ESPERANÇA

Demência: um mal que pode (e deve) ser cortado pela raiz

Quatorze fatores de risco para a doença são modificáveis; neurologista de Betim chama atenção para prevenção

Por Iêva Tatiana


Publicado em 20 de junho de 2026 | 09:00
 
 
Demência é o termo que define as doenças que afetam as funções do cérebro, segundo especialista

Muita gente teme desenvolver algum tipo de demência com o avanço da idade, mas poucas pessoas sabem que existem 14 fatores de risco apontados pela ciência como modificáveis. Ou seja: podem ser evitados ou ao menos atenuados por mudanças no estilo de vida, intervenções de saúde e até políticas públicas, diferentemente do envelhecimento e da predisposição genética, que também têm influência no surgimento da doença. E é justamente para a prevenção que o neurologista de Betim Camilo Azeredo tem chamado a atenção. 

O médico explica, primeiramente, o conceito. Segundo ele, demência é o termo que define as doenças que afetam a cognição (conjunto de funções do cérebro, como memória, atenção, orientação, capacidade de execução de tarefas e velocidade de processamento). “Para se falar em demência, tem que haver prejuízo dessas funções. Quando a cognição é afetada, ocorrem problemas relacionados a perda de autonomia e aumento da dependência de terceiros”, detalha o especialista.

Azeredo ressalta que nem toda demência se manifesta apenas como esquecimento. Algumas provocam alterações no comportamento e na linguagem. Os principais tipos são Alzheimer (representando cerca de 70% dos diagnósticos); demência vascular (causada por isquemias cerebrais); Corpos de Lewy (comumente confundido com o Alzheimer, mas se diferencia, entre outros aspectos, pela progressão rápida, não linear, e pelas oscilações diárias de consciência); e demência frontotemporal (que provoca, sobretudo, alterações comportamentais e/ou na capacidade de comunicação do paciente).

Entre os sintomas mais comuns dessas patologias estão falhas de memória, perda de orientação no espaço e no tempo (confundir-se sobre onde está e que dia da semana ou do mês é aquele), falta de concentração e dificuldade ou lentidão para executar tarefas que antes eram simples.

Origem da condição

Camilo Azeredo afirma que em 50% a 60% dos pacientes com demência não são identificados fatores de risco. Nesses casos, as principais causas estão relacionadas a idade, gênero (mulheres são mais propensas, inclusive por terem uma expectativa de vida maior), hormônios e genética. Já nos outros 40% a 50% dos diagnósticos, nota-se a incidência de ao menos um fator modificável. 

A lista inclui condições comuns a várias outras enfermidades, como diabetes não tratado, hipertensão arterial descontrolada, obesidade, sedentarismo, colesterol alto, tabagismo e etilismo crônico. No entanto, elementos pouco associados à saúde também têm relação com as demências e, de acordo com estudos científicos, podem ser contornados. Um deles é a baixa escolaridade. “Analfabetos têm mais chance de ter demência. Isso tem a ver com a reserva cognitiva, que é a ‘poupança’ que o cérebro faz ao longo da vida. Quem estuda mais tem uma neuroplasticidade maior. Estudar é uma forma de proteger o cérebro das demências”, afirma o médico.

Outro item curioso é a poluição atmosférica. De acordo com o neurologista, estudos mostram que o número de pacientes com Alzheimer e Corpos de Lewy é maior em ambientes poluídos. “A decisão de morar em uma cidade com muita poluição expõe a pessoa ao risco”, pondera o especialista.

As perdas de audição e de visão são outros fatores modificáveis. Azeredo explica que o cérebro precisa estar conectado com o meio de todas as formas possíveis. Quem ouve e/ou enxerga mal capta menos informações e é menos estimulado. Portanto, o uso de aparelhos auditivos e a realização de cirurgias reparadoras de glaucoma, catarata e retinopatia, por exemplo, são também formas de se prevenir demências. A mesma lógica se aplica ao isolamento social e à depressão não tratada, principalmente em pacientes com mais de 50 anos. “A pessoa que tem pouco contato com outras ou que não sente vontade de fazer coisas novas recebe poucos estímulos e se expõe a um risco”, pontua. 

Por fim, o traumatismo cranioencefálico também é listado como fator modificável, sobretudo quando é causado pela prática de modalidades esportivas que provocam traumas repetitivos na cabeça, como boxe, MMA, futebol americano e rúgbi.

“O medo de se ter uma demência é muito grande, mas o que estamos fazendo para reduzir os riscos? Como estamos cuidando do nosso cérebro e do nosso corpo? Elevar o nível de consciência das pessoas é muito importante, por isso falo tanto sobre o tema”, conclui o neurologista.