ONG foi criada em 2017, na capital, e teve sua história construída fio a fio
Foto: Carolina Miranda
ONG foi criada em 2017, na capital, e teve sua história construída fio a fio
Foto: Carolina Miranda
Há quase uma década, a ONG Fio de Luz, sediada em Belo Horizonte, vem tecendo esperança para pessoas que enfrentam perda capilar em decorrência de tratamento de câncer, alopecia ou queimadura. Desde 2017, a instituição confecciona e doa perucas com fios reais para adultos e crianças, totalizando mais de 21 mil doações de lá pra cá. Hoje, a iniciativa atende 39 centros oncológicos em Minas Gerais, no Espírito Santo, na Bahia, no Rio Grande do Sul, no Mato Grosso do Sul, no Distrito Federal e até nos Estados Unidos e em Portugal.
A história teve início com um gesto e se transformou em missão. Fundador da instituição, Edmilson de Oliveira conta que tinha uma loja de cabelos na região de Venda Nova e se sensibilizou com a história de uma jovem com câncer. Ele doou uma peruca pra ela, e, cerca de um ano e meio depois, ela retornou para contar que estava curada. “Isso mexeu tanto comigo que eu viajei para São Paulo, comprei 80 kg de cabelo e pedi para que fosse tudo usado na confecção de perucas. Separei 30% para as despesas e 70% para doação. Aí, então, nasceu a ONG Fio de Luz”, relembra.
Para quem já foi contemplado pela iniciativa, o sentimento é de gratidão. É o caso da dona de casa Hiolanda Alves, de 39 anos. Em tratamento contra um câncer de mama, ela recebeu uma peruca da ONG na semana passada. “Isso me ajuda a levantar a autoestima e seguir. Estou amando minha peruca”, diz.
Atualmente, a entidade conta com cinco tecedeiras e um tecedor e tem capacidade para produzir cerca de 400 acessórios por mês. O trabalho tem o apoio de diversos parceiros, entre eles o projeto Vida por Vidas, que nasceu em Betim. “Conheci a iniciativa em um evento. Tudo que é para salvar vidas tem muito a ver comigo. Ao entender que a ONG atendia pessoas em tratamento oncológico e que a peruca traz uma autoestima muito grande, ajuda na recuperação e até na cura da doença, ofereci uma parceria para que pudéssemos ampliar a atuação. Afinal, as pessoas em tratamento contra o câncer precisam muito de sangue e de medula óssea”, afirma Alessandro Victor, líder do Vida por Vidas, que integra o Grupo Cooperativo Iberoamericano de Medicina Transfusional, de fomento à doação de sangue.
A tecedeira Silma de Oliveira faz parte da equipe da ONG Fio de Luz há oito anos. Pelas mãos dela, milhares de recomeços já foram entrelaçados, inclusive o dela mesma. Ex-açougueira, ela resolveu mudar de profissão quando soube que o estabelecimento em que trabalhava ia encerrar as atividades. Inicialmente, ela fez cursos de modelagem industrial e corte e costura. Na sequência, por necessidade própria, cursou mecânica de máquinas e passou a distribuir cartões para divulgar suas novas formações. “Um dia, a ONG precisou de uma pessoa para consertar umas das máquinas de costura. Indicaram quatro profissionais homens a eles, mas nenhum atendeu. Então, me ligaram, e eu vim na hora. Nunca tinha visto um cabelo sendo costurado. Eu me interessei, aprendi a tecer, regulei todas as máquinas da Fio de Luz e não saí mais daqui”, conta Silma, que agora acumula a função de vice-presidente da organização não governamental.
A tecedeira relembra que o início foi difícil, em razão do pouco volume de cabelo que chegava à instituição. “Às vezes, levávamos de dois a três dias para fazer cinco perucas porque os cabelos que tínhamos eram muito diferentes uns dos outros – a gente precisa de, no mínimo, quatro doadores para cada acessório. Hoje, recebemos toneladas de cabelos, e a facilidade de trabalhar é muito maior”, pondera Silma.
De acordo com a profissional, os fios que chegam à ONG são separados por cor, textura e ondulação, e passam por um processo de higienização. Em aproximadamente uma hora e meia, uma peruca é confeccionada. “Eu costumo dizer que não existem palavras para descrever esse trabalho. Só faz quem realmente tem amor. A satisfação de ver o sorriso de uma pessoa recebendo uma peruca não tem explicação. É muito satisfatório”, conclui.