O SADA Cruzeiro conseguiu atingir um número de destaque: 62 títulos em apenas 20 anos. Nenhum clube do vôlei mundial construiu uma coleção tão extensa de troféus em tão pouco tempo como o clube. A taça mais recente é a da Superliga 2025/2026, a décima conquista da principal competição do país. São números que ajudam a explicar a dimensão do projeto, iniciado em 2006.
A paixão pelo vôlei, alma do projeto do SADA Cruzeiro, é ainda mais antiga. Começou na década de 1970, em Vicofertile, distrito de Parma, na Itália, quando os irmãos Alberto e Vittorio Medioli percorriam cerca de 8 km para assistir aos jogos do Santal Parma, um dos grandes clubes do voleibol da Itália. Eles se encantaram por um time que reunia craques italianos como Andrea Anastasi e Claudio Galli, o norte-americano Craig Buck e o cubano Joel Despaigne. Anos mais tarde, em 1989, o Parma alcançou o auge ao conquistar o inédito Mundial de Clubes da FIVB, a Federação Internacional de Vôlei, diante do temido CSKA Moscou, jogando em sua casa.
“Nós realmente andávamos muito para acompanhar as partidas em Parma. Naquela época, até jogávamos futebol, mas, como a equipe da cidade era muito fraca e não costumava passar da terceira divisão, não éramos muito atraídos pelo esporte. Em compensação, os times de vôlei eram bem poderosos e estavam sempre na primeira divisão. Isso acabava atraindo muita gente para acompanhar os campeonatos. E nós dois estávamos naquela turma”, recorda Alberto Medioli.
A lembrança das arquibancadas de Parma atravessou o tempo. Em 2006, já vivendo em Betim, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, Vittorio recebeu da prefeitura local o convite para apoiar a criação de uma equipe de vôlei. A proposta, inicialmente voltada ao esporte como ferramenta de inclusão, rapidamente ganhou novas dimensões. E, três anos depois, em um encontro casual com Zezé Perrella, à época presidente do Cruzeiro, surgiu a parceria que mudaria a história da equipe. Nascia o SADA Cruzeiro. Os planos eram ambiciosos, mas nem mesmo o fundador imaginava que o clube alcançaria um nível de sucesso tão expressivo como o dos dias atuais.
“Nunca deixamos de pensar no melhor possível para a equipe, mas naquele início era difícil imaginar que o time conquistaria tanto. Tudo isso nos orgulha muito. Tenho que parabenizar atletas, comissão técnica e todos os profissionais que fizeram parte dessa história. E também destacar o apoio da torcida, que sempre abraçou o time e o projeto”, afirmou Vittorio.
Apaixonado pelo vôlei, Vittorio sempre faz questão de acompanhar o dia a dia da equipe, observando jogadores e participando das competições. “Um dos olheiros da equipe é o próprio Vittorio. Nós assistimos a jogos e finais em várias partes do mundo. Ele ajuda a escolher atletas e participa de todas as decisões”, conta Flávio Pereira, diretor de Esportes do Grupo SADA desde a fundação do projeto.
Entre tantos jogadores que passaram pelo SADA Cruzeiro nas últimas duas décadas, nenhum permaneceu por tanto tempo quanto Rodriguinho. Contratado em agosto de 2014, o ponteiro está na 12ª temporada consecutiva no clube.
“O SADA Cruzeiro me ensinou a aprender com o outro. Aqui você entende que o grupo vem antes do individual. Aprendi a lapidar minhas qualidades, corrigir meus defeitos e entender que, se o coletivo não estiver junto, os resultados não aparecem”, ressalta Rodriguinho.
A trajetória do ponteiro, de 30 anos, é um reflexo de um trabalho que acompanha o clube desde a sua criação. Ainda nos primeiros anos do projeto em Betim, o SADA Vôlei passou a investir simultaneamente na formação de atletas e em projetos sociais para crianças e adolescentes. Atualmente, as escolinhas e núcleos esportivos ligados ao clube atendem cerca de 5.000 jovens. E as categorias de base abastecem tanto o elenco profissional quanto o voleibol brasileiro.
Foi em uma das buscas por talentos que o SADA Cruzeiro encontrou Filipe Ferraz, que chegou ao clube em 2010. O ponteiro de Joaíma, cidade do Vale do Jequitinhonha, passou por grandes clubes do voleibol brasileiro, como Minas, Santo André, Banespa, Canoas e Sesi antes de chegar ao clube estrelado. Conhecido pela regularidade no passe, entrega em quadra e liderança, tornou-se o capitão da era vencedora do time azul, comandado pelo técnico argentino Marcelo Mendez.
“Aqui eu reencontrei minhas raízes. O SADA Cruzeiro me deu a oportunidade de restabelecer o Filipe como jogador. Foi onde vivi as maiores conquistas da minha carreira”, afirmou Filipe.
Durante 11 temporadas como jogador, Filipe Ferraz acompanhou diferentes reformulações do elenco sem que o clube perdesse a identidade. Em 2021, o ponteiro recebeu de Vittorio Medioli o convite para assumir o comando técnico da equipe estrelada.
“Quando o Vittorio me chamou, senti aquele frio na barriga. Era uma oportunidade enorme, mas também uma responsabilidade muito grande. Ele queria que eu fosse uma extensão daquilo que ele acreditava para o clube. Trouxe comigo a dedicação, o comprometimento e o respeito que aprendi aqui durante todos aqueles anos como atleta sob o comando do Marcelo Méndez no Sada”, recorda o atual técnico do SADA Cruzeiro.
Poucos personagens atravessaram tantas fases do clube quanto ele. Dos 60 títulos conquistados pelo time desde 2010, quando teve início a parceria com o Cruzeiro, 39 vieram com Filipe Ferraz em quadra, como jogador, e outros 21 já à beira da quadra, como treinador. A mudança de função também mudou a maneira como passou a enxergar o clube.
"O meu olhar era muito focado no profissional, porque o carro chefe é dar resultado, a gente tem que vencer. Eu não tinha esse olhar para a base. Foi do segundo para o terceiro ano como treinador que eu entendi o quanto ela é importante. Hoje, esses meninos já encontram um caminho mais aberto. Antes era muito difícil chegar ao SADA Cruzeiro. Agora eles podem crescer aqui e sonhar em ser campeões vestindo essa camisa", reflete.