DIA NACIONAL DOS SURDOS

Mãos que falam: surdos de Betim pedem acessibilidade real

Eles destacam a importância do aprendizado da Língua Brasileira de Sinais (Libras)

Por Sara Lira

Publicado em 26 de setembro de 2026 | 08:00

 
 
Priscila é surda, instrutora de Libras e acredita que ainda há muito a melhorar no quesito acessibilidade para a comunidade surda; para Ricardo, mais pessoas sabendo Libras e mais intérpretes facilitariam a comunicação com pessoas surdas Priscila é surda, instrutora de Libras e acredita que ainda há muito a melhorar no quesito acessibilidade para a comunidade surda; para Ricardo, mais pessoas sabendo Libras e mais intérpretes facilitariam a comunicação com pessoas surdas Foto: Carolina Miranda

Neste sábado (26/9), o Dia Nacional dos Surdos nos convida a lançar um olhar sobre a comunidade surda, sua forma própria de comunicação e a importância da Língua Brasileira de Sinais (Libras) para a inclusão e a participação social dessa comunidade. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de 10 milhões de brasileiros têm algum grau de surdez. Em Betim, a estimativa é de aproximadamente 2.300 pessoas surdas, segundo a Associação dos Surdos de Betim (ASB).

A reportagem de O TEMPO Betim conversou com alguns deles, cuja opinião é unânime: a acessibilidade ainda é um sonho distante. Para eles, o atendimento em todos os serviços, como os de consultórios médicos, de comércios, bancários e públicos, ainda são defasados com a ausência de intérpretes ou de pessoas que saibam Libras. “Muitas vezes, precisamos escrever, usar o celular ou chamar alguém para ajudar na comunicação”, destaca a professora de Libras do Salão do Encontro, Priscila Costa, de 41 anos. 

A estudante de pedagogia Débora Meireles, de 32, afirma sofrer com essas dificuldades diariamente. Para ela, a falta de acessibilidade pode dificultar não somente a comunicação, como também a resolução de problemas. “Em consultórios médicos, a situação é muito preocupante. Cada pessoa surda tem uma realidade diferente, e nem todas conseguem se comunicar por meio da escrita em português. Como uma pessoa surda que não tem domínio da escrita vai explicar ao médico o que está sentindo se não há comunicação em Libras? Isso pode trazer consequências sérias”, pontua.

Escrita

Um ponto importante é que não basta escrever para se comunicar com os surdos, já que a Libras é uma língua à parte – e não uma tradução do português, com estruturas linguísticas e gramaticais próprias.

“Ter acesso à Libras significa poder participar, compreender informações, expressar opiniões e exercer seus direitos com autonomia e respeito”, acrescenta Débora.

Parta o auxiliar de logística Ricardo de Andrade, de 38 anos, deveria haver mais oferta de cursos de Libras, incentivo para que as pessoas aprendam a língua e também intérpretes em todos os campos da sociedade. “A acessibilidade em vários locais é deficiente e precisa ser ampliada. Na nossa cidade, há muitas pessoas surdas que precisam se comunicar”, salienta.

Para Débora Meireles, é importante as pessoas terem ao menos conhecimento da língua de sinais para se comunicarem com os surdos. 

Assim como ela, todos os entrevistados relataram já ter tido experiências positivas em alguns locais, ao se depararem com alguém que sabia se comunicar em Libras, o que facilitou a interação. “Já aconteceu de eu ir a um lugar acreditando que não teria ninguém que soubesse Libras e, para minha surpresa, encontrei uma pessoa que conseguia se comunicar comigo. Fiquei muito feliz e aliviada, pois a comunicação ficou mais fácil e natural”, conta Priscila.

Andrade relata que vivenciou situação semelhante em uma loja de roupas: “Quando a atendente viu que sou surdo, chamou outra mulher que sabia se comunicar em Libras. Ela não é fluente na língua, mas ajudou na comunicação”.

Associação que representa a classe faz 30 anos
A Associação dos Surdos de Betim (ASB) completou três décadas neste mês. Ela funciona dentro da Escola Municipal Israel José Carlos (Caic), no Capelinha, e tem como presidente Endreck Raphael.

“Esses 30 anos representam a história de muitas pessoas que passaram pela associação, contribuíram para seu crescimento e ajudaram a construir essa trajetória. Nosso objetivo é continuar fortalecendo o trabalho e ampliar cada vez mais o atendimento à comunidade”, explica a secretária da entidade, Maria Eduarda Nunes. 

Atualmente, a associação conta com três projetos principais: o Alfabetização Digital Inclusiva, voltado para idosos; os treinos de bocha, que promovem integração e inclusão para pessoas com deficiência; e os de futsal, voltado principalmente para os atletas surdos.

“A associação atua como um espaço de acolhimento e representatividade para a comunidade surda e seus familiares, buscando promover acessibilidade, respeito, reconhecimento e união”, frisa. Mais informações sobre a ASB podem ser obtidas no perfil @asbetimmg do Instagram ou pelo telefone: (31) 99442-7237.

Profissão de intérprete é regulamentada por lei

A profissão de tradutor e intérprete de Libras é regulamentada pela Lei nº 14.704/23. Ela exige que o profissional tenha formação técnica ou superior na área ou outras formações, mas com curso de extensão voltado para a língua de sinais, e que tenha sido aprovado no exame de proficiência, feito no Centro de Capacitação de Profissionais da Educação e de Atendimento às Pessoas com Surdez (CAS), em BH.

“Ser tradutor não é simples. Você tem que saber as variações linguísticas, ter contato com os surdos aí sim você vai pegar fluência, se profissionalizando e buscando os certificados”, afirma a intérprete da Câmara de Betim, Mariana Moura.

O que é a Libras?

A Língua Brasileira de Sinais é um sistema linguístico e gramatical que utiliza sinais e expressões faciais. Ela é reconhecida oficialmente no Brasil pela Lei 10.436, de 24 de abril de 2002.

Onde estudar?

Senac - A unidade de Betim oferece Libras por meio do Programa Senac de Gratuidade (PSG). A próxima turma será aberta em 2027.

Igrejas e associações - De forma pontual, esses locais ofertam curso de Libras.