O Ministério das Relações Exteriores ainda avalia a decisão do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, de promulgar uma lei aprovada em março, reafirmando a soberania do seu país sobre Essequibo e denunciando a instalação de “bases militares secretas” dos Estados Unidos no território, que fica na Guiana.

A equipe de O TEMPO em Brasília conversou com diplomatas brasileiros. Eles disseram ser normal a cautela nesses casos, em que não se sabe se a medida é bravata ou se ela será colocada em prática. O certo, segundo eles, é que não há prova alguma da presença militar dos EUA no país vizinho. 

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Por outro lado, imagens de satélite de fevereiro mostraram expansão de base do Exército venezuelano na fronteira com o Essequibo. No mesmo mês, o Exército brasileiro enviou 28 blindados a Roraima para reforçar a segurança na fronteira com Venezuela e Guiana. 

Para chegar a Essequibo por terra é necessário atravessar território brasileiro. Mas, assim que Maduro anunciou que anexaria Essequibo, no fim do ano passado, o Brasil deixou claro que não permitirá a passagem de tropas venezuelanas. A comunidade internacional reconhece Essequibo como território da Guiana.

Essa posição do governo brasileira foi seguida por outras que marcaram uma mudança na relação de Luiz Inácio Lula da Silva com o regime venezuelano, que em 2023 chegou a receber Maduro em Brasília com honras de chefe de Estado. Na semana passada, o Itamaraty, em nota, e Lula, em entrevista coletiva, condenaram o impedimento do registro de candidaturas de opositores de Maduro para eleição presidencial. A Venezuela rebateu e disse que o Brasil estaria a servido dos EUA.

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Maduro tomou decisão com base em referendo

A lei sancionada por Maduro na última quarta-feira (4) tem 39 artigos e regulamenta a fundação do estado da Guiana Essequiba, o território de 160.000 km, que representa 74% do território da Guiana. 

Esse novo estado seria governado da cidade de Tumeremo, no vizinho estado venezuelano de Bolívar, a cerca de 100 quilômetros da área reivindicada, que é rica em petróleo e outros recursos naturais, o grande motivador do desejo venezuelano. 

A lei foi redigida após o referendo realizado em dezembro (com aprovação de 96,3% dos votos) sobre a anexação da região. Entre outras coisas, impede que apoiadores da posição do governo da Guiana ocupem cargos públicos ou concorram a cargos eletivos. 

A Venezuela argumenta que o rio Essequibo deve ser a fronteira natural bilateral, como era em 1777 durante a época do Império espanhol. Para a Guiana, a jurisdição, que data da época colonial inglesa, foi ratificada em 1899 por um tribunal de arbitragem de Paris. 

‘Violação flagrante’ do direito internacional

Na quinta-feira, o governo da Guiana reiterou seu protesto contra a lei venezuelana sobre a região do Essequibo, que representa 74% do território do país, por considerar que se trata de uma “violação flagrante” do direito internacional. 

“Essa tentativa da Venezuela de anexar mais de dois terços do território soberano da Guiana e torná-lo parte da Venezuela constitui uma violação flagrante dos princípios mais fundamentais do direito internacional”, denunciou o Ministério das Relações Exteriores da Guiana em comunicado.

Para a Guiana, a nova lei “contradiz a carta e o espírito da Declaração Conjunta de Argyle para o Diálogo e a Paz entre Guiana e Venezuela”, referindo-se à declaração assinada pelos presidentes dos dois países, Irfaan Ali e Maduro, respectivamente, após reunião bilateral em dezembro em São Vicente e Granadinas.

Após esse primeiro encontro, os líderes descartaram o uso da força para resolver a disputa, o que aplacou meses de tensão. Estava previsto um novo encontro entre os dois presidentes no Brasil. Mas as trocas de acusações se mantiveram e foram turbinadas pela promulgação da lei venezuelana.

Caracas rejeitou hoje o novo protesto da Guiana e ressaltou que a lei “é um ato soberano que compete apenas aos venezuelanos”, e que “seu objetivo é defender e preservar os direitos inquestionáveis da Venezuela sobre o território”, diz um texto da chancelaria.

A Venezuela também denuncia no comunicado “a manobra perigosa desenhada pela ExxonMobil apoiada pelo Comando Sul dos Estados Unidos e pela Agência Central de Inteligência (CIA) americana para se apropriar de recursos energéticos que se encontram no mar por delimitar”.

A Guiana avisou à Venezuela e aos órgãos internacionais (Celac, OEA, ONU) que não vai “tolerar a anexação, apropriação ou ocupação de nenhuma parte de seu território soberano”.