
Ela mal chegava em casa e já procurava pelo bercinho. Entre uma faxina e outra como diarista, a rotina de Lenice Bragança passou a incluir mamadeiras, consultas e despedidas difíceis. Casada e mãe de duas filhas adultas, ela encontrou no serviço de Acolhimento em Família Acolhedora uma forma de transformar o desejo de cuidar em acolhimento temporário para crianças em situação de risco. Há três anos no serviço de Betim, já recebeu cinco crianças, quase todas bebês. “Você vê a criança florescendo”, resume.
Em Betim, o acolhimento familiar busca novas famílias dispostas a viver justamente essa experiência: amar profundamente uma criança mesmo sabendo que o vínculo será temporário. A modalidade vem se consolidando como alternativa mais humanizada aos abrigos. Crianças e adolescentes afastados judicialmente das famílias de origem passam a viver temporariamente em casas de famílias cadastradas e acompanhadas por equipes técnicas especializadas, garantindo convivência familiar, rotina e vínculos afetivos importantes para o desenvolvimento.
Diferente da adoção, o acolhimento possui caráter provisório. O objetivo é oferecer proteção e estabilidade emocional até que a Justiça defina se haverá retorno à família de origem ou encaminhamento para adoção. “Muita gente ainda confunde acolhimento com adoção. São coisas completamente diferentes”, explica a assistente social do serviço em Betim, Bruna Siqueira.
O serviço é executado em Betim desde 2013 pela Organização da Sociedade Civil Ponto de Contato Nova Canaã, em parceria com a prefeitura. Atualmente, o município possui 23 famílias cadastradas, número considerado insuficiente para a demanda. O ingresso ocorre por meio de pré-cadastro, reunião coletiva, visita domiciliar e entrevista individual. Não existe um modelo familiar específico exigido e pessoas solteiras maiores de 21 anos também podem participar.
As famílias recebem acompanhamento contínuo por meio de atendimentos, visitas, grupos de apoio e encontros semanais. Segundo a coordenador do serviço, Valquíria Paes, esse suporte é fundamental tanto para os desafios do acolhimento quanto para preparar o desligamento da criança. Lenice viveu isso logo no primeiro acolhimento, quando recebeu uma bebê de apenas 16 dias. “Eu não tinha nada preparado. Saí correndo atrás de berço, roupa e mamadeira”, lembra.
O desligamento costuma ser o momento mais difícil. Quando uma adoção é encaminhada, a equipe promove aproximações graduais entre a criança e a nova família para facilitar a adaptação. Foi o que aconteceu com Lucas, acolhido por Lenice ainda bebê e que permaneceu dois anos em sua casa. “Nosso papel é amar sabendo que um dia eles vão embora”, afirma.
Jennifer Rafaela Lemos vive hoje sua primeira experiência como acolhedora. Casada e mãe de uma menina de oito anos, ela recebeu um bebê de quatro meses. “Você acompanha cada fase do desenvolvimento”, diz. Conforme ela, um dos principais desafios foi respeitar o tempo emocional da criança, que inicialmente rejeitava colo e contato físico.
Valquíria destaca que o acolhimento familiar é prioridade especialmente para crianças de zero a seis anos, pela importância dos vínculos afetivos estáveis no desenvolvimento emocional e social. O serviço também acolhe adolescentes, muitos já aptos para adoção, mas sem pretendentes interessados.
As profissionais esclarecem ainda que existe bolsa-auxílio destinada aos gastos com a criança, mas o acolhimento possui caráter voluntário e não configura vínculo empregatício. Ainda assim o serviço transforma profundamente a rotina das famílias acolhedoras. “Essas crianças precisam de amor, colo, rotina e cuidado”, resume Jennifer.