
“Eu amo a rua”, escreveu um confidente João do Rio, em 1908, no primeiro capítulo do livro “A Alma Encantadora das Ruas”, onde o cronista descreve as vias da cidade como um organismo vivo, que nasce, cresce, ganha temperamento, adoece, se apaixona e é capaz de guardar segredos e memórias.
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É essa ideia de rua como espaço de encontro, de transformação e de identidade coletiva – “que está para a grande cidade como a estrada está para o mundo” – que interessa à inédita mostra “Celebrar as ruas: 50 anos de Fiat e brasilidade na Casa Fiat de Cultura", que ocupa, a partir desta terça-feira (7/7) todos os espaços do centro cultural na Praça da Liberdade, em Belo Horizonte, incluindo pela primeira vez os jardins da instituição no percurso expositivo.
Com entrada gratuita e em cartaz até 11 de outubro, a mostra reúne mais de 250 obras e objetos – entre eles 112 obras de arte, 104 fotografias históricas, sete automóveis, sete vídeos, seis instalações imersivas e três obras site-specific – ou seja, criadas especificamente para aquele espaço. A curadoria é assinada por Yuri Fomin Quevedo, curador do acervo da Pinacoteca de São Paulo, Peter Fassbender, vice-presidente da Stellantis para a América do Sul e chefe do Design Center LATAM, e Marcos Rozen, jornalista automotivo e fundador do Museu da Imprensa Automotiva (MIAU).
Ainda que não se estruture a partir de uma sequência cronológica, o ponto de partida da mostra é, sim, histórico, propondo um paralelo entre a construção de Brasília e a posterior chegada da Fiat ao país – dois eventos que são separados por décadas e que a exposição aproxima por meio de fotografias de época, tendo, de um lado, os registros do Studio Cerri sobre a fábrica em construção em Betim e, de outro, imagens de Brasília em obras, feitas por Marcel Gautherot.
“Uma certa ideia de estruturação de território antes desabitado, de uma construção que emerge quase do nada, está nas duas fotos, nas duas experiências”, reflete o curador Yuri Quevedo durante visita à mostra, lembrando que há ainda outro elo comum: a presença de Juscelino Kubitschek tanto em visita à nova capital, idealizada por ele, quanto à fábrica mineira, inaugurada em 1976 – ele seria morto naquele mesmo ano, poucos meses depois, em um forjado acidente automobilístico, conforme constatou a Comissão da Verdade em relatório publicado neste ano.
Antes de desembarcar em Minas Gerais, porém, a exposição faz uma parada em Turim. Em uma das salas do terceiro piso, o visitante se depara com uma reprodução tridimensional do Lingotto, a icônica fábrica da Fiat projetada no início do século XX, tendo ao fundo a tela ‘Derrapagem’, da artista Regina Silveira. “O Lingotto era uma expressão de ousadia entre as duas guerras mundiais”, conta Massimo Cavallo, presidente da Casa Fiat de Cultura, durante a visita guiada.
A fábrica, que funcionava em andares sobrepostos – com a prensa no térreo e a montagem ascendente –, tinha no telhado uma pista de teste onde todos os carros eram avaliados antes de descer por uma rampa em espiral. “É aqui a primeira transformação da Fiat de uma organização artesanal para uma indústria verdadeira”, resume Cavallo, ele próprio nascido em Turim.
Outra sala do percurso é ocupada por cones de trânsito com iluminação interna. Alguns deles funcionam como uma espécie de monóculo: ao espiar pelas aberturas, o visitante encontra fotografias históricas – entre elas, mais registros da visita de JK à fábrica de Betim – associadas à história da Fiat e da urbanização de Belo Horizonte e da própria capital federal.
Esse primeiro núcleo da exposição também explora a proximidade formal entre indústria e obra de arte. À expografia são incorporados chapas de alumínio e estruturas que remetem ao industrial, como espécies de tubulações que sustentam molduras. Nas obras, o interesse fabril se dá pela forma e pelo conteúdo.
Um exemplo é o painel “Fábrica”, de Djanira da Motta e Silva – pintado originalmente para decorar um navio da companhia Lloyd Brasileiro e montado, na tela, em partes que se encaixam como uma linha de produção. No mesmo espaço, está uma obra de Yara Tupynambá, com a representação dos trabalhadores da siderurgia. A tela, aliás, dialoga em sua forma com um painel de fotografias da fábrica de Betim, apresentada na mesma sala: as duas são trípticos – isto é, são trabalhos divididos em três paineis que se complementam.
Além de estarem presentes como tema, elementos da indústria também aparecem estruturalmente: no uso de tinta esmaltada metalizada para compor trabalhos; de chapas de metal como suporte para pinturas; de cores metalizadas em obras de tapeçaria, culturalmente mais associada ao ambiente doméstico do que ao industrial; e na escolha de algumas das molduras em que telas estão dispostas.
“A gente precisava espacializar um conceito de exposição que é muito abstrato e muito raro no Brasil, que é essa relação entre arte e indústria. Ao mesmo tempo, não queríamos que a indústria fosse só tematizada em ilustrações, mas que aparecesse também de outras maneiras”, detalha Quevedo ao comentar essas escolhas.
Nem todas as obras, porém, seguem essa lógica industrial-moderna. Há também um conjunto de trabalhos que funciona como contraponto, incluindo pinturas que retratam paisagens rurais, cidades do interior ou áreas periféricas, alheias ao ritmo fabril. É o caso das telas do mineiro Marcos Siqueira, que produz suas próprias tintas a partir de terra e folhas colhidas na Serra do Cipó, criando uma poética próxima à de Guignard – um dos nomes mais caros à paisagem mineira, cuja obra, vinda do Museu da Inconfidência, é exibida pela primeira vez ao público nessa mostra.
A mesma atenção ao fazer artesanal e à natureza aparece nas tapeçarias de Madeleine Colaço, artista marroquina radicada no Brasil, que inventa o chamado “Ponto Brasileiro” e tece cidades que se iluminam como constelações. O baiano Gilberto Filho, por sua vez, reconstrói centros urbanos sonhados com madeiras de casas coloniais demolidas, numa série que batizou de “Sonho de um Centro de uma Cidade Desenvolvida” – um gesto que, segundo o curador, revela como a indústria e a construção no Brasil entram na mente das pessoas como uma possibilidade de sonho e de progresso.
Ainda nesse universo de imaginários populares, destaca-se a maquete do artista Adauto, de Niterói, que recria a Marquês de Sapucaí com figuras modeladas à mão e uma Ferrari coberta de glitter – um desfile que nunca existiu, mas que sintetiza a fantasia de uma indústria apropriada pela cultura das ruas. O espanto diante desses universos diversos também aparece na pintura-objeto de Raymundo Colares, artista mineiro que se mudou para o Rio de Janeiro nas décadas de 1960 e 1970 e registrou o estranhamento diante da velocidade das metrópoles em telas com carrocerias de ônibus fragmentadas sob um suporte metálico – imagens que evocam o “bonde fora dos trilhos” cantado por Milton Nascimento em “Trastevere”, em que se descreve a cidade moderna, surda e muda, mas que falava e ouvia.
O protagonismo dos carros nesse projeto de urbanidade é também tematizado por Nelson Leirner, apresentado na mostra em telas que dialogam com Mondrian. Nelas, usando miniaturas de carrinhos, Leirner atualiza a grade ortogonal que o pintor holandês desenvolveu depois de se mudar para Nova York, em 1940, quando o traçado geométrico de Manhattan e o tráfego da cidade passaram a influenciar diretamente sua pintura.
SERVIÇO:
O quê. Exposição 'Celebrar as ruas: 50 anos de Fiat e brasilidade na Casa Fiat de Cultura'
Quando. Abertura nesta terça-feira (7/7), às 10h. Até 11/10. Visitação de terça a sexta, das 10h às 21h; sábado, domingo e feriado, das 10h às 18h
Onde. Casa Fiat de Cultura (praça da Liberdade, 10, Funcionários)
Quanto. Gratuito