ESTREITANDO LAÇOS

A viagem 'secreta' da Fiat com jornalistas brasileiros antes de Betim

Um ano antes de estrear no Brasil, Fiat levou grupo de imprensa à histórica fábrica na Itália e teve encontro direto com Enzo Ferrari

Por Raimundo Couto


Publicado em 10 de julho de 2026 | 14:22
 
 
Jornalistas brasileiros durante a visita as instalações da Fiat, em Turim, em 1975

O ano era 1975, e depois de uma longa negociação entre a matriz na Itália e o governo de Minas Gerais, o martelo havia sido batido e as obras da fábrica da Fiat no Brasil, em Betim (MG), já se encontravam a pleno vapor, com a data de inauguração marcada para o ano seguinte.

Era chegada a hora da montadora italiana estreitar, ainda mais, o relacionamento com os veículos de comunicação do país. E, para isso, nada melhor que uma “press trip”, ou viagem de imprensa, para que, in loco, os jornalistas brasileiros pudessem se familiarizar com o que, doravante, iriam vivenciar com a chegada dos italianos ao Brasil. Profissionais de imprensa dos maiores centros econômicos brasileiros fizeram parte deste grupo. 

Grupo formado por jornalistas especializados 

De Belo Horizonte, os representantes nesta jornada foram os jornalistas especializados na cobertura automotiva Raimundo Couto e Silva (Estado de Minas), Luiz Carlos Costa (Diário do Comércio), Fábio Márcio de Proença Doyle (Diário da Tarde) e Luiz Otávio Lessa (Diário de Minas).

Outros colegas também fizeram parte deste “time”, como o ainda atuante Fernando Calmon (TV Tupi e revista O Cruzeiro), José Roberto Nasser (Correio Brasiliense), Fernando Mariano (O Globo) e Joelmir Beting (Folha de São Paulo), entre outros. 

Uma radiografia industrial da marca 

Em meados dos anos 70, a Fiat vivia seu auge industrial na Itália, operando uma vasta e descentralizada rede de fábricas. Nesse período, a montadora expandiu fortemente suas atividades para o Sul do país e empregava mais de 100.000 pessoas no território italiano, fabricando modelos lendários como o Fiat 126, 127, 128 e o recém-lançado 131.

As principais fábricas automotivas da Fiat estavam distribuídas na região do Piemonte, como a do Distrito Industrial de Mirafiori (Turim), a maior e mais importante planta do grupo, que produzia o icônico Fiat 131 (que levava o nome "Mirafiori" em homenagem à fábrica), além do Fiat 126 e versões do Fiat 127. 

Uma pista de teste nas alturas 

Outro importante centro de produção era Lingotto, na mesma cidade, e embora a montagem principal estivesse migrando para Mirafiori, ainda mantinha linhas de componentes, prensas e produção residual. A fábrica de Lingotto em Turim, Itália, é um marco da arquitetura industrial. Projetada por Giacomo Mattè-Trucco, funcionou de 1923 a 1982.

Ficou mundialmente famosa pela sua linha de montagem vertical e pela icônica pista de testes de 1 km no telhado, onde os carros eram avaliados assim que saíam da produção. A construção começou em 1916 e o edifício tinha cinco andares. A linha de montagem era ascendente: as matérias-primas entravam no térreo e subiam de andar à medida que o carro tomava forma. O veículo finalizado chegava ao topo, pronto para testar seu desempenho na pista do terraço. 

Programação foi intensa e diversificada 

Uma viagem como esta sugere uma programação movimentada para aproveitar ao máximo o tempo. Os jornalistas estiveram, claro, na sede da montadora neste emblemático prédio de Lingotto, onde foram recepcionados por Umberto Agnelli, então CEO da Fiat e irmão do presidente do conglomerado, Giovanni Agnelli.

Na ocasião tiveram, também, oportunidade de conhecer outros centros de produção da Fiat e, ao fim da jornada a cereja do bolo os esperava: um encontro antológico com o mito Enzo Ferrari, na sede da marca na cidade de Maranello, na província de Modena. Em um longo encontro com o Comendador, receberam um livro que foi autografado na hora para cada jornalista brasileiro. Ferrari estava acompanhado, como se pode ver na fotos, do então jovem Luca Cordero di Montezemolo, que faria história muitos anos depois. 

Lendas da paixão 

O famoso emblema da Ferrari (o Cavalo Rampante) foi originalmente o símbolo pintado na fuselagem do avião de caça do ás italiano Francesco Baracca, combatente na Primeira Guerra Mundial.

Ele foi cedido à mãe de Enzo em 1923 como um amuleto de boa sorte. A equipe de Fórmula-1 é a mais vitoriosa da história do esporte, colecionando dezenas de campeonatos mundiais entre pilotos e construtores. A maior tragédia de sua vida foi a perda de seu filho, Alfredo "Dino" Ferrari, que faleceu precocemente, aos 24 anos, devido a uma distrofia muscular. Em sinal de luto eterno, Enzo passou a usar seus icônicos óculos escuros pretos, a partir de 1956.