INOVAÇÃO

Como o Fiat 147 abriu caminho para picape e carro a etanol no Brasil

Derivado do hatch gerou a 147 Pick-up em 1978 e, em 1979, o primeiro carro a etanol feito em série no mundo

Por Igor Veiga

Publicado em 01 de julho de 2026 | 12:45

 
 
Primeiras unidades do 147 movido a etanol na pista de testes da Fiat, em 1979 Primeiras unidades do 147 movido a etanol na pista de testes da Fiat, em 1979 Foto: Fotos Stellantis/Divulgação

Se o Fiat 147 abriu a história da marca no Brasil em 1976, foi nos três anos seguintes que ele deixou de ser apenas um hatch compacto para virar plataforma disruptiva na indústria automobilística do país. A mesma base que estreou em Betim com soluções técnicas incomuns no mercado brasileiro deu origem à 147 Pick-up, em 1978, e ao 147 a etanol, lançado em 5 de julho de 1979 como o primeiro carro movido a etanol produzido em série no mundo.

Em vez de servir apenas como porta de entrada da marca, ele rapidamente se transformou em laboratório de soluções locais, ligando a empresa à demanda urbana por veículos de trabalho leves.

“Vivíamos a era do Pró-Álcool, um programa nacional para combater a crise do petróleo”, lembra Robson Cotta, um dos ex-engenheiros da Fiat responsáveis pelo desenvolvimento do carro a etanol, combustível chamado à época apenas como “álcool".

147 virou família de modelos

A transição do 147 de carro de passeio para ferramenta de trabalho aconteceu cedo. Segundo a própria Fiat, a marca já havia se aventurado no segmento profissional com o 147 Furgão, em 1977, e com a 147 Pick-up, em 1978, antes mesmo da chegada da Fiorino, identificando ali uma oportunidade concreta de ampliar sua presença no mercado de uso comercial leve.

Derivado do hatch, Fiat 147 Furgão foi lançado em 1977 | Stellantis/Divulgação


Esse movimento foi mais importante do que parece à primeira vista. Ao transformar um hatch compacto em picape, a Fiat não apenas multiplicava a vida comercial da plataforma como também antecipava uma lógica que depois se tornaria recorrente na marca: usar arquitetura de automóvel de passeio para criar soluções de trabalho com menor custo operacional e manutenção simplificada.

Há um dado simbólico nessa história. Em material de imprensa internacional da própria Stellantis, a 147 Pick-up é definida como a primeira picape derivada de um carro de passeio, sinal de que a Fiat enxergava nesse desdobramento um passo afinado com seu histórico de antecipar desejos e formatos de mercado.

Em 1978, Fiat inovou novamente com a variante picape do 147 | Stellantis/Divulgação


No Brasil do fim dos anos 1970, isso tinha apelo imediato. Cresciam as demandas urbanas por transporte leve, ágil e barato, e a plataforma do 147 oferecia uma base racional para esse tipo de uso, sem a complexidade e o custo de veículos maiores. O pioneirismo da picape, portanto, não estava só na novidade da carroceria, mas no modo como ela embaralhava as fronteiras entre carro de passeio e veículo de trabalho.

O caminho até o 147 a etanol

O passo seguinte foi ainda mais ousado. A história do Fiat 147 movido a etanol começou no mesmo ano do lançamento do hatch a gasolina, em 1976, quando a marca iniciou pesquisas e desenvolvimento do novo motor em meio às pressões da crise do petróleo de 1973 e ao lançamento do ProÁlcool pelo governo federal em 1975.

A Fiat não aderiu ao etanol apenas como oportunismo de mercado. O projeto foi amadurecido desde cedo, acompanhando uma agenda nacional de substituição parcial da gasolina e de valorização da cana-de-açúcar como alternativa energética.

Unidades do Fiat 147 com motor à álcool na fábrica de Betim, em 1979 | Stellantis/Divulgação


Ainda em 1976, a marca apresentou no Salão do Automóvel de São Paulo um protótipo do 147 a etanol com dezenas de milhares de quilômetros rodados. Em 1977, vieram o refinamento técnico e novas unidades para testes, num programa que preparava o terreno para a virada de 1979.

O teste que validou a solução


Antes de chegar às ruas, o projeto precisou provar que era viável fora do laboratório. Em setembro de 1978, um Fiat 147 percorreu 6,8 mil quilômetros em 12 dias, com média superior a 500 km diários, enfrentando cerca de 3 mil quilômetros de trechos de terra e variações climáticas acima de 30 graus.

“O propulsor ficou com potência pouco maior que a do similar a gasolina, devido à necessidade de conter o consumo: 62 cv brutos contra 61. Por outro lado, a taxa de compressão mais alta favorecia o torque e, portanto, as retomadas e acelerações em baixa ou média rotação. Mas o número que realmente importava era o custo por quilômetro rodado, menos da metade da versão a gasolina, com os preços dos combustíveis na época”, relembra Cotta.

Test drive com jornalistas do 147 a álcool, no entorno do Mineirão, em 1979 | Stellantis/Divulgação


O Brasil precisava demonstrar que o carro a etanol não seria um experimento frágil nem restrito a condições ideais de uso. Ao submeter o 147 a uma rotina severa de rodagem, a Fiat procurava mostrar que a solução podia funcionar em escala nacional, em estradas, climas e pisos diversos.

“Minha equipe analisava as peças dos motores. Era um desafio muito grande: no início havia oxidação. Para que viesse a funcionar com o etanol, o sistema de alimentação como um todo [tanque de combustível, bomba, tubulações, carburador, etc.] precisou ser mais robusto para suportar um combustível extremamente corrosivo”, relembra o engenheiro Ronaldo Ávila, que na década de 80 trabalhava no laboratório químico da montadora, e acompanhou os constantes aperfeiçoamentos do 147 a etanol.

Por que o 147 tem o apelido de "Cachacinha"?

O lançamento oficial do 147 à álcool aconteceu em 5 de julho de 1979. Nesse dia, a Fiat do Brasil colocou nas ruas o primeiro carro movido a etanol produzido em série no mundo, justamente o 147, transformando o modelo em marco da engenharia automotiva brasileira e internacional.

Primeiro 147 à álcool na fábrica de Betim; unidade pertencia ao Ministério da Fazenda e foi resgatado pela Fiat em 2019 | Stellantis/Divulgação


O apelido “Cachacinha”, lembrado até hoje, nasceu do odor característico que saía do escapamento. A brincadeira popularizou o carro, mas acabou reduzindo por muito tempo a dimensão real do feito: o 147 a etanol não era curiosidade folclórica, e sim resposta técnica de escala a um problema energético que mobilizava governos e fabricantes no mundo inteiro.

O pioneirismo do 147 a etanol se estende até hoje com os motores flex, presentes na maior parte dos veículos leves vendidos no país. “O etanol foi, é e sempre será importante para nós. É estratégico para a companhia e tem papel muito importante na redução do efeito estufa”, ressaltou o engenheiro João Irineu Medeiros, atual VP de Assuntos Regulatórios da Stellantis para América do Sul e que também participou da construção do 147 a etanol.