INCLUSÃO

Proteger ou não expor? Quando é a hora certa para identificar crianças autistas?

Regulação sensorial e identificação ainda geram receio de estigmatização; mães atípicas falam dos dilemas que estão vivendo com filhos diagnosticados

Por Marcio Antunes

Publicado em 23 de abril de 2026 | 21:00

 
 
Assistente social, Alexsandra Azevedo do Amaral Souza enfrenta a rotina da maternidade atípica após o diagnóstico de TEA do filho Samuel, de 7 anos
Assistente social, Alexsandra Azevedo do Amaral Souza enfrenta a rotina da maternidade atípica após o diagnóstico de TEA do filho Samuel, de 7 anos Foto: Carolina Miranda

Proteger ou não expor? O dilema atravessa a rotina de muitas famílias após o diagnóstico do Transtorno do Espectro Autista (TEA), especialmente quando os sinais exigem adaptações visíveis no dia a dia. A assistente social Alexsandra Azevedo do Amaral Souza, de 43 anos, vive esse processo desde que o filho Samuel, de 7, recebeu a confirmação do diagnóstico, há dois meses.

A suspeita não era nova. Ainda bebê, Samuel já apresentava sinais relacionados ao Transtorno do Processamento Sensorial, com dificuldades na alimentação e fala. Na época, passou por acompanhamento com diferentes profissionais, mas o diagnóstico de autismo foi descartado. “Ele tinha 2 anos, era muito bebê. Confiamos na avaliação e seguimos com as terapias, que trouxeram evolução”, relata Alexsandra.

Anos depois, veio a confirmação, motivada pela observação da escola e pelas dificuldades no processo de alfabetização. “Desta vez, procurei o profissional adequado e fechamos o laudo para autismo suporte 2, com investigação em andamento para TDAH”, explica.

A partir daí, a rotina da família passou por mudanças graduais. Samuel apresenta hipersensibilidade a estímulos, principalmente olfativos e auditivos. “O cheiro do cloro na natação incomoda muito. Na escola, ele leva um ventiladorzinho porque alguns cheiros provocam ânsia e até vômito. Também usa abafador de ruídos, porque tem dificuldade com ruídos, cochichos e muitas pessoas falando ao mesmo tempo”, conta a mãe.

Mais do que a necessidade de adaptar ambientes, a família enfrenta questionamentos cotidianos — inclusive do próprio Samuel: “Ele pergunta por que é autista, e a irmã não, por que sente cheiros que os outros acham agradáveis e ele não. Explico que cada pessoa é única, que não há um padrão perfeito”.

Apesar das adaptações, o uso de itens de identificação ainda gera desconforto, segundo Alexsandra. “Durante sete anos, ele foi considerado uma criança típica. Agora, formalizar isso socialmente ainda nos deixa inseguros.”, admite.

Da negação à confirmação 

O processo de identificação do TEA nem sempre é imediato — mesmo quando há conhecimento técnico envolvido. A pediatra Maria Tereza relata que os primeiros sinais no comportamento do filho, Enrico, surgiram ainda nos primeiros meses de vida, mas foram inicialmente interpretados com cautela. “Eu sempre desconfiei da forma como ele se relacionava com as próprias mãos. Ele passava longos períodos olhando para elas, mas como o restante do desenvolvimento parecia normal, guardei isso pra mim”, conta.

Outros indícios apareceram ao longo do primeiro ano, especialmente durante a introdução alimentar, quando Enrico não demonstrava antecipação ao receber comida. O cenário começou a mudar por volta dos 12 meses, com atrasos em marcos do desenvolvimento, como apontar ou responder ao próprio nome, além de regressão na fala e no contato visual aos 13 meses.

Mesmo com formação na área, Maria Tereza admite que enfrentou um período de negação. “Eu me convencia de esperar mais uma semana, de estimular mais um pouco”, diz. A confirmação começou a ganhar forma aos 14 meses, após um alerta do pai da criança. O diagnóstico foi fechado aos 18 meses, após avaliações multidisciplinares.

Segundo ela, o impacto foi profundo. “Era um quadro clássico, com ausência de interação social e crises sensoriais. Eu estava no olho do furacão”, define. A partir daí, a rotina da família precisou ser reorganizada para atender às necessidades do menino, especialmente no que diz respeito à previsibilidade e ao manejo dos estímulos.

As crises sensoriais, comuns em crianças com TEA, exigem estratégias específicas e adaptação constante. “A gente precisa entender o que desregula, o que acalma, e como criar um ambiente mais seguro para ele”, afirma. O acompanhamento profissional e a rede de apoio familiar têm papel essencial nesse processo.

Apesar das dificuldades, Maria Tereza evita romantizar a maternidade atípica. “É exaustiva, muitas vezes solitária e sempre desafiadora. Mas também é cheia de conquistas que, para nós, têm um valor imenso”, afirma.

Regulação sensorial

Para a neuropsicopedagoga Katia Oliveira, especialista em TEA infantil, esse sentimento de insegurança é compreensível. “O principal receio é o julgamento, o medo do preconceito. Mas, quando há compreensão, as famílias passam a ver esses recursos não como exposição, mas como proteção.”, afirma.

Segundo a especialista, cerca de 90% das crianças autistas apresentam alterações no processamento sensorial. “Ambientes com excesso de estímulo sobrecarrega o cérebro. Diferentemente de uma birra, a crise não cessa facilmente. O ideal é prevenir os gatilhos”, orienta a profissional. 

Nesse contexto, recursos como abafadores de ruído e cordões de identificação têm papel importante. “Eles não rotulam. Sinalizam uma condição e ajudam a organizar o ambiente pra criança. Em muitos casos, também evitam situações de constrangimento em locais públicos”, completa.

Aos poucos, Alexsandra também ressignifica o processo: “A gente vai entendendo que o diagnóstico não limita, ele abre caminhos para ajudar nosso filho a viver melhor”. 

Leia mais sobre o assunto na página 4, que trata de punições previstas em lei para estabelecimentos que não usam adequadamente as placas de atendimento preferencial com o símbolo do autismo.

Jovem comenta o papel dos recursos

A influenciadora digital e artista plástica betinense Giovanna Cariry, de 21 anos, compartilha nas redes sociais sua própria vivência como uma pessoa autista.

A jovem utiliza em sua rotina cordões, crachá e fones de ouvido. Para ela, esses itens cumprem uma função prática e simbólica. “Ajudam principalmente em lugares com muita gente”, explica. A adaptação, no entanto, não foi imediata. “No começo, usava por pouco tempo e queria tirar. Demorei para entender que era importante”, conta. Hoje, ela se sente mais segura com os recursos. “Ajudam muito em situações como fila e também para as pessoas entenderem quem somos”, diz Giovanna, que usa os fones de ouvido de acordo com o ambiente: “Quando tem muito barulho, uso. Se não tem, não uso, pois até incomoda”, confessa.

A influenciadora resume o uso desses recursos como uma forma de garantir mais autonomia. “Eles evitam julgamentos e situações constrangedoras. São uma forma de se respeitar e de ensinar os outros a respeitarem você”, conclui.

Reunindo mais de 3 milhões de seguidores em suas redes sociais, Giovanna se tornou conhecida e venceu os desafios do autismo com a arte: ela pinta quadros, desenha e cria peças exclusivas. Ela alcançou o Top 9 no voto popular do Prêmio iBest 2025 na categoria Diversidade e Inclusão. A lista inclui criadores de conteúdo, influenciadores ou empresas no país.