
Aos 20 anos, Helena Maria Tobias já construiu quatro instrumentos musicais do zero: dois violinos e duas violas. Três deles foram vendidos, inclusive para estudantes da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). A jovem, que integra a Orquestra Filarmônica Ramacrisna, em Betim, está começando a transformar em profissão uma habilidade que descobriu durante as aulas de música: a luteria, atividade dedicada à fabricação, manutenção e restauração de instrumentos musicais.
A trajetória musical começou aos 11 anos, quando Helena teve o primeiro contato com a música clássica por meio da flauta doce. Depois, passou a estudar viola erudita e, quatro anos mais tarde, ingressou na Orquestra Filarmônica Ramacrisna. Desde então, mantém uma rotina de estudos acompanhada pelo maestro Eliseu Barros, a quem costuma enviar vídeos dos exercícios técnicos para receber orientações.
O interesse pela luteria surgiu durante uma conversa com o maestro sobre outras atividades que Helena gostaria de desenvolver. Ao perceber a curiosidade da aluna, Eliseu começou a ensiná-la a realizar pequenos reparos em instrumentos de cordas. Com o tempo, os exercícios de manutenção deram lugar a trabalhos mais complexos, até que ela passou a fabricar violinos e violas.
"Eu já tinha vontade de aprender a fazer manutenção de instrumentos de cordas. Quando tive a oportunidade de começar, fui aprendendo aos poucos, primeiro com pequenos reparos. Depois, comecei a construir instrumentos inteiros", conta Helena. Entre os instrumentos que produziu está a viola que a própria jovem utiliza nas apresentações da orquestra. Dos outros três instrumentos, dois foram vendidos a estudantes da UFMG e um a um colega do grupo musical.
Segundo Eliseu, os instrumentos passam por uma avaliação técnica antes da venda. A análise considera medidas, acabamento e qualidade sonora. O maestro afirma que as peças produzidas por Helena podem alcançar cerca de R$ 5 mil no mercado, mas, por estar no início da carreira na luteria, ela tem vendido cada uma por aproximadamente R$ 3.500.
"Fui dando pequenos reparos para ela fazer e observando se tinha uma mão boa para isso, com calma, atenção aos detalhes e perfeccionismo. A luteria exige muito cuidado, porque qualquer falha pode comprometer o trabalho", explica o maestro.
Diagnosticada com Transtorno do Espectro Autista (TEA), Helena também encontrou na orquestra um espaço de convivência e aprendizado coletivo. Segundo Eliseu, em algumas situações o excesso de estímulos sonoros provoca desconforto na jovem, o que exige atenção às suas necessidades durante as atividades.
O maestro destaca que o acompanhamento individual e a convivência com os colegas têm contribuído para a participação de Helena no grupo. Além das aulas presenciais, ela mantém contato frequente com Eliseu para aprimorar a execução musical e os trabalhos de luteria. Atualmente, a jovem concilia os estudos da viola com a fabricação de instrumentos, atividade que já começa a gerar renda.