Animais que não apresentam condições de retornar à natureza permanecem no refúgio
Foto: Refúgio Bem Viver/Divulgação
Animais que não apresentam condições de retornar à natureza permanecem no refúgio
Foto: Refúgio Bem Viver/Divulgação
O Refúgio Bem Viver, referência no acolhimento de animais vítimas de tráfico, maus-tratos, acidentes e abandono, está enfrentando dificuldades financeiras. Sem financiamento, o espaço, instalado no bairro Charneca, vem mantendo as atividades com recursos pessoais dos fundadores, o casal de médicos veterinários Felipe Coutinho e Jéssica Rayra. A situação, contudo, está se tornando insustentável. “Cheguei a um limite de cuidado e de cansaço também. Recebemos aqui animais do Cerrado ameaçados de extinção e arcamos com a conta sozinhos”, desabafa Coutinho.
De acordo com o veterinário, o criadouro tem, hoje, cerca de 75 animais – entre eles, araras, macacos, papagaios e onças-pintadas –, mas não consegue receber outros em razão da falta de investimento. A fim de vencer essas limitações, os responsáveis pelo espaço desenvolveram um projeto de educação ambiental voltado para escolas. A proposta é receber estudantes em visitas agendadas e guiadas para que eles conheçam e aprendam sobre a fauna brasileira, tornando-se defensores de espécies que correm o risco de deixar de existir. Para que a ideia seja colocada em prática, no entanto, Coutinho e Jéssica buscam parcerias. “Precisamos de uma ajuda perene. Não é possível a gente viver no país da megabiodiversidade e ninguém ter interesse em financiar essa iniciativa”, pontua o veterinário. “Se alguma empresa abraçasse o projeto, seria perfeito para nós. Conseguiríamos recursos para manter o refúgio e ainda oferecer uma contrapartida socioambiental às escolas”, completa Coutinho.
Segundo ele, a última reserva financeira da família foi aplicada em uma reforma para melhorar a acessibilidade no criadouro, visando à concretização do projeto de receber visitação de crianças. “Mas o dinheiro vai acabar no meio da obra, e estamos sem fonte de renda para continuar”, diz.
Além de acolher e reabilitar animais feridos após serem atropelados, eletrocutados ou agredidos, o Refúgio Bem Viver vem contribuindo com a conservação de espécies ameaçadas de extinção. Em abril do ano passado, dois filhotes de onça-pintada – um deles melânico (de pelagem escura), também conhecido como onça-preta – nasceram no Charneca. A reprodução ocorreu por meio de uma parceria com o Instituto NEX, um criadouro conservacionista sediado em Goiás, e foi divulgada pelo O TEMPO Betim. “A união de esforços entre as equipes técnicas das instituições, com expertise em manejo, genética, reprodução e bem-estar animal, tem demonstrado resultados concretos e promissores”, ressaltou a entidade na época.
Agora, por conta do arrocho financeiro, a iniciativa também pode ser interrompida em Betim. “Cada animal que chega aqui e fica é um compromisso para a vida inteira. Não gostamos de ficar pedindo ajuda, mas, às vezes, precisamos de socorro. Conseguir um parceiro é o nosso sonho”, conclui Coutinho.
O refúgio não é aberto à visitação, mas pode ser acompanhado pela página no Instagram (@refugiobemviver).
O Refúgio Bem Viver foi fundado há 17 anos para acolher animais preteridos por empreendimentos em razão de sequelas como cegueira, mutilação e debilidade física. Felipe Coutinho conta que, desde antes de ingressar na graduação de medicina veterinária, já era um entusiasta da fauna silvestre e, depois de conhecer o centro de triagem do Ibama, convenceu a família a transformar um sítio em um espaço de acolhimento. “Comecei pequeno, mas já com uma demanda altíssima”, relembra o profissional. “Nesses 17 anos, quase mil animais foram atendidos, recuperados e salvos. Alguns deles foram destinados a outras instituições, mas a maioria foi devolvida à natureza”, emenda Coutinho.
Entre os moradores mais antigos do espaço estão algumas aves e um cachorro-do-mato acolhido há cerca de 15 anos.