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Nem cão nem gato: pets fora do comum são o foco

Tutores estão optando por animais ‘diferentões’ já legalizados pra serem criados em ambiente doméstico

Por Iêva Tatiana


Publicado em 12 de abril de 2026 | 09:00
 
 
Da esquerda para a direita, os tutores Thiago Freitas, João Victor Abdanur e Adeniane Sousa com seus pets não convencionais

Enquanto para uns a escolha do animal de estimação é óbvia, para outros ela passa longe do convencional – mas dentro da legalidade, vale ressaltar. O estudante de medicina veterinária João Victor Abdanur, por exemplo, tem a jiboia-da-areia (ou sand boa) Khaleed Mubak, de 6 anos, a jiboia arco-íris Elowena Eytiri, de 4, e o sapo pacman Fiona, de 3 anos. 

Engana-se quem pensa que os “bichinhos” têm relação com a formação acadêmica. No caso dele, a lógica é inversa: foi a paixão pelos animais que delineou a vocação profissional. “Sou do interior, de Araxá [no Alto Paranaíba], e sempre tive bicho esquisito, desde pequeno, mas não tinha noção de legalização. Por volta dos 17 anos, comecei a pesquisar sobre procedência. Mais tarde, quando me mudei para a região metropolitana pra estudar, fui a um criatório de Betim com um grupo de estudos da faculdade e saí de lá com uma jiboia”, brinca Abdanur. Ele de fato adquiriu o réptil naquela ocasião, mas só levou a Elowena pra casa depois de preparar o ambiente para a chegada dela. Cerca de um ano depois, encantou-se pela Fiona ao ver sapos da espécie dela em uma publicação na internet. Por fim, veio o Khaleed, herdado de outro tutor que não pôde mais ficar com ele. 

O estudante afirma que, embora o trio não dê muito trabalho nem gere gastos exorbitantes, exige cuidados específicos, como atenção aos níveis de temperatura e umidade, além de adequações constantes. “Com as serpentes, por exemplo, não basta ter um terrário. Sempre faço o enriquecimento do espaço com troncos. Não tenho serpentes apenas por achá-las bonitas, mas porque gosto de criá-las e entendê-las”, ressalta o futuro veterinário, que já faz planos de ter também uma tarântula.

Paixão antiga

A história de Adeniane Sousa com a arara canindé Safira, de aproximadamente 8 meses, teve início em uma viagem ao Ceará. A advogada teve contato com o tutor de uma ave da mesma espécie no local e se encantou pela beleza do animal. Ela conta que sempre foi uma grande admiradora dessa classe e, naquele momento, teve certeza de que queria uma arara. Adeniane, então, pegou o contato do criatório e começou a se inteirar de tudo o que precisaria fazer para receber a nova moradora em casa. “Quando ela chegou, foi muito desafiador. No início, eu tinha que dar papinha para ela. É algo muito importante pra gente criar vínculo, mas, como trabalho fora, tinha que ir e voltar para ofertar as refeições diárias corretamente. Hoje, ela está completamente domesticada, dá e recebe muito carinho”, afirma a advogada, revelando que recebe muitas visitas por conta da arara canindé. “Estou vivendo um sonho. Voltar pra casa tem sido uma das melhores coisas para mim. É terapêutico ter um animal desses. Ela quer sempre interagir, brincar, estar perto”, diz Adeniane, revelando também que o pet tem personalidade forte e não aceitou o nome escolhido. “Eu pensei em Safira antes mesmo de ela chegar, mas ela não me atende de jeito nenhum. Tentei vários outros nomes e nada também. Um dia, uma amiga sugeriu Bibi Poderosa [em alusão à personagem homônima da novela ‘A Força do Querer’, da TV Globo]. Na hora que eu falei Bibi, ela grasnou”, diverte-se a tutora.

Do trabalho pra casa

Além de atender bichinhos de toda variedade no dia a dia, o especialista em animais silvestres e exóticos Thiago Freitas também é o tutor orgulhoso de duas serpentes: a jiboia arco-íris Fred, de 10 anos, e a jiboia amazônica Cassandra, de 7. Curiosamente, os caminhos do veterinário e dos répteis se cruzaram por acaso. “Ganhei o Fred de uma moça que viu que aquele não era o pet ideal pra ela. Ele está comigo há cerca de oito anos. A Cassandra tem uma história parecida: um amigo precisou viajar para fora do país e a deixou comigo, há uns dois anos”, relembra Thiago Freitas.

O veterinário conta que nunca havia tido um pet diferente, mas sempre foi apaixonado por silvestres e exóticos. Segundo ele, a experiência tem sido tranquila e bem-ajustada à rotina de trabalho. “Os custos de manutenção são baixos. Com cerca de R$ 20 por mês, você cuida de uma jiboia arco-íris adulta. São animais que defecam pouco e bebem pouca água. Se eu fizer uma pequena viagem, nem preciso me preocupar”, frisa o profissional.

Freitas ressalta que, antes de optar por um pet não convencional, é fundamental que os tutores avaliem se terão disponibilidade de tempo, infraestrutura adequada, acessórios e uma reserva financeira para eventuais emergências. “O ideal é fazer uma consulta de preparação para a chegada do animal e não se basear em vídeos da internet. Noventa por cento dos casos de bichos que adoecem após a compra estão relacionados ao manejo”, pontua o veterinário, destacando o preconceito que ainda existe em torno das serpentes. “No Brasil, anualmente, morrem cerca de 30 mil pessoas em acidentes ofídicos e mais de 150 mil serpentes, a maioria delas não peçonhenta. Então, qual animal é mais perigoso?”, pondera.