
Um levantamento realizado no ano passado pelo Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) – instituição de pesquisa econômica ligada à Fundação Getulio Vargas (FGV) – revelou que, no fim de 2024, o percentual de mulheres responsáveis financeiramente pelos lares no país superou o de homens, chegando a 51,7% (ou 41,3 milhões, em números absolutos). Por outro lado, o último Censo Demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2022, mostrou que as mulheres são as principais cuidadoras dos filhos e realizam a maior parte dos afazeres domésticos, representando 92,1% do contingente avaliado. Na prática, os dados evidenciam o quanto as mães precisam se desdobrar para conciliar trabalho e maternidade, e é justamente esse o tema da terceira e última matéria da série Mães Corujas.
A tatuadora Larissa Virgínia, de 26 anos, é mãe do recém-nascido José Miguel, de 23 dias. Apesar do pouco tempo de maternidade, ela já vive uma das maiores angústias do novo ofício – um denominador comum entre as mães: pensar no retorno ao trabalho. “Antes, eu tinha certeza de que não queria demorar a voltar, mas, vendo o José agora, fico dividida demais. Ele só vai ter esse tamanho uma vez. Então, ainda não sei ao certo quando vou retornar”, revela Larissa, que há cinco anos trabalha por conta própria. “Sinto uma vontade imensa de fazer o que amo, mas um medo enorme de deixá-lo”, acrescenta a tatuadora.
Ela conta que cresceu vendo a mãe, que também era autônoma, trabalhando intensamente para criar ela e os irmãos. “Imagino que para quem trabalha no regime da CLT seja bem mais complicado. Parece que, depois que a mulher vira mãe, o mercado de trabalho se fecha para ela. Não vivi essa experiência, mas me lembro de sempre perguntarem a respeito nas entrevistas de emprego”, frisa. “Só uma mãe é capaz de fazer o seu trabalho com excelência, cuidar do bebê e ainda cuidar da casa. As mulheres merecem ser respeitadas e ter o trabalho valorizado de verdade”, pondera Larissa.
Isabela Matina, de 39 anos, também é tatuadora e tem o próprio estúdio junto com o marido. Mãe de Ísis, de 5 anos, e Caio, de 2, ela conta que, desde a descoberta da primeira gestação, o casal começou a economizar para ela poder ficar em casa com a filha nos primeiros meses, já que não teria uma licença-maternidade convencional. O planejamento, no entanto, não saiu como o esperado. “O que fiz de poupança, imaginando que gastaria em um determinado tempo, acabou antes, e eu voltei a trabalhar três meses após o nascimento da minha filha”, relembra Isabela.
A retomada foi gradual, fazendo trabalhos pequenos e levando Ísis para o estúdio, o que permitiu que a tatuadora mantivesse a amamentação e a proximidade com a bebê, embora não fosse aquele o cenário idealizado por ela. Já na segunda gravidez, Isabela ficou mais preocupada com a retomada profissional porque a situação financeira da família estava arrochada. Precisando trabalhar, ela acabou voltando para o estúdio quando o caçula tinha apenas 1 mês de vida. “Eu senti muita insegurança. Não queria estar ali, mas sim em casa, curtindo o meu neném. No entanto, pela necessidade financeira, fui obrigada a voltar”, lamenta Isabela.
Mãe da Maria Alice, de 8 anos, e da Maria Júlia, de 7, Josiane Souza, de 46 anos, atua como business partner – profissional que faz a ponte entre a gestão de pessoas (RH) e as lideranças de uma empresa. Quando a primogênita nasceu, ela morava em Santa Catarina por conta do trabalho. Longe da família e sem rede de apoio, o puerpério foi marcado pela angústia de não saber como conciliaria carreira e maternidade estando longe de casa e ainda aprendendo a lidar com sentimentos conflitantes. “Demorei sete anos para engravidar. Foi um longo período de espera. Ter que deixá-la foi muito difícil. Tinha medo de a minha filha não me reconhecer como mãe e ficava muito angustiada com tudo. Quando voltei a trabalhar, ela parou de mamar no peito, e isso virou mais uma culpa no bolo que eu já carregava”, recorda-se.
Segundo a business partner, abandonar o trabalho foi uma ideia que passou pela cabeça dela diversas vezes, e foi o que ela fez quando descobriu que estava à espera da segunda filha. “Pedi demissão para poder vivenciar a maternidade e voltei pra Minas Gerais. Retornei ao mercado de trabalho em novembro de 2021. Com minha rede de apoio próxima e a primogênita já maiorzinha, foi menos doloroso. Hoje, não me imagino sem trabalhar. Como gestora, faço questão de acolher as mães que estão retornando da licença-maternidade e de mostrar que elas são muito importantes na empresa e na casa delas”, ressalta. “A maternidade pra mim foi libertadora. Passei a ver o mundo de outra maneira, inclusive como colega de trabalho”, conclui Josiane.
Coordenadora de comunicação interna e cultura – setor ligado ao de Recursos Humanos –, Nina Vasconcelos frisa que a volta ao trabalho após a licença-maternidade é, de fato, um momento de muitas emoções, descobertas, reencontros e adaptação. “As empresas precisam receber as profissionais com acolhimento, entendendo que elas passaram pela transformação mais significativa de suas vidas”, sublinha. “É importante oferecer uma adaptação gradual, com flexibilização de horários, salas para lactantes e um programa de acolhimento que prepare tanto as mães quanto a liderança que vai recebê-las”, elenca Nina, que, além de profissional, é mãe da Laura, de 9 anos. “Uma profissional acolhida tende a ser mais produtiva”, emenda.