CONSCIENTIZAÇÃO

Campanha Março Azul reforça importância do diagnóstico precoce do câncer colorretal

História de paciente em Betim e orientação médica de especialista mostram como sintomas silenciosos podem atrasar tratamento e por que prevenção é essencial

Por Marcio Antunes

Publicado em 27 de março de 2026 | 11:18

 
 
Regina de Jesus conta detalhes do seu tratamento; coloproctologista Matheus Massahud explica como prevenção e diagóstico precoce são fundamentais para a cura Regina de Jesus conta detalhes do seu tratamento; coloproctologista Matheus Massahud explica como prevenção e diagóstico precoce são fundamentais para a cura Foto: Brandon Santos

“Na hora, a primeira coisa que vem na cabeça é: eu vou morrer.” A lembrança é da técnica de enfermagem Regina Paula de Jesus, de 50 anos, ao receber o diagnóstico de câncer colorretal, em 2022. O susto deu lugar a uma jornada intensa de tratamento, fé e superação — e hoje, a poucos meses de concluir o período de remissão, ela transformou a própria história em ferramenta de acolhimento para outras pessoas.

Regina sempre manteve exames de rotina, mas não deu atenção inicial a sintomas como prisão de ventre e pequenos desconfortos. O alerta veio com o sangramento. “Achei que fosse hemorroida. Mas quando vi que persistia, procurei ajuda”, conta. A orientação médica levou à colonoscopia, que confirmou o câncer.

O tratamento foi imediato: sessões combinadas de radioterapia e quimioterapia, seguidas de uma cirurgia delicada realizada em dezembro de 2023. Como consequência, Regina passou a usar uma bolsa de colostomia definitiva — um dos momentos mais difíceis de todo o processo. “Não foi fácil aceitar. Eu chorava muito. Mas depois entendi que aquilo estava me dando uma nova chance de viver”, afirma.

A adaptação exigiu tempo, apoio familiar e acompanhamento profissional. Hoje, Regina leva uma vida ativa, sem esconder a condição. “Eu vou à praia, ao clube, não tenho vergonha. A bolsa me deu vida”, diz. Além da recuperação física, ela encontrou um novo propósito. Como voluntária e palestrante do projeto IUNA Guerreiras, acolhe pacientes recém-diagnosticadas. “É um momento muito frágil. A gente leva informação, carinho e mostra que é possível seguir em frente”, destaca.

Atualmente em acompanhamento médico, Regina aguarda a confirmação oficial da remissão, prevista para 2027 — marco dos cinco anos sem recidiva da doença. “Hoje eu sou mais feliz do que antes. A fé e a vontade de viver transformam tudo”, resume.

Diagnóstico precoce é decisivo para cura

O câncer colorretal, também conhecido como câncer do intestino, costuma evoluir de forma silenciosa e, por isso, exige atenção. No Brasil, em média, são registrados 50 mil novos casos por ano, de acordo com dados do Instituto Nacional do Câncer (Inca).

Segundo o coloproctologista Matheus Massahud, da unidade Betim-Contagem da Rede Mater Dei de Saúde, um dos principais desafios está na identificação dos sinais. “Os sintomas mais comuns são sangramento nas fezes, dor abdominal persistente, alteração no hábito intestinal, fezes mais finas e até perda de peso. Mas nenhum deles é específico do câncer”, explica.

Na prática, isso significa que muitos pacientes acabam confundindo os sinais com problemas mais simples, como hemorroidas, prisão de ventre ou até estresse. “Esse é o grande risco. Como são sintomas comuns a outras doenças, muitas pessoas acabam adiando a procura por atendimento médico”, alerta.

Entre as causas, o especialista destaca que o envelhecimento ainda é o principal fator de risco, mas chama atenção para mudanças no perfil dos pacientes. “A gente tem visto um aumento de casos em pessoas mais jovens, e isso está muito relacionado ao estilo de vida”, afirma.

Alimentação rica em carnes processadas, consumo frequente de ultraprocessados, sedentarismo, obesidade, tabagismo e álcool em excesso estão entre os principais fatores associados à doença. O histórico familiar também pesa, embora a maioria dos casos surja de forma espontânea, sem antecedentes.

Apesar do cenário preocupante, o médico ressalta que o câncer colorretal tem alto potencial de prevenção. “Na maioria das vezes, ele começa como um pólipo, uma lesão benigna que pode ser retirada durante a colonoscopia antes de se transformar em câncer”, explica.

O exame, indicado a partir dos 45 anos — ou antes, em pessoas com histórico familiar — é considerado essencial. “É uma oportunidade real de evitar a doença.”

Quando o diagnóstico é confirmado, o tratamento envolve diferentes especialidades e, na maioria dos casos, inclui cirurgia para retirada do tumor. Dependendo do estágio, pode haver նաև quimioterapia e, em alguns casos, radioterapia.

“O diagnóstico precoce muda completamente o cenário. Em estágios iniciais, as chances de cura chegam a mais de 90%. Já em casos avançados, esse índice cai significativamente”, destaca.

Sobre um dos maiores medos dos pacientes, o uso da bolsa de colostomia, o médico faz um esclarecimento importante: “Não é uma regra. Na maior parte das cirurgias programadas, conseguimos evitar a bolsa definitiva. E, quando ela é necessária, muitas vezes é temporária”.

Como orientação final, ele reforça a importância do autocuidado. “Não ignore sinais do seu corpo. Sangramento não é normal. Alterações intestinais persistentes também não. E, principalmente, não deixe de fazer os exames por medo. A prevenção ainda é o melhor caminho.”