Jéssica Rodrigues vivenciou experiências diferentes com as duas filhas
Foto: Brandon Santos
Jéssica Rodrigues vivenciou experiências diferentes com as duas filhas
Foto: Brandon Santos
Uma mulher amamentando seu bebê é uma cena que passa serenidade. Parece intuitivo e simples. Porém, quando o bebê nasce, dificuldades inesperadas são comuns até que o aleitamento materno seja estabelecido.
Um estudo de 2019, publicado na revista científica internacional “Nutrients”, analisou os dados de 552 mães e identificou dificuldades na amamentação em 70,3% delas — aproximadamente sete em cada dez mulheres.
“As principais estão relacionadas à dor ao amamentar, às lesões mamilares e à percepção ou ocorrência de baixa produção de leite. Muitas vezes, essas situações estão interligadas: quando a mãe sente dor, as mamadas podem se tornar menos frequentes ou menos eficazes e, consequentemente, a mama recebe menos estímulo”, explica a enfermeira especialista em amamentação, Deborah Magalhães.
A administradora Jéssica Rodrigues, de 35 anos, vivenciou muitas dessas dificuldades, principalmente com a filha mais velha, Lavínia, hoje com 5 anos. Ela se submeteu a uma cirurgia de redução mamária em 2016 e acreditava que o principal problema a ser enfrentado seria a produção de leite.
Durante a gestação, fez acompanhamento com a consultora de amamentação e constatou, ao fim, que a produção seria boa, pois conseguiu coletar bastante colostro (primeiro líquido produzido pelas glândulas mamárias). No entanto, ela se viu diante de outros obstáculos. “Tive muitas feridas e dores ao amamentar que não melhoravam”, lembra.
Após buscar orientação de diversos profissionais, ela optou por encerrar a amamentação. “Alguns manejos melhoravam o processo, mas logo voltavam à estaca zero! Então, no fim de dois meses, depois de muitas tentativas, muito sofrimento, muito choro, do sentimento de frustração, decidi encerrar (a amamentação)”, lembra.
Já com a segunda filha, Olívia, de 9 meses, a experiência foi diferente. A garotinha nasceu Pequena para a Idade Gestacional (PIG) e precisava de um cuidado específico pelo risco de hipoglicemia. Ela contou com o acompanhamento de uma consultora de amamentação, que foi fundamental nesse processo. “Não tive feridas, apenas sensibilidade. A produção de leite era boa. E as coisas foram fluindo muito bem naturalmente! Tivemos seis meses de amamentação exclusiva. E, após nove meses, seguimos amamentando bem”, conta.
Enfermeira especialista em amamentação, Deborah Magalhães reforça que amamentar não é um processo intuitivo. “Mãe e bebê constroem e aprendem juntos”, diz ela, que destaca a importância de a mulher se informar ainda na gestação: “É necessário para que ela possa tomar uma decisão informada e compreender por que vale a pena buscar ajuda diante de dificuldades”.
A designer de interiores Gabriela Andrade, de 36 anos, estava a par de tudo. Mas, quando João Pedro, hoje com 1 ano, nasceu, ela enfrentou problemas como fissuras e produção de leite. Para piorar, o pequeno teve icterícia e precisou ficar internado. Diante das barreiras, ela procurou ajuda. “Começamos a dar complemento e, quando tentava amamentar, ele chorava”, lembra.
Gabriela Andrade se viu diante de inúmeros desafios, mas não desistiu. Foto: Arquivo pessoal
Foram quase dois meses pra que a amamentação se estabelecesse sem intercorrências. Ela conta que, mesmo em meio a muita luta, não desistiu por reconhecer os benefícios do leite materno. “Queria fazer o que estava ao meu alcance para proteger e proporcionar o melhor pra ele. Por isso, insisti”.
Deborah diz que se preparar não significa que será possível controlar tudo: “Permite que a mãe saiba reconhecer o que faz parte do período de adaptação e o que precisa de avaliação profissional”.
Outro aspecto pouco falado da amamentação é que a rede de apoio da mulher contribui para o sucesso do processo. Para além das dificuldades com o aleitamento, nas primeiras semanas a nova mãe também está enfrentando o puerpério, a privação de sono e o ajuste na rotina com o novo membro da casa.
Por isso, a ajuda do companheiro se faz tão necessária. E esse apoio surte efeitos comprovados. Uma revisão publicada em 2026 no “International Breastfeeding Journal” identificou que intervenções de orientação e apoio direcionadas aos pais aumentaram em 41% a probabilidade de melhores resultados na amamentação.
A enfermeira especialista em amamentação Deborah Magalhães explica que, embora a amamentação ocorra no corpo da mulher, cabe à parceria entender também o seu papel ao assumir, de forma igualmente responsável e ativa, tudo aquilo que pode ser dividido, como: trocar fraldas, dar banho, acalmar e ninar o bebê, cuidar das tarefas domésticas, da alimentação da mãe e das demandas dos outros filhos.
Enfermeira Deborah Magalhães dá suporte às novas mães. Foto: Brandon Santos
O pai também pode participar das consultas, buscar informações qualificadas e proteger a mulher de cobranças e orientações contraditórias. “Quando a mulher se sente amparada e segura, encontra melhores condições para atravessar os desafios e estabelecer a amamentação com mais leveza”, salienta.
O aleitamento traz diversos benefícios para a saúde do bebê, conforme explica a pediatra Camila Lara Rocha.
“O leite materno, nosso ‘ouro líquido’, é o alimento mais adequado, especialmente nos primeiros meses de vida. Além de fornecer os nutrientes necessários para o crescimento e o desenvolvimento, ele contém diversas substâncias bioativas como anticorpos, células de defesa, enzimas e outros componentes que ajudam a proteger a criança contra infecções”, salienta.
Além disso, ela complementa, o leite atua no amadurecimento das defesas da criança. “Em longo prazo, na vida adulta, a amamentação está associada a um menor risco de sobrepeso e obesidade e pode contribuir para melhores desfechos cardiovasculares, musculares e metabólicos. Também existem evidências de benefícios para o desenvolvimento cognitivo infantil”, pontua.
A médica ainda reforça que a amamentação favorece o vínculo entre mãe e bebê, contribuindo para o desenvolvimento emocional da criança.
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