IA organiza ideias, acelera processos, lapida argumentos e amplia possibilidades, mas precisa do pensamento humano
Foto: Nano Banana/Reprodução
IA organiza ideias, acelera processos, lapida argumentos e amplia possibilidades, mas precisa do pensamento humano
Foto: Nano Banana/Reprodução
A IA não mata a criatividade. Ela expõe quem nunca teve uma voz própria.
Você já reparou como os textos estão ficando parecidos?
Os parabéns de aniversário soam iguais.
Os posts de fim de ano parecem escritos pela mesma pessoa.
As legendas emocionais seguem a mesma estrutura, as mesmas palavras, o mesmo ritmo.
E agora, além disso, surgiu um novo esporte corporativo: tentar descobrir se um texto foi escrito por inteligência artificial.
As pessoas analisam travessões, desconfiam de palavras “bem escolhidas demais”, estranham quando o raciocínio flui. Viraram quase peritas forenses da escrita. Em vez de se perguntarem se o texto provoca reflexão, gera incômodo ou ensina algo, a pergunta virou: “isso parece IA?”
Não é coincidência.
É inteligência artificial sendo usada sem intenção — e gente terceirizando o pensamento.
A IA facilitou bastante, e isso é positivo.
O problema começa quando tudo fica fácil demais, e as pessoas param de pensar antes de pedir. A tecnologia, então, faz exatamente o que foi criada para fazer: reconhece padrões e devolve o que já funcionou antes.
O resultado é um texto correto.
Mas esquecível.
A inteligência artificial não cria identidade.
Ela não tem história, não viveu contradições, não carrega dúvidas nem cicatrizes. Ela reorganiza repertório existente. Se você entra sem ponto de vista, sem voz e sem intenção, ela te devolve algo genérico. Funciona, mas não conecta.
Por isso, não é verdade que a IA esteja matando a criatividade.
Ela está apenas deixando evidente quem nunca construiu uma.
Quem já pensava bem antes, hoje pensa de forma mais rápida.
Quem tinha repertório, hoje amplia seu alcance.
Quem sabia contar histórias, hoje ganha escala.
Mas quem sempre dependeu de fórmula agora soa igual a todo mundo.
Em 2026, o risco não será ser substituído pela IA.
Será ser ignorado por parecer genérico.
Marcas não perdem espaço porque usam inteligência artificial.
Perdem porque abrem mão do próprio sotaque.
Porque terceirizam o pensamento.
Porque aceitam qualquer texto “bom o suficiente”.
Criatividade não é apenas escrever bonito.
É ter algo a dizer.
Essa obsessão em caçar o “rastro da máquina” diz mais sobre insegurança do que sobre autoria. Em algum momento, escrever mal pode virar certificado de autenticidade. “Tá truncado, confuso, meio torto… certeza que foi humano.”
Isso já aconteceu antes. Quando a fotografia surgiu, disseram que aquilo não era arte, porque não havia o toque do pintor. A arte não morreu. Ela se expandiu. Novas linguagens nasceram. Novos autores emergiram. O mesmo acontece agora.
A IA não escreve por nós.
Ela escreve com a gente.
Ela pode organizar ideias, acelerar processos, lapidar argumentos e ampliar possibilidades. Mas o pensamento ainda é humano. Está na pergunta que inicia o prompt, na escolha do que entra e do que fica de fora, na forma de conectar ideias e assumir um ponto de vista.
Quando todo mundo usa o mesmo prompt, ninguém se destaca.
Quando todo mundo aceita o primeiro texto gerado, ninguém cria vínculo.
O futuro não vai separar quem usa IA de quem não usa.
Vai separar quem pensa antes de pedir de quem apenas copia e cola.
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Antes de publicar qualquer texto, legenda ou mensagem nesta semana, responda com honestidade:
"Isso tem a minha voz ou poderia ser de qualquer pessoa?"
Se puder ser de qualquer um, pare.
Ainda não está pronto.
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Antes de pedir qualquer texto à IA, escreva duas frases suas, do seu jeito, com seu vocabulário.
Depois peça:
“Reescreva mantendo exatamente meu tom, minha ironia e meu jeito de falar.”
A IA amplifica identidade.
Ela não cria uma.
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Por Cristiane Kiki, Gisele Ramos e Carolina Trevisan