TAMBORES QUE ECOAM

Guardas e irmandades preservam tradição do Congado em Betim

Irmandades atuavam no passado como redes de proteção, solidariedade e fé; legado cultural é preservado por cinco grupos

Por Lisley Alvarenga


Publicado em 02 de agosto de 2026 | 09:00
 
 
Guarda de Congo de Nossa Senhora do Rosário foi a primeira fundada em Betim e carrega uma história de mais de sete décadas

Muito antes de se consolidar como um dos principais polos industriais de Minas, Betim já ecoava em suas terras o som marcante dos tambores do Congado. Mantida pela dedicação de comunidades e famílias, essa tradição secular continua reunindo na cidade fé, música, dança e rituais por meio de cinco guardas organizadas por duas irmandades de Nossa Senhora do Rosário: a Irmandade da Capela do Rosário, localizada no bairro Angola e cujas origens remontam ao século XVIII, e a Irmandade da Colônia Santa Isabel, criada em 2011, na Colônia. Toda essa rica manifestação cultural é reconhecida como patrimônio imaterial nas esferas municipal, estadual e federal.

Historiador e superintendente de Patrimônio Cultural de Betim, André Bueno explica que as irmandades foram criadas por africanos escravizados e seus descendentes e, no passado, atuavam como associações de bairro do passado. “Elas acompanhavam as pessoas desde o nascimento até a morte e eram uma forma de os negros se manterem unidos em uma sociedade em que não tinham os mesmos direitos”, afirma.

A Irmandade do Rosário, no Angola, carrega o título de mais antiga. Sua trajetória está ligada à construção da Capela do Rosário e à atuação de lideranças históricas do Congado em Betim, entre elas Joaquim Nicolau, apontado como uma das figuras mais expressivas para a consolidação do movimento no município. Sob a proteção dessa irmandade, reúnem-se quatro guardas: Moçambique de Nossa Senhora do Rosário, Congo de Nossa Senhora do Rosário, Marujo de São João Bosco e Caboclo de Santo Expedito.

A Guarda de Moçambique de Nossa Senhora do Rosário tem suas raízes ligadas a Dalmo Martins de Assis, cuja família foi reconhecida Quilombola. O grupo nasceu há cerca de meio século, quando o pai de Dalmo fundou a guarda em cumprimento a uma promessa pela saúde de um familiar. Devoto fervoroso, ele levantava a bandeira em sua casa e unia outros grupos nos festejos, após pedir licença e receber a bênção do senhor Joaquim Nicolau. Com a morte do fundador em 2019, o comando passou para o filho e atual capitão, Dalmo da Conceição de Assis. Hoje, a guarda conta com 53 integrantes e realiza ensaios e ações no bairro Petrópolis, focados na inclusão de jovens. “Quando estamos orando e louvando, também estamos trazendo os jovens para perto da cultura, afastando-os de muitos caminhos ruins. É um legado que meu pai deixou”, frisa Dalmo.

Também marcada pelo elo familiar, a Guarda de Congo de Nossa Senhora do Rosário, primeira fundada em Betim, traz uma história de mais de sete décadas. Criada em 1950 por Raimundo Moreira, avô do atual capitão Ednilton Barbosa, a guarda atravessou gerações até a liderança atual. Ednilton foi coroado capitão com 13 anos, em um momento em que seu avô enfrentava problemas de saúde e os filhos não puderam assumir o grupo. Com sede no bairro Angola e 53 membros ativos, o grupo preserva suas particularidades. “Cada guarda tem sua forma de expressar a devoção. O Congo é uma guarda mais dançante, com um ritmo mais acelerado”, explica o capitã.

A preservação dessa manifestação cultural também ganha força na Guarda de Marujo de São João Bosco, fundada em 1991 por Sebastião Pereira, o Tião Medonho. Nascido no bairro João Bosco, o grupo tornou-se símbolo da comunidade local. O capitão regente Lucas Ricardo Pereira conta que Tião Medonho passou pelo Moçambique e pelo Congo antes de criar o grupo próprio. “Ele recebeu um convite para dançar com uma Guarda de Congo. Depois que ela acabou na época, decidiu fundar a Guarda de Marujo, que virou parte da história do bairro”, afirma. Com cerca de 30 integrantes, sendo a maioria da família Ricardo Pereira, o grupo mantém a tradição dos marinheiros nos cortejos em louvor a São Benedito, Nossa Senhora Aparecida e São João Bosco.

Outra caminhada movida pela fé é a da Guarda de Caboclo de Santo Expedito, criada em 2005 por Efigênia Ágata da Silva após alcançar uma graça de saúde. Antes de falecer, ela organizou uma liderança compartilhada, hoje exercida por Rodrigo Cosme, Robert Márcio, Cláudio Márcio, Larissa Ariel e Maria Geralda. O grupo reúne hoje 42 membros dos bairros Petrópolis, Sítio Poções, Angola e São João. “Buscamos ensinar na Guarda de Caboclo que precisamos um dos outros e que participar da guarda é um ato de amor e devoção”, salienta a atual presidente, Elenice Braz da Silva Barbosa.

Na Colônia Santa Isabel, a tradição do Congado ganhou um capítulo de recomeço com a criação da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário da Colônia Santa Isabel. A história da instituição está diretamente ligada às famílias de congadeiros que se estabeleceram na região devido ao isolamento compulsório provocado pela hanseníase. Por lá, a irmandade somente pôde ser fundada em 2011, após a celebração da primeira Missa Conga na comunidade e a organização da Guarda de Moçambique de Nossa Senhora do Rosário.

De acordo com o capitão da guarda, André Bueno, a Irmandade da Colônia Santa Isabel conta hoje com cerca de 80 integrantes, enquanto a guarda reúne aproximadamente 35 congadeiros. “O ponto-alto da celebração comunitária é o emocionante ritual de retirada da imagem de Nossa Senhora do Rosário das águas do Rio Paraopeba”, revela o capitão da guarda. 

Desafios, preconceito e luta para garantir o futuro desta rica tradição 

Apesar de sua resistência histórica ao longo dos séculos, os representantes das cinco Guardas de Betim explicam que elas enfrentam obstáculos para garantir a continuidade do rico patrimônio cultural na cidade. Entre os principais entraves apontados por eles estão a tarefa de renovação geracional, o preconceito religioso e racial ainda presente na sociedade e as barreiras financeiras para custear a manutenção de instrumentos, o fardamento dos integrantes e o transporte para encontros com irmandades vizinhas. 

História do Reinado de Nossa Senhora do Rosário e suas raízes em Minas Gerais

Muito mais do que uma manifestação religiosa, o Congado é uma das mais ricas expressões da cultura afro-brasileira e um dos principais patrimônios imateriais de Minas Gerais. Sua origem remonta aos séculos XVI e XVII, período em que a devoção católica a Nossa Senhora do Rosário, trazida pelos portugueses, encontrou as tradições religiosas, musicais e sociais dos povos africanos de matriz bantu, especialmente oriundos das regiões do Congo e de Angola. Dessa fusão nasceu uma celebração marcada pelo sincretismo, na qual fé, ancestralidade, música, dança e memória caminham juntas.

Em Minas, onde a tradição se fortaleceu a partir do século XVIII, o Congado encontrou espaço para se desenvolver. As primeiras celebrações são associadas à antiga Vila Rica, atual Ouro Preto, e à figura lendária de Chico Rei, personagem que simboliza a resistência e a busca pela liberdade durante o período da escravidão. Organizadas inicialmente pelas irmandades de Nossa Senhora do Rosário, as festas reuniam pessoas negras escravizadas e libertas em torno da devoção à santa, mas também funcionavam como espaços de preservação das heranças africanas e de fortalecimento dos laços comunitários.

Ao longo dos séculos, o Congado incorporou diferentes guardas e cortejos, como Congo, Moçambique, Catopé e Marujos, cada um com funções, ritmos, vestimentas e simbolismos. Mesmo enfrentando períodos de repressão, especialmente nas primeiras décadas do século XX, quando celebrações afro foram alvo de restrições por parte da Igreja Católica, a tradição resistiu graças à força das comunidades congadeiras. Hoje, o Congado está presente em centenas de municípios mineiros, incluindo Betim.