ECONOMIA

Grupo SADA faz 50 anos e avança em biocombustíveis e empreendedorismo com responsabilidade social

Vittorio Medioli, fundador e presidente do Grupo SADA, é o entrevistado de hoje na Temporada Minas S/A Legados

Por Helenice Laguardia

Publicado em 21 de março de 2026 | 12:56

 
 
Vittorio Medioli, fundador e presidente do Grupo SADA, é o convidado de hoje da temporada Minas S/A Legados em todas as plataformas de O Tempo. O Grupo SADA é o maior conglomerado de logística e transporte de veículos da América Latina Vittorio Medioli, fundador e presidente do Grupo SADA, é o convidado de hoje da temporada Minas S/A Legados em todas as plataformas de O Tempo. O Grupo SADA é o maior conglomerado de logística e transporte de veículos da América Latina Foto: Daniel de Cerqueira/ O Tempo
Helenice Laguardia
Colunista de Opinião
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Vittorio Medioli, fundador e presidente do Grupo SADA, é o convidado de hoje da temporada Minas S/A Legados em todas as plataformas de O Tempo.

À frente do maior conglomerado de logística e transporte de veículos da América Latina, que celebra meio século de história em 2026, o empresário, marcado por uma trajetória política de destaque, detalha como a ética da utilidade e o compromisso com a geração de valor social transformaram uma pequena operação de armazenagem em um gigante multissetorial.

Com presença robusta na indústria, energia, siderurgia e comunicação, o executivo compartilha sua experiência de resiliência e discute a nova fronteira sustentável do grupo: a descarbonização da frota e o investimento bilionário em biocombustíveis.

Da sucessão familiar guiada por valores ao despertar da consciência corporativa, Medioli reflete sobre o legado de quem escolheu edificar soluções para a sociedade.

A seguir, a entrevista de Vittorio Medioli com a íntegra em vídeo:

Você nasceu em Parma, na Itália, e conta ter chegado ao Brasil aos 25 anos para montar a empresa com um “sonho tropical”. Você esperava que o Grupo SADA se tornasse o maior conglomerado logístico e de transporte de veículos da América Latina?

Olha, ninguém pode imaginar o futuro. O pensamento, as ideias e as metas acabam evoluindo. Vivendo, você adquire conhecimentos, experiência, desperta a sua consciência e passa a conhecer as consequências de cada ação. Portanto, as boas ações são as mais importantes: construir, edificar, gerar soluções e ser útil à sociedade. Tenho muitas oportunidades onde me chamam dizendo: “Olha, dá para ganhar um montão de dinheiro com isso ou aquilo”. Mas eu me pergunto: é bom não apenas para mim, mas para a sociedade? O que eu vou fazer vai somar, vai ampliar o PIB (Produto Interno Bruto), ou serei apenas um que vai explorar o PIB? Minha função sempre foi a de ampliar o bolo, e não apenas tirar a maior fatia. Essas são regras que a maioria dos empresários não colocam: a consciência daquilo que você faz.

Como o Grupo SADA foi se formando? Qual a lógica por trás do negócio?

Eu entrei no transporte, na indústria de ponta, alta tecnologia, fundições, reflorestamento, bioenergia e indústria automatizada. Temos seis ou sete setores, incluindo editoria e comunicação. Chegamos a fazer um jornal, o Super, que de repente se tornou o mais vendido do Brasil. Por que teve tanto sucesso? Fizemos um jornal de utilidade. Como um smartphone é útil, todo mundo usa. O Steve Jobs (fundador da Apple) montou algo útil; partiu da utilidade, e foi isso que fez o sucesso dele. Ganhou muito dinheiro como consequência.

Como foi acontecendo a diversificação do Grupo SADA?

Minhas atividades tiveram sucesso e ganhei dinheiro porque eram voltadas à utilidade e de forma diversificada. Hoje investimos muito na descarbonização, reciclagem, economia verde e reflorestamento. O ramo de logística hoje representa 50% das receitas do Grupo SADA. Como grupo, sequestramos três ou quatro vezes mais carbono do que emitimos. Não conheço outra empresa no mundo que faça isso nessa proporção. Começamos em 2002 um plano de conversão. No último ano, produzimos 140 milhões de litros de biocombustível, enquanto nossa frota gastou cerca de 120 milhões. Já compensamos.

Na produção de etanol de milho o grupo está fazendo um megainvestimento de mais de R$ 1 bilhão.

Agora estamos entrando na produção de biodiesel de milho. Nosso plano é chegar a 30 milhões de litros de biodiesel até 2029. Em Itaúna de Minas, queremos chegar a meio milhão de litros, pois as usinas de milho que estamos montando são de grande porte. Estamos investindo mais de R$ 1 bilhão nelas. Só que em Minas Gerais você tem dificuldade para licenciar uma usina de milho. No Brasil hoje existem R$ 60 bilhões de investimentos em usinas de etanol de milho, e não há um centavo em Minas Gerais; estão indo para Mato Grosso do Sul, Bahia, Piauí. Sobre o etanol de milho, a ignorância é achar que é poluente. É o contrário da cana; são duas rotas diferentes. O etanol de cana produz vinhaça, que é poluente se não for tratada. O etanol de milho não produz vinhaça. O resíduo do milho tem proteínas altas e, após destilar o álcool, o resto é evaporado e agregado ao farelo do milho, tornando-se fibra e alimento.

Você acredita que estamos vivendo um processo de êxodo industrial?

Aqui, em Minas Gerais, querem licenciar esse processo como se fosse etanol de cana. Em Goiás, nós vamos inaugurar a usina agora em agosto; aqui não conta nem com o licenciamento. É uma atividade limpa e merecida para a humanidade, porque estamos produzindo um renovável com alimentação e biodiesel. O licenciamento lá fora é simplificado. Se você monta uma usina flex dentro de uma usina de cana, ela ajuda a despoluir. Estamos migrando, todos os equipamentos estão indo para Mato Grosso. Nosso projeto está quase pronto e vamos levar para lá. Em Goiás ou Mato Grosso, há um incentivo de cerca de 10% de crédito presumido do ICMS. Aqui, não; você produz no semiárido e paga o ICMS inteiro. Na Bahia, que é menos semiárido do que do lado de cá, tem o crédito presumido e muitos outros incentivos. Aqui você paga o imposto cheio.

Quantos empregos você está gerando no Norte de Minas?

O projeto é para produção de 600 m³ de etanol por dia durante 300 dias. Geraria cerca de 200 empregos diretos e uma produção de 70 mil a 80 mil toneladas de farelo. Aquela região tem muita necessidade de alimento proteico; deixaríamos o alimento lá e a região viraria autossuficiente, fornecendo até para a Bahia. Desenvolveria a produção de sorgo, só que não tem ninguém que se interesse. Dizem: “Ah, não posso fazer uma renúncia”. Não é renúncia. Mesmo sem a renúncia, estávamos dispostos a fazer, mas quem vai se instalar onde se paga 10% a mais de imposto? Se vem uma empresa para se instalar, você tem que estender o tapete vermelho. Ela vem criar oportunidade de emprego, aumentar a arrecadação e trazer desenvolvimento tecnológico, que são a base do desenvolvimento. O desenvolvimento não é feito pelo serviço público. Se você não tem esse espírito de fomento, você destrói a sociedade.

Vittorio, você pensa em voltar à Prefeitura de Betim ou ser candidato na próxima eleição?

Não, vou fazer 75 anos. Quero aproveitar cada dia. Valores e princípios são as coordenadas do sucesso. Não é esperteza. Claro que você não pode ser um “bronco”, mas as coordenadas são os princípios. Na minha atividade como prefeito, peguei um município quebrado e deixei-o cheio de dinheiro. Refiz tudo e fizemos muito com nada. Paguei dívida pública e previdenciária. Recebi uma dívida de R$ 2 bilhões que caminhava para R$ 4 bilhões, e deixei apenas R$ 247 mil para pagar porque não podia quitar na hora, mas em compensação havia R$ 800 milhões em caixa. Tivemos um saldo positivo de mais de R$ 500 milhões em Betim.

Mas e para deputado estadual? Já vi você falando que estuda essa possibilidade.

Sinto-me motivado a colaborar porque já fui à Assembleia Legislativa muitas vezes e não sinto que consiga conversar lá como gostaria. Como deputado, teríamos mais voz para explicar aos colegas: “Gente, não dá para fazer isso, quem paga é o povo”. Um deputado tem tribuna e pode convencer outros a não cometer erros. Por exemplo, a Copasa não pode tirar água de quatro ou cinco bairros só para dar lucro. Eu fiz ações contra ela como prefeito. Por isso, não gostaria que fosse privatizada totalmente; ela tem um dever público. Poderia haver um fatiamento de operações, com a Copasa sendo gestora de terceirizações, mas sem perder o interesse público. Saneamento e água não podem ser vistos apenas como negócio. Na eletrificação estamos melhor, mas ainda há necessidade de investimento alto. Deveria haver mais espírito público. A Codemge está sentada em trilhões de dólares em jazidas. É preciso monetizar esse potencial.

Como você entende seu legado? Você e Laura criaram suas filhas – Daniela e Marina – como gestoras do grupo, não apenas como herdeiras. Você tem orgulho desse legado?

Cada ser humano é único, fruto de experiências e herança genética. Se o jovem tiver uma formação dada pelo exemplo dos pais, isso representa muito. Eu deixei as regras morais, éticas e os valores. Não significa que, porque fui um grande empresário, elas tenham que ser. Elas têm que viver uma vida realizada. Enquanto estou aqui, conduzo as empresas, mas o importante é o que você faz. Elas vão encontrar o caminho delas. Eu nasci para ser empresário. Quando cheguei ao Brasil, queria ter apenas uma pequena empresa; não imaginava chegar a este ponto. Tudo conspirou para que os desafios me empurrassem à frente. Quando cheguei, Minas Gerais era um “cangaço”, estava tudo para ser feito. O clima entre os empresários não sinalizava o progresso. Há uma riqueza exorbitante aqui que temos que colocar à disposição do mundo. O que falta ao povo é educação. Em Betim, fizemos uma revolução na educação. Os países com melhor IDH são os que têm melhor educação. A criminalidade é fruto dessa falta. Ainda havia um resquício da mentalidade de escravidão quando cheguei da Europa, 50 anos atrás. Hoje as novas gerações estão se descontaminando disso. Sobre inclusão: para mim, a melhor inclusão é a não discriminação. No meu governo, nunca discriminei ideologia, minorias ou cores; tratei todo mundo de maneira igual. Isso é um fato cultural, não se resolve apenas por decreto ou na pancada, o que pode até recrudescer o fenômeno. No Grupo SADA, temos um trabalho forte com o terceiro setor e atendimento a crianças. A escravidão real acabou, mas subiu para outra esfera e vai se diluindo com o exemplo e a escola.

Como você quer ser lembrado?

Quero ir embora tranquilo, com a consciência de que fiz o bem, respeitei as pessoas e criei muitos empregos onde era um deserto. Acho que cumpri meu dever com a humanidade. Quando vim para o Brasil, meu guru disse: “Você vai fazer muito bem ao Brasil”. Acho que cumpri. Não é fácil, porque tem muita gente que não quer o bem. Na Bíblia diz que a porta para a evolução é muito estreita; eu quase passei por ela. Procurei me conduzir de maneira positiva. Quando fui deputado (federal), sofri discriminação por ser italiano – diziam que era mafioso. A discriminação dói. A máfia na Itália é restrita, mas as pessoas usam isso por inveja para atacar uma raça. Esquecem que a Itália deu ao mundo São Francisco, Leonardo da Vinci, Marconi, Enrico Fermi e as artes. Aqui, no Brasil, parece que a pessoa não pode fazer sucesso sem que digam que tem algo errado. Na Florença renascentista, centenas de personalidades surgiram porque havia educação. Hoje, você liga a televisão e é só bebedeira e gozação. O mundo está superpovoado e difícil, mas continuo realizando sonhos. Acabei de realizar um agora, depois de dez anos tentando: a usina de reciclagem IGAR.

A mentalidade de sustentabilidade persiste na família?

Eu lembro que nós pegávamos um saco e limpávamos a praia, pegávamos tudo o que tinha de plástico. Falavam: “Você está doido, você vai a Angra dos Reis para limpar a praia?”. E eu dizia: “Não, mas eu me sinto bem”. Limpávamos a praia e tudo. Ensinei a Marina a fazer mergulho – eu gostava muito quando ainda tinha idade para isso. Mergulhávamos para limpar o fundo do mar, a 5 m, 6 m, até 9 m de profundidade. Recolhíamos tampinhas, garrafas... ali aprendemos a limpar o fundo do mar.

É a consciência de um planeta limpo, não é?

Sim. Eu tinha outros amigos que perguntavam: “O que você fez hoje?”. Eu dizia: “Limpamos a praia”. Diziam que eu era doido, que eles tinham tomado não sei quantas garrafas de Chandon (champanhe). Eu falava: “Não, eu vou dormir cedo, não me interessa tomar um porre e ter dor de cabeça”. Eu nasci com determinada condição, só que apanhei demais na minha vida. Fiz transplante de fígado, sofri muito. Já me despedi do mundo aos 60 anos porque não acreditava mais.