BETIM 87 ANOS

Eles também são tombados: os patrimônios pouco conhecidos que guardam a memória de Betim

Em celebração aos 87 anos de emancipação, reportagem especial destaca seis bens tombados fora do circuito mais popular do patrimônio histórico da cidade

Por Marcio Antunes

Publicado em 12 de dezembro de 2025 | 15:13

 
 
Conheça mais sobre a Capela de São Sebastião, no bairro Amazonas, e de outros cinco bens da cidade Conheça mais sobre a Capela de São Sebastião, no bairro Amazonas, e de outros cinco bens da cidade Foto: Brandon Santos

Diferente de alguns dos bens históricos mais conhecidos de Betim, a cidade abriga patrimônios tombados que seguem preservando memórias fundamentais. É o caso da Capela de São Sebastião, no bairro Amazonas; do acervo do padre Osório Braga, no Museu Paulo Araújo Gontijo; da Casa da Gilda, no condomínio Felicitá; da Usina Hidrelétrica Dr. Gravatá, às margens do Rio Betim; da antiga Caixa D’Água, nas proximidades da praça Milton Campos; e do Núcleo Histórico do Assentamento Dois de Julho, na região do Vianópolis. 

Para a historiadora e pesquisadora independente Adriana de Araújo Lisboa, mestranda pela UFLA e estudiosa da memória e do patrimônio de Betim, o tombamento é um instrumento essencial. “Tanto os mecanismos de proteção do tombamento quanto os registros de salvaguarda são importantes para manutenção da memória local e para garantia legal da preservação dos bens culturais, que são referências afetivas e identitárias para a memória coletiva das comunidades”, explica. 

Ela alerta, no entanto, que o reconhecimento formal, por si só, não resolve tudo. “Não faz sentido tombar por tombar, registrar por registrar, sem fazer valer as garantias de preservação e salvaguarda previstas nos instrumentos legais”, afirma. Sem essa atenção, o risco é amplo: “É a memória local que se perde. Perdem-se as referências materiais, a força das manifestações culturais e a própria identidade local”, completa, defendendo inventários construídos com participação popular como caminho para democratizar e descentralizar o direito à memória na grande Betim.

 

Confira a lista: 

CAPELA DE SÃO SEBASTIÃO 

A Capela de São Sebastião, no bairro Amazonas, é um exemplo da arquitetura popular rural e um dos bens históricos mais antigos de Betim. Os registros imobiliários da antiga Fazenda Batatal indicam a existência da construção no início dos anos 1940, quando o templo foi erguido a partir de promessas feitas por latifundiários devotos de São Sebastião, santo associado à proteção contra pestes, pragas e doenças que atingiam as lavouras. Com o desmembramento da Fazenda Batatal e os avanços da urbanização, da industrialização e do crescimento populacional — especialmente a partir da chegada da Fiat —, a antiga capela rural permaneceu de pé, hoje cercada por duas das regiões mais populosas do município, Teresópolis e Imbiruçu.

“A partir do fim dos anos 1970, a comunidade formada no entorno da capela se apropriou do espaço não apenas como local de devoção religiosa, mas também como referência social e comunitária”, contou Adriana. O reconhecimento oficial veio em 1998, quando a capela foi tombada como patrimônio cultural de Betim no mesmo ano que outros bens como a Casa da Cultura, a Capela do Rosário, o prédio do atual museu, o Portal da Colônia Santa Isabel e o Acervo do Padre Osório, dando início à política municipal de proteção do patrimônio histórico.

 

ACERVO DO PADRE OSÓRIO

Padre Osório foi uma das figuras mais influentes da história da cidade, ainda nos tempos em que o município se chamava Capela Nova do Betim. Ordenado sacerdote em 1901, após formação no Colégio do Caraça e no Seminário de Mariana, ele esteve à frente da paróquia de Nossa Senhora do Carmo por 67 anos, atuando tanto na antiga Igreja Matriz quanto em comunidades rurais do entorno. Além da vida religiosa, teve participação ativa na política local e foi personagem central em decisões importantes, incluindo o processo de emancipação do município.

A trajetória do sacerdote é preservada por meio do Acervo do Padre Osório, único conjunto de bens móveis tombados como patrimônio cultural de Betim. O acervo reúne quase 40 itens de uso pessoal e litúrgico, como carteira de identidade, cajado, batina preta, alvas, casulas e estolas, peças que documentam práticas e símbolos do catolicismo tradicional. Atualmente, esses bens estão expostos no Museu Paulo Araújo Gontijo, no Centro, e representam não apenas a memória do pároco, mas também um importante registro da cultura religiosa e da história social da cidade.

 

CASA DA GILDA

A Casa da Gilda é um bem de arquitetura modernista localizado no bairro Nossa Senhora das Graças, na Regional Norte, área que hoje integra o Condomínio Felicitá. A edificação foi projetada no fim da década de 1940 como casa de campo da socialite Gilda Ribeiro Morais, e a residência foi ocupada por ela e por seu marido, Aristides Vitor Braighi, entre 1950 e 1970. Após esse período, o imóvel permaneceu conservado por caseiros da família até ser vendido, nos anos 2000, para uma construtora.

Para além do valor arquitetônico, a casa está diretamente associada à atuação social, política e filantrópica de Dona Gilda Morais, figura marcante da história local. “Era uma mulher empoderada com forte tendência às badalações da vida social da elite mineira da época. Sua filantropia trouxe grandes frutos para a cidade, tanto por sua influência pessoal no meio político estadual, quanto por meio de sua ligação com Dona Sarah Kubitschek, esposa do presidente JK”, conta Adriana. 

Ela esteve ligada às iniciativas que deram origem a equipamentos fundamentais da cidade — como a Igrejinha da Gilda, CETAP, o banco de leite e a primeira agência da Previdência Social de Betim. Em 2009, a residência passou a integrar o inventário do patrimônio cultural como parte do Conjunto Arquitetônico de Gilda Morais, ao lado da igreja e do antigo albergue. Já em 2020, a casa foi tombada isoladamente como patrimônio cultural do município. Atualmente, o imóvel permanece preservado, porém sem acesso ou visibilidade pública, localizado na área interna do Condomínio Felicitá.

 

USINA DR. GRAVATÁ

A Usina Dr. Gravatá é um dos mais relevantes marcos da história industrial de Betim e também da industrialização mineira. Ela foi construída no início do século XX pelo Estado de Minas Gerais em parceria com a empresa de propriedade do francês Emílio Schnoor, a usina teve seu nome popularizado em referência ao engenheiro Antônio Gonçalves Gravatá, chefe técnico do empreendimento. Gravatá chegou à região em 1909 para atuar na construção da Estação Ferroviária Capela Nova, na antiga Estrada de Ferro Oeste de Minas, e posteriormente coordenou a exploração do potencial hidráulico do Ribeirão da Cachoeira, atual Rio Betim, onde a queda d’água possibilitou a implantação do complexo hidrelétrico.

Inaugurada em 1914, a Usina Dr. Gravatá passou a gerar energia suficiente para abastecer distritos e cidades vizinhas como Divinópolis. A estrutura desempenhou papel estratégico, especialmente na década de 1940, durante a expansão do polo industrial de Contagem. Instalada na antiga Fazenda Cachoeira, às margens do Rio Betim, no atual bairro Pingo d’Água, a usina operou por cerca de 40 anos e foi desativada na década de 1950, com a chegada da rede de distribuição da recém-criada CEMIG.

“Hoje, o tombamento reconhece o prédio da antiga casa de máquinas como bem cultural do município. O imóvel passou por um processo de revitalização há cerca de oito anos, custeado pela construtora MRV como contrapartida social, preservando a memória de um dos principais símbolos do início da industrialização regional”, explicou Adriana. 

 

CAIXA D’ÁGUA 

A Caixa d’Água localizada próximo à Praça Milton Campos, na avenida Governador Valadares, na região central, é um marco da história do saneamento básico em Betim. Ela foi construída na década de 1960 e simboliza o início do abastecimento domiciliar de água no então recém-emancipado município. O fornecimento era feito por meio de bicas e minas naturais. A partir de 1940, o poder público passou a investir em poços artesianos, mas eram cobrados os altos custos desse investimento da população.

A Caixa d’Água da Praça Milton Campos se consolidou como a primeira e principal estrutura desse tipo na área central da cidade. “Com a criação da Copasa na década de 1970 e a implantação do sistema integrado de tratamento e distribuição, o equipamento passou a ser administrado pelo órgão estadual, mantendo-se como referência histórica do avanço da infraestrutura urbana de Betim”, conta Adriana.

 

ASSENTAMENTO DOIS DE JULHO 

O Núcleo Histórico do Assentamento Dois de Julho, na Regional Vianópolis, às margens do rio Paraopeba, preserva a memória da antiga Fazenda Ponte Nova, cujas origens remontam ao período colonial. As terras foram concedidas por sesmaria em 1760 e, ao longo do tempo, tornaram-se referência econômica e social da região, com capela, cemitério e atividades agropecuárias.

Em 2 de julho de 1999, após a perda da função social da propriedade, o território foi ocupado pela organização social da comunidade do MST, dando origem ao primeiro assentamento da Região Metropolitana de Belo Horizonte. O tombamento reconhece os vestígios materiais da antiga fazenda e a organização social da comunidade assentada, fundamentais para a memória local, como sede, curral, cemitério e escola rural.