ESPECIAL MÃES CORUJAS

Dormir: o sonho distante das mães privadas de sono

Heloísa e Juliana, ambas mães de filhos pequenos, contam como as noites em claro afetaram corpo e mente; especialista diz que exaustão é real e pode ser nociva

Por Iêva Tatiana

Publicado em 10 de maio de 2026 | 09:00

 
 
Privação de sono traz impactos físicos e emocionais às mães Privação de sono traz impactos físicos e emocionais às mães Foto: Editoria de Arte/O TEMPO

Você provavelmente conhece a expressão “mãe coruja” como definição de uma figura materna zelosa e orgulhosa dos seus filhos. Mais recentemente, porém, com os memes ganhando força no universo virtual, o termo passou a definir também as mães privadas de sono em função das demandas das crianças durante a madrugada, em alusão à ave de hábitos noturnos. A partir do duplo sentido da expressão, o O TEMPO Betim traz, no mês em que é celebrado o dia delas, a série Mães Corujas, que aborda alguns impactos da maternidade na vida de mulheres do município.

A privação de sono é o ponto de partida desta sequência de três matérias. Para a analista de customer success (CS) Heloísa Nunes, de 26 anos, esse foi justamente um dos primeiros – e mais difíceis – desafios enfrentados após a chegada dos filhos. Mãe de Elisa, de 1 ano e 8 meses, e de Henrique, de quase 2 meses, ela conta que não ter perspectiva de quando voltaria a dormir minimamente foi angustiante. “No meu primeiro puerpério, tive baby blues (melancolia pós-parto). O sol ia baixando, vinha um desespero real em pensar que a noite poderia ser caótica”, diz. “Lembro-me de noites em que eu ia para a sala e ligava a TV com uma luz bem forte, em um canal com muito estímulo, para tentar ficar acordada. Teve uma vez que meu marido acordou com meu choro na madrugada. Era de desespero porque eu queria dormir”, revela Heloísa.

A analista de CS ressalta que o companheiro é parceiro e cumpre devidamente o papel de pai, o que não elimina a sobrecarga da mãe nos primeiros meses de vida do bebê, sobretudo por conta da amamentação. E passar longas horas acordada teve um efeito negativo na mente dela. “Com certeza, impactou a minha memória e o meu raciocínio. Eu me esquecia onde tinha deixado as coisas e passei a usar muito o despertador, a planilha do celular e a Alexa para me lembrar de tudo o que precisava fazer”, afirma Heloísa, destacando que, com o pequeno Henrique, a rotina tem fluído com mais leveza. “Ele nasceu de uma mãe que já estava criando uma criança e veio com uma personalidade que demanda muito menos. Na primeira vez, tive que me esforçar muito para sobreviver ao puerpério. Agora, acho que Deus teve dó de mim”, brinca.

Heloísa com a pequena Elisa e o caçula Henrique (Foto: Arquivo pessoal)

 

Aprendendo na prática

A técnica de enfermagem Juliana Palmeiras, de 34 anos, também é mãe de um casal – Nicolas, de 4 anos, e Letícia, de quase 2 meses – e corrobora: a privação de sono é extremamente desafiadora. Segundo ela, a primeira experiência foi mais complicada. “Quando a gente é mãe de primeira viagem, bate cabeça, lê publicações na internet e acha que vai conseguir reproduzir do mesmo jeito. Com o Nicolas, passei mais noites acordada, querendo fazer as coisas do meu jeito, até entender que nem sempre funciona como a gente quer”, recorda-se.

As consequências das madrugadas em claro se manifestaram fisicamente. “Tive dor de cabeça, tontura e perda de memória. Posso dizer que não me lembro muito dos cuidados diários com meu filho. Acredito que essa tenha sido uma das coisas que mais me afetaram”, lamenta Juliana. “Hoje, tenho ações mais conscientes, me sinto mais presente e mais confiante para fazer as coisas. A mãe de 2021 não é a mesma de 2026”, compara a técnica de enfermagem, ressaltando que a segunda experiência tem sido mais tranquila.

Impacto real

As percepções que Heloísa e Juliana tiveram no puerpério são reais, comprovadas pela ciência e não devem ser ignoradas. De acordo com o otorrinolaringologista especialista em medicina do sono Tiago Gonçalves, mães privadas de sono podem apresentar déficit de atenção sustentada, lapsos de memória, irritabilidade, risco maior de ansiedade e depressão pós-parto, e até psicose puerperal, se houver predisposição. 

“Durante o sono, o sistema nervoso central é ‘lavado’. Não dormir faz com que a pessoa acumule substâncias e apresente redução da atenção, aumentando o risco de Alzheimer e outras demências em longo prazo. Também podem ocorrer cefaleia, fibromialgia e desregulação da menstruação”, explica o médico. “Não se trata de uma fraqueza, e as mães não devem se sentir culpadas. O que acontece com elas é biologia básica. Nós, humanos, temos limitações”, completa Gonçalves. 

Juliana Palmeiras é mãe de Nicolas e Letícia (Foto: Arquivo pessoal)

 

Expressão tem inspiração literária

O termo “mãe coruja” vem da fábula “A Coruja e a Águia”, de Monteiro Lobato. Na história, as aves combinam de não comer os filhotes uma da outra. A coruja garante que os dela serão facilmente reconhecidos pela beleza singular. A águia, porém, os devora após se deparar com bichinhos horríveis em ninho.