MEIO AMBIENTE

Comitê envia laudo ao MP que aponta indícios de poluição industrial no Rio Betim

Documento indica que no resíduo continha substâncias que favorecem a formação de espuma no rio em concentração 284 vezes superior ao limite permitido 

Por Lisley Alvarenga


Publicado em 28 de julho de 2026 | 17:40
 
 
Só neste ano, espuma branca foi flagrada por três ocasiões no Rio Paraopeba, manacial que recebe as águas do Rio Betim e integra a bacia do Rio São Francisco

O Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Paraopeba (CBH Paraopeba) informou nesta terça-feira (28/7) que encaminhou ao Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) e à Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Betim (Semmad) um laudo técnico que apontaria indícios de poluição industrial no Rio Betim. Segundo o documento, um resíduo gerado por uma empresa do setor químico instalada no município, teria apresentado concentração de substâncias que favorecem a formação de espuma 284 vezes acima do limite permitido pela legislação, além de alta toxicidade, o que poderia explicar a espuma flagrada ao menos três vezes nos rios Betim e Paraopeba somente neste ano.

O primeiro caso foi registrado em 30 de maio, quando moradores flagraram extensas camadas de espuma na tríplice divisa entre Betim, Juatuba e São Joaquim de Bicas. Nove dias depois, em 8 de junho, uma equipe do CBH Paraopeba encontrou o material em outro trecho do rio, na altura do bairro Aroeiras, próximo à BR-262. A última aparição ocorreu em 12 de junho, na foz do Rio Betim, ponto onde o afluente deságua no Paraopeba, na divisa entre Betim e Juatuba. 

O estudo foi elaborado pelo Centro de Inovação e Tecnologia do Senai Minas Gerais (CIT Senai), contratado pela Agência de Bacia Hidrográfica Peixe Vivo, entidade que atua como o braço técnico e financeiro de comitês de bacia. A investigação analisou amostras da água do Rio Betim e de efluentes industriais (nome dado à água descartada por processos industriais) coletadas em junho pelo comitê para tentar identificar a possível origem da contaminação.  

Conforme o CBH Paraopeba, o objetivo do envio do laudo é subsidiar as investigações para identificar eventuais responsáveis e embasar a adoção das medidas administrativas, civis e penais cabíveis para interromper o dano ambiental no manancial. "A situação preocupa porque o Rio Betim deságua no Rio Paraopeba, que integra a bacia do Rio São Francisco, uma das mais importantes do país. Caso a contaminação seja confirmada, os impactos poderiam atingir a biodiversidade, o abastecimento de água e outros usos dos recursos hídricos ao longo da bacia", declarou o comitê em nota. 

Sobre o relatório 

De acordo com o CBH Paraopeba, os pesquisadores compararam amostras coletadas em dois trechos do rio com outras retiradas de quatro pontos de lançamento de efluentes industriais. Um dos resíduos analisados, aponta o laudo, teria apresentado 567,94 miligramas por litro (mg/L) de surfactantes, enquanto o limite estabelecido pela legislação estadual é de 2 mg/L. 

Os surfactantes, também conhecidos como tensoativos, são substâncias presentes em produtos como detergentes, sabões e produtos de limpeza. Elas reduzem a tensão da água e facilitam a formação de espuma. Em concentrações elevadas, podem prejudicar a qualidade da água e afetar a vida aquática. 

O laudo também indicaria que esse mesmo efluente possuía pH de 13,04, valor que seria considerado extremamente alcalino. Em termos práticos, isso significa que o resíduo teria características semelhantes às de produtos de limpeza muito fortes, capazes de causar danos aos organismos que vivem na água. Além disso, o laudo aponta que foi registrada concentração de 2.563 mg/L de sódio, enquanto, no trecho analisado do Rio Betim, a água normalmente apresentaria entre 34 e 36 mg/L. 

Os testes de ecotoxicidade também chamaram a atenção dos pesquisadores. Segundo o documento, mesmo após ser diluído a 0,2%, o efluente teria provocado a morte de todos os organismos utilizados nos ensaios em até 24 horas. Esse tipo de teste é usado para avaliar o potencial de uma substância causar danos aos seres vivos que habitam ambientes aquáticos. 

O estudo também apontou mudanças na qualidade da água do rio. Em um trecho onde a espuma foi registrada, a água deixaria de ser considerada não tóxica antes do ponto de lançamento dos efluentes e passaria a apresentar toxicidade crônica após ele. Isso significa que, mesmo sem provocar morte imediata, a água poderia causar prejuízos à saúde, ao crescimento e à reprodução dos organismos ao longo do tempo. 

Outra alteração observada e que consta no documento teria sido a redução de 83% da clorofila, pigmento presente em algas microscópicas responsáveis pela produção de alimento na base da cadeia alimentar aquática. Os pesquisadores também verificaram queda de 84% no zooplâncton, conjunto de pequenos organismos que serve de alimento para peixes e outras espécies. Para os especialistas, esses indicadores sugeririam impactos importantes sobre o equilíbrio do ecossistema dos rios.