Especialista enfatiza que manifestações verbais sobre a morte jamais devem ser encaradas como drama, chantagem ou “brincadeira” para chamar atenção
Foto: Acir Galvão/Editoria de Arte de O TEMPO
Especialista enfatiza que manifestações verbais sobre a morte jamais devem ser encaradas como drama, chantagem ou “brincadeira” para chamar atenção
Foto: Acir Galvão/Editoria de Arte de O TEMPO
Aos 16 anos, o mundo de Ana* desabou. Quando o resultado positivo do teste de gravidez se confirmou, o medo do julgamento familiar e do futuro incerto pesou mais do que o desejo de continuar. Sozinha em casa, ela tomou um coquetel de medicamentos. O socorro veio a tempo, trazido pelas mãos desesperadas da mãe. Hoje, aos 45 anos e mãe de dois filhos, entre eles o da gestação na adolescência, Ana carrega a memória daquele dia e a consciência de que a dor que sentiu a ponto de não querer mais continuar é partilhada por outras pessoas ao redor do mundo. “Graças a Deus, tive uma segunda chance, mas nem todas as pessoas têm essa mesma sorte”, lamenta.
Essa dor, que deixou marcas no passado de Ana, ressoa de forma trágica no presente de outras famílias betinenses. No dia 1º de março deste ano, o drama do autoextermínio bateu à porta de Leandro*, de 33 anos, que tirou a própria vida na residência em que morava com a mãe e a irmã caçula, de 16 anos. Kátia*, de 28 anos, também irmã de Leandro, conta que a depressão dele se acentuou após sucessivos golpes emocionais: a perda da primeira filha com uma semana de vida em 2015, uma separação conjugal, o desemprego, o isolamento no quarto com jogos e a dificuldade em aceitar o diagnóstico de autismo do segundo filho.
Kátia relata que, conforme o sofrimento de Leandro se aprofundava, o uso de substâncias ilícitas começou, episódios de agressividade aumentaram e avisos dele de que não queria mais viver, interpretados na época pela família como brincadeiras, se tornaram mais frequentes. O desfecho trágico ocorreu após uma saída dele no fim de semana, quando a mãe, ao retornar do trabalho para casa, o encontrou sem vida.
A tragédia abalou profundamente a estrutura familiar: a mãe agora sofre de insônia; a irmã caçula ficou traumatizada; e Kátia desenvolveu depressão e ansiedade. “A morte dele deixou marcas profundas na nossa família. Sinto muito a falta dele e me seguro para não chorar, principalmente quando o filho dele pergunta por ele, sem entender o que aconteceu. É importante ter empatia com a dor do outro. A vida de cada um importa”, salienta Kátia.
Essa marca que o luto por autoextermínio deixa também é sentida por Cláudio*, que vive a dor da perda do primo e amigo Otávio*, que tirou a própria vida aos 21 anos, em 2018. “Tem oito anos, mas a ferida continua aberta. Ele era um menino que veio para ensinar muito pra nossa família”, afirma.
Diferentemente de casos em que os sinais são aparentes, a história de Otávio revela um sofrimento silencioso. Com boa condição financeira e paixão pela vida no campo e por cavalos, o jovem viu sua trajetória mudar drasticamente após um acidente de motocicleta no qual perdeu os movimentos do braço direito. Sem conseguir trabalhar da forma como atuava, Otávio entrou em depressão.
“Ninguém enxergou que ele estava mal. Ele não demonstrava nada, vivia alegre e sorrindo. Nunca falou que pensava em se matar. Às vezes, sumia, mas sempre estava nas festas de família. Na semana em que cometeu suicídio, combinamos de nos encontrar para tomar uma cerveja, mas, antes disso, ele se matou”, lamenta o primo.
Segundo Cláudio, a perda de Otávio acendeu na família a reflexão sobre a necessidade de romper tabus e buscar apoio conjunto no primeiro sinal de sofrimento psíquico. “Os pais sabiam que ele estava com depressão e se tratando, mas não pediram ajuda, às vezes por vergonha. Se ele tivesse contado, quem sabe nós, como amigos, podíamos ter ajudado de outra forma, ficado mais do lado dele”, alerta o primo.
Os relatos das histórias de Ana, Leandro e Otávio refletem um drama estatístico silencioso em Betim, conforme mostra levantamento do Observatório de Segurança Pública, da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública de Minas Gerais (Sejusp-MG). Entre janeiro e julho de 2026, em um intervalo de 212 dias, o município registrou 19 casos consumados de autoextermínio e 19 tentativas; ou seja, considerando as duas situações, a cada cinco dias, uma pessoa tira a própria vida ou tenta o autoextermínio.
Psicóloga, psicanalista, especialista em psicologia clínica e responsável pela Clínica Insight, a servidora do SUS Betim Fernanda Teixeira Carneiro explica que o comportamento suicida não está relacionado a uma causa única, mas se trata de um fenômeno multifatorial que atravessa dimensões psicológicas, psiquiátricas, sociais, familiares, econômicas e ambientais.
“Transtornos psiquiátricos frequentemente associados a depressão, bipolaridade, transtornos de personalidade ou psicose são severamente agravados quando combinados ao uso abusivo de álcool e drogas, compulsão por apostas, lutos não elaborados, perda de emprego, isolamento social e rotinas imersas em jogos eletrônicos. No caso dos jovens, por exemplo, o suicídio foi a terceira maior causa de mortes nessa faixa etária no país em 2021, refletindo também os impactos da pandemia e do isolamento social na época”, pondera a especialista.
Ainda de acordo com Fernanda, o papel da tecnologia e do isolamento virtual também entra nesse contexto de vulnerabilidade. “O problema não é a tela em si, mas a forma como é utilizada. O uso excessivo ou problemático de dispositivos por adolescentes e jovens está frequentemente associado à piora na qualidade do sono, à comparação social, ao cyberbullying, à exposição a conteúdos de autolesão e à pressão estética, o que fragiliza a autoestima e amplia os sintomas depressivos e ansiosos daqueles que já se encontram em sofrimento psíquico”, salienta.
Para evitar novas tentativas de autoextermínio, a psicóloga e psicanalista Fernanda Carneiro afirma que identificar sinais de alerta é um passo decisivo. “Alterações expressivas de humor ou sono, isolamento repentino, falas sobre ser um peso para a família ou desejar desaparecer, abandonar atividades prazerosas, fazer despedidas incomuns e buscar por meios letais são comportamentos que exigem atenção imediata”, alerta ela.
A especialista enfatiza que manifestações verbais sobre a morte jamais devem ser encaradas como drama, chantagem ou “brincadeira” para chamar atenção. Ela diz também que, ao contrário do que pregam, falar sobre o assunto não induz alguém ao ato. “Perguntar de forma direta, acolhedora e sem julgamentos não coloca a ideia na cabeça de quem não a tinha. Ao contrário, funciona como um fator de proteção, permitindo que a pessoa compartilhe a dor que vinha guardando em segredo”, salienta.
Nesse processo de cuidado e prevenção, a família desempenha um papel de proteção fundamental e, nos casos daquelas que perderam um ente, necessitam de amparo psicológico para lidar com o luto, a culpa e a exaustão. “Os familiares não devem assumir sozinhos a responsabilidade nem tentar controlar a vida do outro, mas, sim, compartilhar a carga emocional e o cuidado com os serviços especializados de saúde”, ressalta Fernanda.
Diante da dor que tantas vezes é silenciosa, especialistas afirmam que a mente, assim como o corpo, adoece e exige cuidado livre de estigmas ou julgamentos. Referência técnica em saúde mental da Secretaria de Saúde de Betim, Fernanda Naime alerta que não é preciso esperar o limite do esgotamento ou a iminência de uma tragédia para procurar auxílio. “A prevenção do suicídio é uma responsabilidade compartilhada. Por isso, o município atua de forma contínua para ofertar cuidado territorializado, integral e humanizado, estruturado em uma Rede de Atenção Psicossocial (Raps), que acolhe o cidadão em diferentes níveis de complexidade”, detalha.
A principal porta de entrada para esse cuidado são as 41 Unidades Básicas de Saúde (UBSs). Nelas, as equipes de Saúde da Família e os psicólogos das equipes multiprofissionais (eMulti) realizam a escuta inicial, conduzem grupos terapêuticos voltados para o manejo da ansiedade e da depressão leve a moderada e coordenam a medicação ofertada pela farmácia do SUS.
Paralelamente, a prevenção é trabalhada nas escolas por meio do Programa Saúde na Escola (PSE), iniciativa que capacita educadores para identificar precocemente sinais de sofrimento emocional entre crianças e adolescentes e promove rodas de conversa sobre saúde mental na juventude.
Quando o quadro exige um acompanhamento mais aprofundado, como nos casos de transtornos mentais graves, persistentes ou de ideação suicida, a assistência migra para os Centros de Referência em Saúde Mental (Cersams).
Nesses espaços, a equipe multiprofissional elabora um projeto terapêutico direcionado, combinando o acompanhamento psiquiátrico para a estabilização de sintomas com o suporte psicológico voltado à reconstrução de vínculos e de recursos de enfrentamento. Em momentos de sofrimento agudo, os Cersams também atuam de portas abertas, oferecendo acolhimento por demanda espontânea, sem precisar de agendamento.
E, segundo a referência técnica, em situações de risco grave e iminente, a conduta deve ser imediata. “A pessoa em crise jamais deve ser deixada sozinha, e qualquer meio letal precisa ser afastado do alcance dela”, alerta Fernanda.
O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu – 192) e a Guarda Municipal (153) também são preparados para intervir em situações de crise suicida. Os guardas, por exemplo, recebem instruções de primeiros socorros e mediação de conflitos, garantindo o suporte inicial, a segurança do local e o acionamento dos demais órgãos necessários.
Já as equipes do Samu são capacitadas para abordar a pessoa em sofrimento utilizando comunicação terapêutica para criar vínculo e reduzir riscos, além de realizar a estabilização clínica ou traumática e o encaminhamento do paciente ao serviço de saúde adequado.
“Os primeiros 30 dias após uma tentativa de suicídio exigem monitoramento rigoroso e proativo, com reavaliação psiquiátrica recomendada em até 72 horas após a alta hospitalar e acompanhamento intensivo por pelo menos 12 semanas nos Cersams”, finaliza Fernanda.
Para além do acolhimento da rede municipal, os betinenses contam com canais de escuta imediata e sigilosa acessíveis a qualquer hora. O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional gratuito pelo telefone 188 ou pelo site cvv.org.br, funcionando 24 horas por dia.
Já adolescentes e jovens de até 24 anos contam com a plataforma, disponível no aplicativo Meu SUS Digital.
*Nomes fictícios para preservar as fontes.