Se o Fiat 147 abriu a história da marca no Brasil em 1976, foi nos três anos seguintes que ele deixou de ser apenas um hatch compacto para virar plataforma disruptiva na indústria automobilística do país. A mesma base que estreou em Betim com soluções técnicas incomuns no mercado brasileiro deu origem à 147 Pick-up, em 1978, e ao 147 a etanol, lançado em 5 de julho de 1979 como o primeiro carro movido a etanol produzido em série no mundo.
Em vez de servir apenas como porta de entrada da marca, ele rapidamente se transformou em laboratório de soluções locais, ligando a empresa à demanda urbana por veículos de trabalho leves.
“Vivíamos a era do Pró-Álcool, um programa nacional para combater a crise do petróleo”, lembra Robson Cotta, um dos ex-engenheiros da Fiat responsáveis pelo desenvolvimento do carro a etanol, combustível chamado à época apenas como “álcool".
A transição do 147 de carro de passeio para ferramenta de trabalho aconteceu cedo. Segundo a própria Fiat, a marca já havia se aventurado no segmento profissional com o 147 Furgão, em 1977, e com a 147 Pick-up, em 1978, antes mesmo da chegada da Fiorino, identificando ali uma oportunidade concreta de ampliar sua presença no mercado de uso comercial leve.
Esse movimento foi mais importante do que parece à primeira vista. Ao transformar um hatch compacto em picape, a Fiat não apenas multiplicava a vida comercial da plataforma como também antecipava uma lógica que depois se tornaria recorrente na marca: usar arquitetura de automóvel de passeio para criar soluções de trabalho com menor custo operacional e manutenção simplificada.
Há um dado simbólico nessa história. Em material de imprensa internacional da própria Stellantis, a 147 Pick-up é definida como a primeira picape derivada de um carro de passeio, sinal de que a Fiat enxergava nesse desdobramento um passo afinado com seu histórico de antecipar desejos e formatos de mercado.
No Brasil do fim dos anos 1970, isso tinha apelo imediato. Cresciam as demandas urbanas por transporte leve, ágil e barato, e a plataforma do 147 oferecia uma base racional para esse tipo de uso, sem a complexidade e o custo de veículos maiores. O pioneirismo da picape, portanto, não estava só na novidade da carroceria, mas no modo como ela embaralhava as fronteiras entre carro de passeio e veículo de trabalho.
O passo seguinte foi ainda mais ousado. A história do Fiat 147 movido a etanol começou no mesmo ano do lançamento do hatch a gasolina, em 1976, quando a marca iniciou pesquisas e desenvolvimento do novo motor em meio às pressões da crise do petróleo de 1973 e ao lançamento do ProÁlcool pelo governo federal em 1975.
A Fiat não aderiu ao etanol apenas como oportunismo de mercado. O projeto foi amadurecido desde cedo, acompanhando uma agenda nacional de substituição parcial da gasolina e de valorização da cana-de-açúcar como alternativa energética.
Ainda em 1976, a marca apresentou no Salão do Automóvel de São Paulo um protótipo do 147 a etanol com dezenas de milhares de quilômetros rodados. Em 1977, vieram o refinamento técnico e novas unidades para testes, num programa que preparava o terreno para a virada de 1979.
Antes de chegar às ruas, o projeto precisou provar que era viável fora do laboratório. Em setembro de 1978, um Fiat 147 percorreu 6,8 mil quilômetros em 12 dias, com média superior a 500 km diários, enfrentando cerca de 3 mil quilômetros de trechos de terra e variações climáticas acima de 30 graus.
“O propulsor ficou com potência pouco maior que a do similar a gasolina, devido à necessidade de conter o consumo: 62 cv brutos contra 61. Por outro lado, a taxa de compressão mais alta favorecia o torque e, portanto, as retomadas e acelerações em baixa ou média rotação. Mas o número que realmente importava era o custo por quilômetro rodado, menos da metade da versão a gasolina, com os preços dos combustíveis na época”, relembra Cotta.
O Brasil precisava demonstrar que o carro a etanol não seria um experimento frágil nem restrito a condições ideais de uso. Ao submeter o 147 a uma rotina severa de rodagem, a Fiat procurava mostrar que a solução podia funcionar em escala nacional, em estradas, climas e pisos diversos.
“Minha equipe analisava as peças dos motores. Era um desafio muito grande: no início havia oxidação. Para que viesse a funcionar com o etanol, o sistema de alimentação como um todo [tanque de combustível, bomba, tubulações, carburador, etc.] precisou ser mais robusto para suportar um combustível extremamente corrosivo”, relembra o engenheiro Ronaldo Ávila, que na década de 80 trabalhava no laboratório químico da montadora, e acompanhou os constantes aperfeiçoamentos do 147 a etanol.
O lançamento oficial do 147 à álcool aconteceu em 5 de julho de 1979. Nesse dia, a Fiat do Brasil colocou nas ruas o primeiro carro movido a etanol produzido em série no mundo, justamente o 147, transformando o modelo em marco da engenharia automotiva brasileira e internacional.
O apelido “Cachacinha”, lembrado até hoje, nasceu do odor característico que saía do escapamento. A brincadeira popularizou o carro, mas acabou reduzindo por muito tempo a dimensão real do feito: o 147 a etanol não era curiosidade folclórica, e sim resposta técnica de escala a um problema energético que mobilizava governos e fabricantes no mundo inteiro.
O pioneirismo do 147 a etanol se estende até hoje com os motores flex, presentes na maior parte dos veículos leves vendidos no país. “O etanol foi, é e sempre será importante para nós. É estratégico para a companhia e tem papel muito importante na redução do efeito estufa”, ressaltou o engenheiro João Irineu Medeiros, atual VP de Assuntos Regulatórios da Stellantis para América do Sul e que também participou da construção do 147 a etanol.