Siena Tetrafuel mostrou em 2006 como a engenharia brasileira da Fiat transformou combustíveis alternativos em produto de série
Foto: Divulgação
Siena Tetrafuel mostrou em 2006 como a engenharia brasileira da Fiat transformou combustíveis alternativos em produto de série
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Betim ganhou em 2005 destaque no cenário automotivo mundial ao servir de berço para um projeto inédito da Fiat. Foi na cidade mineira, onde funciona o Polo de Desenvolvimento Giovanni Agnelli, que nasceu o Siena Tetrafuel, apresentado pela atual Stellantis como o primeiro automóvel produzido em série capaz de operar com quatro tipos de combustível. O lançamento mostrou que a engenharia desenvolvida no Brasil era capaz de transformar anos de pesquisa em uma solução pronta para as ruas, reforçando o papel do centro técnico de Betim como um dos principais polos de inovação da fabricante.
O “laboratório brasileiro” da Fiat nasceu justamente desse ambiente de desenvolvimento local voltado a combustíveis alternativos e menor emissão. A Fiat afirma que pesquisas e desenvolvimento de produtos na América Latina eram realizados no Polo de Desenvolvimento Giovanni Agnelli, em Betim, e colocava o Siena Tetrafuel ao lado de outros programas que buscavam novas respostas energéticas para o automóvel.
O Siena 1.4 Tetrafuel foi apresentado pela Fiat como herdeiro de uma tradição de pioneirismo em combustíveis alternativos que vinha desde o 147 a álcool, de 1979. A versão exclusiva do sedã podia rodar com álcool hidratado, gasolina brasileira com álcool, gasolina pura e GNV, combinação inédita até hoje em carros produzidos em série no Brasil.
O repertório "tetravalente" de combustíveis desenvolvido pela Fiat no Brasil não surgiu por acaso. O mercado brasileiro tinha experiência acumulada com etanol, expansão do motor flex e forte presença do gás natural (GNV) em determinados perfis de uso, especialmente frotistas e taxistas, o que transformava o país em terreno fértil para um experimento desse tipo virar produto real.
Foi justamente essa combinação de contexto e engenharia que deu força ao projeto. Em vez de importar uma solução pronta, a Fiat usou o Brasil como base de desenvolvimento para um carro pensado a partir das peculiaridades locais de abastecimento, custo de uso e diversidade energética.
A grande inovação do Siena Tetrafuel não estava apenas na quantidade de combustíveis aceitos, mas na forma como eles eram administrados. Segundo a Fiat, uma única central eletrônica, desenvolvida pela Magneti Marelli, gerenciava o uso de todos eles de maneira integrada, sem exigir do motorista qualquer comando manual no painel.
Essa central selecionava automaticamente a melhor opção de combustível para cada situação de rodagem, alternando entre os sistemas sem trancos e priorizando a economia quando possível. A marca informava que a primeira escolha do sistema era o GNV, mas, diante de necessidade de maior torque, como numa ultrapassagem ou numa subida íngreme, a comutação para combustível líquido ocorria automaticamente.
Esse é o ponto que faz do modelo algo mais do que um flex com kit de gás. O Tetrafuel tentava integrar quatro possibilidades num gerenciamento eletrônico único, com lógica de uso em tempo real e comportamento calibrado de fábrica, algo bem diferente das adaptações paralelas comuns no mercado.
A Fiat insistiu, no lançamento, em um detalhe central para a credibilidade do projeto: o sistema Tetrafuel era instalado pela fábrica. Isso mudava a conversa porque afastava a imagem de improviso que muitas vezes cercava conversões para gás e colocava o modelo dentro do padrão industrial e de garantia da própria marca.
O Siena 1.4 Tetrafuel saía com a mesma garantia oferecida ao Siena 1.4 Flex, de 1 ano sem limite de quilometragem, além de 5 anos sem limite de quilometragem para a carroceria. Esse dado reforçava a intenção da Fiat de apresentar o carro não como laboratório isolado, mas como produto pronto para uso cotidiano.
Também havia conteúdo adicional de série para sustentar a proposta. O Siena Tetrafuel passou a oferecer direção hidráulica, vidros dianteiros elétricos e travas elétricas, ampliando a lista de equipamentos do sedã.
Para receber o novo sistema, o Siena Tetrafuel precisou passar por alterações técnicas relevantes. O motor 1.4 flex, desenvolvido pela Fiat Powertrain Technologies, ganhou novo coletor de aspiração, quatro bicos injetores exclusivos para GNV, novo material e nova geometria das sedes das válvulas e novos componentes específicos do circuito de gás.
O carro também recebeu adaptações estruturais. O assoalho do porta-malas foi reforçado para suportar os cilindros de GNV, cada um com capacidade para até 6,5 m³ de gás a 200 bar de pressão, enquanto a suspensão dianteira e traseira ganhou molas específicas para preservar altura livre do solo, conforto e estabilidade equivalentes às da versão ELX 1.4 Flex.
Houve ainda revisão nos freios traseiros, segundo a marca, para manter a mesma eficiência da configuração flex. No interior, o modelo passou a contar com novo quadro de instrumentos, incluindo indicação do nível de GNV, alerta de baixo nível de gás, aviso de avaria do sistema, temperatura externa e computador de bordo.
O aspecto talvez mais interessante dessa história é que a Fiat usou o Siena Tetrafuel para projetar a engenharia brasileira fora do país antes mesmo do lançamento comercial. Em maio de 2006, a marca levou o modelo em pré-estreia a um evento internacional dedicado à mobilidade sustentável, em Paris, na França.
No comunicado do evento, a Fiat afirmava que o sedã seria lançado no Brasil em junho. A montadora também ressaltou que a versatilidade do Tetrafuel permitiria ao carro ser utilizado em qualquer mercado do mundo, justamente por aceitar gasolina sem álcool, inexistente no Brasil, mas comum em outros países.
A marca também procurou blindar o projeto do ceticismo técnico comum a carros com GNV. A Fiat afirma que o sistema incorporava mecanismos de segurança passiva testados em crash-tests e em testes de fogo, com cilindros projetados para superar padrões recentes de colisão.
Os componentes do sistema de gás foram construídos e testados para evitar vazamentos, e havia recursos de interrupção da alimentação em caso de rompimento de tubulação, sobrepressão ou colisão, com bloqueio comandado pelo interruptor inercial de combustível. Isso era crucial para convencer um consumidor acostumado a desconfiar de soluções fora do padrão tradicional de fábrica.
Até a lógica de partida a frio foi pensada com pragmatismo. A partida era sempre feita com combustível líquido, mas, se o nível no tanque estivesse abaixo de 4%, o sistema podia recorrer emergencialmente ao GNV, enquanto pressões inferiores a 10 bar nos cilindros levavam a central a deixar de usar o gás para evitar falhas.