POLÍTICA E TECNOLOGIA

Até onde a inteligência artificial pode ir na política?

Uso de inteligência artificial na propaganda eleitoral terá regras mais rígidas, especialmente para conteúdos sintéticos, deepfakes e período próximo à votação

Por Inovação e marketing


Publicado em 10 de setembro de 2026 | 20:44
 
 
Talvez, nas eleições de 2026, alguns segundos de verificação sejam mais importantes do que alguns segundos de compartilhamento

A inteligência artificial chegou à política.

E chegou com força.

Ela escreve textos.

Cria imagens.

Edita vídeos.

Reproduz vozes.

Ajuda a criar estratégias, organizar informações e produzir em minutos aquilo que antes poderia levar horas.

Mas, em uma eleição, existe uma pergunta que precisa vir antes de todas essas possibilidades:

Até onde a inteligência artificial pode ir?

Porque uma coisa é usar IA para trabalhar.

Outra é usar IA para fazer alguém acreditar em algo que nunca aconteceu.

E a Justiça Eleitoral já está olhando para essa diferença.

Para as Eleições de 2026, o Tribunal Superior Eleitoral estabeleceu regras específicas para o uso da inteligência artificial na propaganda eleitoral.

E talvez a palavra mais importante dessas regras seja:

Transparência.

Se uma propaganda utiliza conteúdo sintético criado ou significativamente alterado por inteligência artificial, isso precisa ser informado de maneira explícita, destacada e acessível.

Não basta produzir.

É preciso dizer que produziu com IA.

E essa identificação muda de acordo com o conteúdo.

Em uma imagem, por exemplo, a regra prevê rótulo ou marca d’água e informação na audiodescrição.

Em um áudio, a informação precisa aparecer no início.

Em vídeos, também existem regras de identificação.

E, nos materiais impressos, a informação deve aparecer em cada página ou face em que aquele conteúdo produzido por inteligência artificial tenha sido utilizado.

Mas existe uma diferença importante.

Nem tudo que passa por uma ferramenta de inteligência artificial precisa necessariamente receber essa identificação.

A legislação prevê exceções para determinados ajustes de qualidade de imagem ou som, além de elementos de identidade visual, como vinhetas e logomarcas, entre outras situações previstas pela norma.

Ou seja, a questão não é simplesmente:

“Usou IA?”

A pergunta começa a ficar mais interessante quando pensamos:

“O que a IA fez com aquele conteúdo?”

Imagine abrir o celular e assistir a um vídeo de um candidato dizendo uma frase absurda.

A voz é dele.

O rosto é dele.

Os movimentos parecem dele.

Só existe um problema.

Ele nunca disse aquilo.

Hoje, criar algo assim é tecnicamente possível.

Eleitoralmente, porém, existe um limite muito claro.

As chamadas deepfakes são proibidas quando utilizadas para prejudicar ou favorecer uma candidatura.

E tem um detalhe que muita gente talvez não saiba.

A proibição pode valer mesmo que a própria pessoa tenha autorizado o uso de sua imagem ou voz.

Porque, em uma eleição, não estamos falando apenas sobre tecnologia.

Estamos falando sobre a capacidade de influenciar uma decisão.

E essa preocupação ficou ainda maior em 2026.

Nas 72 horas que antecedem a eleição e até 24 horas depois do término da votação, existem restrições ainda mais fortes para novos conteúdos sintéticos produzidos ou alterados por IA que utilizem imagem, voz ou manifestação de candidatos ou pessoas públicas.

Mesmo quando estão identificados.

Isso mostra o tamanho da mudança que estamos vivendo.

Durante muito tempo, quando víamos um vídeo, nossa primeira pergunta era:

“O que essa pessoa quis dizer?”

Agora talvez tenhamos que fazer outra antes:

“Essa pessoa realmente disse isso?”

Essa é uma mudança enorme.

Porque a inteligência artificial não está apenas aumentando a velocidade da comunicação política.

Ela está mudando a nossa relação com aquilo que consideramos verdadeiro.

E é justamente por isso que não acredito que a discussão deva ser sobre proibir a tecnologia.

A IA pode ser uma ferramenta extraordinária dentro de uma campanha.

Pode ajudar pequenas equipes.

Pode melhorar processos.

Pode organizar informações.

Pode ampliar a capacidade de comunicação.

Pode tornar trabalhos mais rápidos e eficientes.

O problema não começa quando usamos inteligência artificial.

Começa quando usamos inteligência artificial para enganar pessoas.

E talvez essa seja uma das grandes discussões das eleições de 2026.

Não será apenas sobre quem consegue produzir mais conteúdo.

Será também sobre em qual conteúdo podemos confiar.

Porque estamos entrando em uma eleição em que nossos olhos e nossos ouvidos talvez já não sejam suficientes para provar que alguma coisa realmente aconteceu.

A inteligência artificial pode criar.

Pode editar.

Pode acelerar.

Pode até reproduzir uma voz.

Mas existe uma coisa que nenhuma tecnologia deveria substituir.

A responsabilidade de quem publica.

Desafio da Semana

Pegue um vídeo político que chegou até você pelo WhatsApp ou pelas redes sociais.

Antes de compartilhar, faça três perguntas:

Existe uma fonte confiável para esse conteúdo?

Há alguma indicação de que imagem, áudio ou vídeo foram produzidos ou alterados por inteligência artificial?

Consigo confirmar que aquela pessoa realmente disse ou fez aquilo?

Se você não conseguir responder, espere antes de compartilhar.

Talvez, nas eleições de 2026, alguns segundos de verificação sejam mais importantes do que alguns segundos de compartilhamento.

Dica da Semana

Se você trabalha com política, marketing ou comunicação eleitoral e já utiliza inteligência artificial, crie uma regra simples dentro da sua equipe:

Antes de publicar, pergunte:

“Isso foi criado ou significativamente alterado por IA?”

“Precisa ser identificado?”

“Existe alguma possibilidade de esse conteúdo fazer o eleitor acreditar que algo aconteceu quando, na verdade, não aconteceu?”

IA pode ser ferramenta.

Não pode ser desculpa para falta de responsabilidade.

Porque a tecnologia está ficando cada vez melhor em criar realidade.

Nós precisaremos ficar cada vez melhores em proteger a verdade.