TRISTEZA

Após enterro de criança, voluntários falam sobre situação de indígenas Warao em Betim

Bebê de 1 ano e 4 meses morreu em decorrência de um quadro de desidratação e desnutrição crônica

Por Lisley Alvarenga e Iêva Tatiana


Publicado em 29 de maio de 2026 | 18:20
 
 
Menina indígena foi enterrada no Cemitério Parque Jardim da Cachoeira, em Betim, nessa sexta (29)

Durante o enterro da menina indígena de 1 ano e 4 meses da etnia Warao, realizado nesta sexta-feira (29/5), no Cemitério Parque Jardim da Cachoeira, voluntários que apoiam a comunidade Terra Mãe, em Betim, falaram sobre o cenário vivenciado pelos indígenas da comunidade situada no bairro PTB. A bebê faleceu nessa quinta-feira (28/5) em decorrência de um quadro grave de desidratação e desnutrição crônica, após permanecer internada por três dias.

Segundo o médico-pediatra voluntário Cícero Augusto Alves Araújo, antes de falecer, a criança apresentava há dias dificuldades de se alimentar adequadamente ou ingerir líquidos. "O quadro de desnutrição é resultado de um processo lento. Era uma criança que já estava muito debilitada. Quando chegou ao hospital, além da desnutrição, apresentava um quadro de desidratação muito grave", afirmou.

O profissional relata que a família chegou à ocupação há cerca de um mês e ainda não estava cadastrada na unidade básica de saúde responsável pela região. "Eles não estavam inseridos em um acompanhamento regular da atenção básica, não contavam com visitas permanentes de agentes comunitários de saúde e permaneceram sem orientação adequada até que o estado da menina se tornasse crítico", salientou.

As preocupações não se restringem ao caso da menina sepultada nesta sexta-feira. O pediatra relata que uma irmã da criança, também considerada um bebê de alto risco, foi encaminhada para acompanhamento especializado com apoio da Promotoria de Justiça. Segundo ele, outras crianças da comunidade também apresentam quadros de desnutrição, algumas com histórico de internações repetidas.

Como o caso veio à tona

A situação de saúde da menina de 1 ano e 4 meses veio ao conhecimento das autoridades após intervenção da voluntária Flávia Gomes, do projeto Terra Mãe, que acompanha a comunidade desde sua chegada ao território atual, há cerca de três anos.

"Quando soube da situação, fui até o local e encontrei a menina em estado grave. Ela estava no colo de outras indígenas, com dificuldade para respirar e até para chorar. Chorava, mas não conseguia emitir som", relatou.

Diante da situação, a voluntária acionou o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu).

De acordo com Flávia, a primeira equipe enviada solicitou o reforço de uma segunda ambulância com médico devido à gravidade do quadro. A criança foi levada para atendimento hospitalar e recebeu diagnóstico de desnutrição.

Nos dias seguintes, o estado de saúde da menina continuou se agravando. Flávia conta que foi chamada ao hospital juntamente com o pai da criança e recebeu informações da equipe médica sobre a gravidade da situação. "Eles informaram que ela havia sofrido diversas paradas cardíacas e lutava para sobreviver", contou.

Minutos após retornar para casa, a voluntária recebeu uma nova ligação comunicando o falecimento da menina.

Para Flávia Gomes, a morte da menina não pode ser analisada de forma isolada. A voluntária afirma que a comunidade enfrenta barreiras linguísticas, vulnerabilidade social e preconceito. "Eles precisam de cuidado, de acompanhamento e de alguém que esteja presente", afirmou.

Posicionamento

A Prefeitura informou, em nota, que a criança deu entrada em uma unidade de saúde na última segunda-feira (25/5) e que, "apesar de todos os esforços e da assistência prestada pela equipe multiprofissional da rede municipal de saúde", não resistiu e faleceu nessa quinta-feira.

O Executivo declarou ainda que, diante da gravidade do episódio, está instituindo um comitê intersetorial para avaliar o caso, identificar possíveis fragilidades nos fluxos de atendimento e fortalecer as ações integradas voltadas à promoção da saúde, à proteção social e à garantia de direitos dessa população.

"A Secretaria Municipal de Saúde ressalta que o atendimento a essa população apresenta desafios significativos, entre eles a constante mobilidade das famílias, a chegada frequente de novos grupos em situação de extrema vulnerabilidade, além de barreiras culturais e linguísticas que impactam o processo de identificação, vinculação e acompanhamento assistencial", afirmou o Executivo em nota.