam uma combinação de pistas naturais, incluindo o campo magnético da Terra (funcionando como uma espécie de bússola biológica), a posição do Sol, odores transportados pelo vento e referências visuais da paisagem para voltar pra casa”, diz Freitas.

Saiba mais

Columbofilia é, por definição, a arte da criação e do treino de pombos-correios. A palavra tem origem no radical latim ‘columbus’, que significa pombo, e no sufixo grego ‘filia’, que quer dizer afeição ou interesse.