IDENTIDADE

‘Epiderme Azeviche’ estreia em Betim e leva ao palco reflexões sobre negritude e ancestralidade

Com entrada gratuita, montagem de dança afro contemporânea valoriza a identidade negra e fortalece a produção cultural local

Por Marcio Antunes


Publicado em 08 de abril de 2026 | 15:12
 
 
Artista também é jornalista, produtora e mestra em Cinemas Negros no Feminino pela UFMG

Betim recebe, no sábado (25 de abril), a estreia de ‘Epiderme Azeviche’, obra de dança afro contemporânea que propõe reflexão sobre negritude, identidade e ancestralidade. A apresentação será realizada no Teatro Municipal Newton Amaral Franco, às 19h, com entrada gratuita.

Idealizado pela bailarina e coreógrafa Elaine do Carmo, o espetáculo tem forte ligação com Betim, cidade onde a artista construiu sua trajetória desde a infância. “Foi o primeiro lugar onde me estabeleci com minha família. Minha vida cultural começou aqui”, afirma. Com mais de três décadas dedicadas à dança, Elaine transforma essa vivência em linguagem cênica, explorando o corpo negro como expressão política e estética.

Dividida em três atos, a montagem combina solos e momentos coletivos. Na estreia, Elaine divide o palco com as bailarinas Nani Silva, de Betim, e Guida Missy, de Ibirité, reforçando a proposta de intercâmbio artístico e valorização de talentos locais. A cada cidade visitada, o espetáculo incorpora novos artistas, tornando cada apresentação única.

Mais do que uma narrativa coreográfica, a obra propõe uma vivência. “Não entendo a dança como uma luta antirracista, mas como uma vivência antirracista contínua”, explica Elaine. Segundo ela, o corpo negro, em sua presença, já comunica e provoca reflexão, seja em movimento ou em silêncio.

A montagem também aposta em recursos multimídia, com projeções audiovisuais integradas ao cenário e aos figurinos, criando uma atmosfera imersiva. A proposta dialoga com referências afro-brasileiras e africanas, ampliando o alcance simbólico da obra.

Para a bailarina Nani Silva, que participa da estreia, o espetáculo carrega um significado profundo. “Dançar é comunicação. Expressar nossa luta contra o racismo é uma necessidade diária. Essa peça tem um propósito gigante e vai tocar muitas pessoas”, destaca.

Com duração de 35 minutos, “Epiderme Azeviche” foi pensado para circular por diferentes cidades mineiras, levando ao público discussões sobre pertencimento, memória e resistência. Após Betim, a montagem seguirá para outros municípios do estado: Araxá, Leopoldina, Pirapora, Divinópolis, entre outros da região metropolitana de Belo Horizonte.

A obra é realizada através da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura – PNAB (Lei nº 14.399/2022), do Estado de Minas Gerais – PNAB 2024. 

Para Elaine do Carmo, a dança também cumpre um papel fundamental no letramento racial dentro do meio artístico, ao possibilitar reflexões sem depender da palavra. A artista destaca que ainda há muitas interpretações equivocadas, que associam o tema a questões religiosas ou até à doutrinação, o que contribui para a disseminação de visões distorcidas, especialmente sobre religiões de matriz africana. 

“É uma forma de fazer esse letramento acontecer por meio do sentimento. Embora a palavra também seja importante, a dança proporciona uma experiência sensorial impactante, por meio das imagens e dos movimentos. Isso permite que a compreensão aconteça de forma mais ampla, inclusive para pessoas com deficiência, tornando a mensagem mais acessível. Por isso, acredito que os movimentos coreográficos são um recurso extremamente valioso e expressivo”, completa. 

Os ingressos estarão disponíveis gratuitamente na plataforma Sympla a partir de sábado (11) e serão distribuídos na bilheteria momentos antes da apresentação. 

Contrapartida cultural

O projeto prevê ainda a realização do workshop “Cinema na Dança”, uma vivência prática que une corpo e audiovisual. A atividade será ministrada em Belo Horizonte por Elaine do Carmo e tem como objetivo capacitar bailarinos, estudantes e interessados em processos criativos, utilizando o celular como principal ferramenta de captação e edição.

Além da atuação na dança, Elaine também é jornalista, produtora e mestra em Cinemas Negros no Feminino pela UFMG. Em 2022, lançou o filme “Marlene Silva: Dança o Mundo”, sobre o legado da dança afro mineira. Sua trajetória inclui ainda o documentário “Mundo Velho Mundo Negro” e pesquisas publicadas em livros e revistas acadêmicas. A artista também atua como conselheira Sudeste da Associação dos Profissionais do Audiovisual Negro (Apan).

Serviço
Espetáculo "Epiderme Azeviche".
Data: sábado, 25 de abril.
Horário: 19h.
Local: Teatro Municipal Newton Amaral Franco.
Entrada gratuita.