DIA INTERNACIONAL DA MULHER

Elas quebram tabus e ascendem em ambientes masculinizados

Neste 8 de março, O TEMPO Betim reúne histórias de mulheres que estão rompendo barreiras de gênero

Por Iêva Tatiana e Márcio Antunes


Publicado em 08 de março de 2026 | 09:00
 
 
Conheça as histórias de seis mulheres que vêm desbravando territórios e se firmando como profissionais em áreas ainda masculinizadas

Neste domingo (8), é celebrado o Dia Internacional da Mulher, data que simboliza uma luta histórica por direitos, equidade e respeito. A celebração se originou de movimentos trabalhistas e feministas do fim do século XIX e do início do século XX, período em que as mulheres começaram a reivindicar melhores condições de trabalho, direito ao voto e oportunidades iguais.

Mais de um século depois, elas continuam lutando contra a desigualdade, a discriminação e a violência, ao mesmo tempo em que rompem barreiras de gênero e avançam na ocupação de espaços historicamente dominado por homens. Nesta matéria especial, o jornal O TEMPO Betim traz as histórias de seis mulheres que vêm desbravando territórios e se firmando como profissionais em áreas ainda masculinizadas. Nestas páginas, você vai conhecer um pouco das trajetórias de Larissa Oliveira, Júlia Mendes, Daiane Guerci, Suellen Reis, Lúcia Helena Lino e Midiã Fernandes.

Larissa Oliveira está no jogo

A jovem Larissa Oliveira, de 24 anos, entrou em um campo em que ainda predomina a presença masculina: desde março de 2022, ela é árbitra assistente de futebol (conhecida como bandeirinha). Ex-jogadora, com passagens por equipes como Anjos da Lei, Marquense e Lokomotiv, ela conta que sempre gostou do esporte. “Com o tempo, a gente vai crescendo e tendo que buscar outras oportunidades. Estava na faculdade de educação física, e surgiu a oportunidade de fazer o curso na liga de Betim”, relembra.

Larissa diz ainda que enfrenta desafios, principalmente o de ser subjugada por jogadores e torcedores. “A gente tem que buscar ser duas vezes melhor do que os homens”, afirma. 

“Deveriam nos dar mais visibilidade e mostrar que somos tão capacitadas quanto eles, além de valorizar nossos acertos – não somente os erros – e mostrar o esforço que fazemos para estar lá”, conclui.


Júlia Mendes criou perfil sobre automobilismo

A biomédica e criadora de conteúdo Júlia Mendes, de 23 anos, tem ocupado um espaço que, por muito tempo, foi dominado por homens: o do automobilismo. À frente do perfil @formulaweek, ela produz conteúdo sobre o esporte, especialmente a Fórmula 1, e mostra que a presença feminina tem se tornado cada vez mais comum.

Júlia afirma que a experiência vem sendo mais positiva do que imaginava, embora ainda enfrente desafios, principalmente o preconceito velado nas redes sociais. 

A jovem destaca que a ausência feminina no grid não está ligada à falta de talento, mas a fatores como alto custo, pouca base no kart e escassez de patrocínio. Ainda assim, ela mantém o otimismo. “Quanto mais mulheres se posicionarem e permanecerem firmes no que amam, mais natural essa presença se tornará”, diz. Para ela, sua geração já encontra mais abertura e espaço para ocupar esses lugares.


Daiane Guerci encara o volante

A caminhoneira Daiane Guerci Rosa, de 32 anos, conhecida como Menina Caminhoneira, representa uma geração que começa a ocupar com mais força espaços historicamente masculinos no transporte de cargas. Há três anos na profissão, ela divide o volante com o marido e vivencia, na prática, os desafios e os avanços da presença feminina nas estradas brasileiras.

Daiane afirma que, embora perceba mais abertura para as mulheres, o preconceito ainda faz parte da rotina. “Já ouvi comentários machistas e passei por situações desconfortáveis por ser mulher na boleia”, relata. Segundo ela, muitas vezes, é preciso provar competência em dobro. “Aprendi a me posicionar e mostrar meu profissionalismo porque, no fim das contas, a estrada não tem gênero, tem responsabilidade”, afirma. 

Daiane observa que o número de mulheres nas boleias tem crescido e acredita que esse movimento tenha um efeito multiplicador. Para ela, cada motorista que ocupa esse espaço ajuda a abrir caminho para outras. “Espero que, no futuro, ver uma mulher dirigindo um caminhão seja algo normal, sem surpresa ou julgamento”, conclui a Menina Caminhoneira.

Suellen Reis, Lúcia Lino e Midiã Fernandes são as primeiras mulheres a comandar suas respectivas instituições (Fotos: Carolina Miranda, PMMG/Divulgação e Brandon Santos)

 

Mulheres assumem cargos inéditos na segurança pública

Para além da conquista de um direito, a igualdade de gênero e o empoderamento de mulheres e meninas é um dos objetivos de desenvolvimento sustentável da Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU). Em Betim, as mulheres vêm conquistando avanços importantes nesse sentido e protagonizando histórias inéditas ao assumirem postos de trabalho até então ocupados exclusivamente por homens. Três exemplos estão concentrados na segurança pública. 

O mais recente é o da tenente-coronel da Polícia Militar Lúcia Helena Lino, primeira mulher a comandar um batalhão no município. “Mesmo quando duvidamos da nossa capacidade, temos que estudar, buscar e conhecer para diminuir qualquer tipo de resistência”, pondera.

A comandante da Guarda Municipal, Midiã Fernandes, também entrou pra história quando assumiu o cargo. “Vejo um futuro otimista, com a crescente importância da representatividade feminina em cargos de liderança”, afirma Midiã.

Já Suellen Reis, superintendente de Defesa Civil, foi a primeira profissional feminina nomeada titular do órgão. “É desafiador, e, às vezes, temos que provar mais a nossa competência, mas sempre fui respeitada nesta função”, diz.

Suellen Reis comanda a Defesa Civil de Betim

A superintendente de Defesa Civil de Betim, Suellen Reis, de 33 anos, alcançou um feito inédito ao assumir a pasta, nunca antes comandada por uma mulher. Ela conta que foi bem-recebida e tratada de maneira respeitosa por toda a equipe desde que ingressou na autarquia, em 2020, ainda com um contrato temporário.

O cenário, no entanto, nem sempre foi pacífico. Formada em engenheira civil, com especializações em avaliação e perícias de engenharia e em engenharia geotécnica, Suellen recorda-se da época em que trabalhou em um canteiro de obras. “Eu tinha apenas 21 anos e já coordenava três equipes formadas por homens. Foi muito desafiador. Eu voltava pra casa chorando e questionando minhas escolhas”, relembra.

Já na Defesa Civil, ela conta que encontrou sua vocação ao unir a engenharia e a assistência social. “É muito gratificante, e eu me sinto realizada”, avalia. “Aos poucos, com jeitinho, no dia a dia, vamos conquistando o nosso espaço”, completa. 

Midiã Fernandes está à frente da GM

À frente da Guarda Municipal de Betim há dois anos, a comandante Midiã Souza Fernandes, de 43 anos, primeira mulher a ocupar esse posto, construiu uma trajetória marcada por desafios e conquistas em um espaço tradicionalmente ocupado por homens. Especialista em gestão de segurança pública, ela destaca que assumir o comando da Guarda Municipal foi um marco, embora já estivesse na corporação desde 2010. Ao longo da carreira na Guarda, Midiã atuou como inspetora e subcomandante, acumulando experiência em funções estratégicas.

Apesar dos desafios que ela e outras tantas mulheres ainda enfrentam em ambientes historicamente masculinos, Midiã vê o futuro de forma otimista, com a “crescente importância da representatividade feminina em cargos de liderança”. “E, assim, vamos rompendo as barreiras preconceituosas”, pontua.

Tenente-coronel Lúcia Lino faz história na PM

A tenente-coronel da Polícia Militar (PM) Lúcia Helena Lino, de 44 anos, tornou-se a primeira mulher a comandar um batalhão em Betim ao assumir, nesta semana, a titularidade do 66° BPM. Militar há 26 anos, ela afirma que, embora os homens ainda sejam maioria na corporação, não enfrenta desigualdade de gênero e compete com igualdade por uma promoção, por exemplo. “Como fazemos o treinamento em conjunto, creio que a instituição seja mais amadurecida nesse aspecto”, diz. 

Ainda assim, ela ressalta a necessidade de haver agentes femininas atuando na segurança pública, sobretudo na prevenção à violência doméstica. “É importante termos mulheres na rua e no planejamento”, afirma.