AGOSTO DOURADO

Amamentar traz desafios e requer persistência

Sete em cada dez mulheres têm alguma dificuldade no início; campanha nacional conscientiza sobre a importância do aleitamento

Por Sara Lira


Publicado em 30 de agosto de 2026 | 09:00
 
 
Jéssica Rodrigues vivenciou experiências diferentes com as duas filhas

Uma mulher amamentando seu bebê é uma cena que passa serenidade. Parece intuitivo e simples. Porém, quando o bebê nasce, dificuldades inesperadas são comuns até que o aleitamento materno seja estabelecido.

Um estudo de 2019, publicado na revista científica internacional “Nutrients”, analisou os dados de 552 mães e identificou dificuldades na amamentação em 70,3% delas — aproximadamente sete em cada dez mulheres.

“As principais estão relacionadas à dor ao amamentar, às lesões mamilares e à percepção ou ocorrência de baixa produção de leite. Muitas vezes, essas situações estão interligadas: quando a mãe sente dor, as mamadas podem se tornar menos frequentes ou menos eficazes e, consequentemente, a mama recebe menos estímulo”, explica a enfermeira especialista em amamentação, Deborah Magalhães.

A administradora Jéssica Rodrigues, de 35 anos, vivenciou muitas dessas dificuldades, principalmente com a filha mais velha, Lavínia, hoje com 5 anos. Ela se submeteu a uma cirurgia de redução mamária em 2016 e acreditava que o principal problema a ser enfrentado seria a produção de leite.

Durante a gestação, fez acompanhamento com a consultora de amamentação e constatou, ao fim, que a produção seria boa, pois conseguiu coletar bastante colostro (primeiro líquido produzido pelas glândulas mamárias). No entanto, ela se viu diante de outros obstáculos. “Tive muitas feridas e dores ao amamentar que não melhoravam”, lembra.

Após buscar orientação de diversos profissionais, ela optou por encerrar a amamentação. “Alguns manejos melhoravam o processo, mas logo voltavam à estaca zero! Então, no fim de dois meses, depois de muitas tentativas, muito sofrimento, muito choro, do sentimento de frustração, decidi encerrar (a amamentação)”, lembra.

Já com a segunda filha, Olívia, de 9 meses, a experiência foi diferente. A garotinha nasceu Pequena para a Idade Gestacional (PIG) e precisava de um cuidado específico pelo risco de hipoglicemia. Ela contou com o acompanhamento de uma consultora de amamentação, que foi fundamental nesse processo. “Não tive feridas, apenas sensibilidade. A produção de leite era boa. E as coisas foram fluindo muito bem naturalmente! Tivemos seis meses de amamentação exclusiva. E, após nove meses, seguimos amamentando bem”, conta.

Processo parece ser intuitivo, mas exige bastante esforço

Enfermeira especialista em amamentação, Deborah Magalhães reforça que amamentar não é um processo intuitivo. “Mãe e bebê constroem e aprendem juntos”, diz ela, que destaca a importância de a mulher se informar ainda na gestação: “É necessário para que ela possa tomar uma decisão informada e compreender por que vale a pena buscar ajuda diante de dificuldades”.

A designer de interiores Gabriela Andrade, de 36 anos, estava a par de tudo. Mas, quando João Pedro, hoje com 1 ano, nasceu, ela enfrentou problemas como fissuras e produção de leite. Para piorar, o pequeno teve icterícia e precisou ficar internado. Diante das barreiras, ela procurou ajuda. “Começamos a dar complemento e, quando tentava amamentar, ele chorava”, lembra.

Gabriela Andrade se viu diante de inúmeros desafios, mas não desistiu. Foto: Arquivo pessoal

Foram quase dois meses pra que a amamentação se estabelecesse sem intercorrências. Ela conta que, mesmo em meio a muita luta, não desistiu por reconhecer os benefícios do leite materno. “Queria fazer o que estava ao meu alcance para proteger e proporcionar o melhor pra ele. Por isso, insisti”.

Deborah diz que se preparar não significa que será possível controlar tudo: “Permite que a mãe saiba reconhecer o que faz parte do período de adaptação e o que precisa de avaliação profissional”. 

Rede de apoio, especialmente do companheiro, faz toda a diferença

Outro aspecto pouco falado da amamentação é que a rede de apoio da mulher contribui para o sucesso do processo. Para além das dificuldades com o aleitamento, nas primeiras semanas a nova mãe também está enfrentando o puerpério, a privação de sono e o ajuste na rotina com o novo membro da casa.

Por isso, a ajuda do companheiro se faz tão necessária. E esse apoio surte efeitos comprovados. Uma revisão publicada em 2026 no “International Breastfeeding Journal” identificou que intervenções de orientação e apoio direcionadas aos pais aumentaram em 41% a probabilidade de melhores resultados na amamentação.

A enfermeira especialista em amamentação Deborah Magalhães explica que, embora a amamentação ocorra no corpo da mulher, cabe à parceria entender também o seu papel ao assumir, de forma igualmente responsável e ativa, tudo aquilo que pode ser dividido, como: trocar fraldas, dar banho, acalmar e ninar o bebê, cuidar das tarefas domésticas, da alimentação da mãe e das demandas dos outros filhos.

Enfermeira Deborah Magalhães dá suporte às novas mães. Foto: Brandon Santos

O pai também pode participar das consultas, buscar informações qualificadas e proteger a mulher de cobranças e orientações contraditórias. “Quando a mulher se sente amparada e segura, encontra melhores condições para atravessar os desafios e estabelecer a amamentação com mais leveza”, salienta.

‘Ouro líquido’ que fortalece o vínculo

O aleitamento traz diversos benefícios para a saúde do bebê, conforme explica a pediatra Camila Lara Rocha. 

“O leite materno, nosso ‘ouro líquido’, é o alimento mais adequado, especialmente nos primeiros meses de vida. Além de fornecer os nutrientes necessários para o crescimento e o desenvolvimento, ele contém diversas substâncias bioativas como anticorpos, células de defesa, enzimas e outros componentes que ajudam a proteger a criança contra infecções”, salienta.

Além disso, ela complementa, o leite atua no amadurecimento das defesas da criança. “Em longo prazo, na vida adulta, a amamentação está associada a um menor risco de sobrepeso e obesidade e pode contribuir para melhores desfechos cardiovasculares, musculares e metabólicos. Também existem evidências de benefícios para o desenvolvimento cognitivo infantil”, pontua.

A médica ainda reforça que a amamentação favorece o vínculo entre mãe e bebê, contribuindo para o desenvolvimento emocional da criança.


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