Tecnologia já faz parte das telas e pode transformar a forma como mensagens políticas chegam aos eleitores
Foto: Chatgpt
Tecnologia já faz parte das telas e pode transformar a forma como mensagens políticas chegam aos eleitores
Foto: Chatgpt
A inteligência artificial já consegue escrever textos.
Criar imagens.
Produzir vídeos.
Reproduzir vozes.
Analisar grandes volumes de informação.
E tudo isso pode transformar a comunicação política.
Mas existe uma capacidade ainda mais interessante quando pensamos em eleições:
A IA pode ajudar a entender o que chama a atenção de diferentes pessoas.
E isso nos leva a uma pergunta difícil:
Até onde podemos usar tecnologia para persuadir alguém?
Imagine uma campanha em que você recebe um vídeo de um candidato falando sobre segurança.
Seu vizinho recebe outro, falando sobre emprego.
Sua irmã recebe um terceiro, falando sobre saúde.
Todos os vídeos são verdadeiros.
Todos foram produzidos pela mesma campanha.
Mas cada pessoa recebeu uma mensagem diferente.
A comunicação política já utiliza segmentação de público.
A diferença é que a inteligência artificial pode tornar esse processo muito mais rápido e sofisticado, sempre respeitando os limites legais para o uso de dados.
Ela pode analisar informações disponíveis, identificar padrões, testar diferentes versões de uma mensagem e ajudar uma equipe a entender quais conteúdos geram mais atenção ou engajamento em determinados públicos.
E aqui começa uma questão mais delicada.
Quando uma tecnologia consegue ajudar a identificar qual mensagem tem maior chance de convencer determinado grupo, onde termina a comunicação e começa a manipulação?
Porque o problema não precisa ser uma mentira.
A mensagem pode ser verdadeira.
A imagem pode ser verdadeira.
O candidato pode realmente ter dito aquilo.
O que muda é a capacidade de descobrir qual argumento funciona melhor para cada pessoa.
E isso pode transformar a comunicação eleitoral.
Durante uma campanha tradicional, uma equipe cria uma mensagem e tenta levá-la ao maior número possível de pessoas.
Com ferramentas de inteligência artificial, podemos imaginar um processo muito mais dinâmico.
Uma campanha pode criar diferentes versões de uma mensagem.
Observar as reações.
Identificar quais funcionam melhor.
Produzir novas versões.
E testar novamente.
A comunicação política começa a se aproximar de um laboratório permanente de persuasão.
Mas existe outra possibilidade.
E se sistemas automatizados conseguirem produzir, em grande escala, comentários, publicações e interações artificiais nas redes sociais?
Nenhuma dessas manifestações, isoladamente, precisaria parecer extraordinária.
Mas, juntas, elas poderiam criar a sensação de que determinada opinião é muito mais popular do que realmente é.
“Todo mundo está falando sobre isso.”
“Essa é a opinião da maioria.”
“Essa candidatura está crescendo.”
“Essa indignação está tomando conta das redes.”
O problema é que nós não somos influenciados apenas pelos argumentos que recebemos.
Também somos influenciados pela percepção do que outras pessoas estão pensando.
Por isso, uma realidade artificialmente amplificada pode ser tão poderosa quanto uma informação falsa.
E a discussão não termina nas campanhas.
A própria inteligência artificial também pode influenciar a forma como as pessoas encontram e interpretam informações políticas.
Por isso, as regras eleitorais de 2026 também estabeleceram limites para os próprios sistemas de IA.
Os provedores não podem utilizar esses sistemas para ranquear, recomendar ou priorizar candidatos, partidos ou campanhas, nem para indicar preferência eleitoral ou recomendar voto.
É uma preocupação importante.
Porque existe uma diferença entre usar inteligência artificial para produzir uma comunicação e permitir que um sistema determine qual candidato ou qual mensagem uma pessoa deveria receber como prioridade.
E existe uma questão ainda maior:
Quem controla os dados?
Quem define quais informações serão analisadas?
Quem escolhe o objetivo do sistema?
Quem decide o que deve ser otimizado?
Um sistema criado para aumentar engajamento pode acabar privilegiando conteúdos mais emocionais.
Um sistema criado para aumentar conversão pode privilegiar mensagens mais persuasivas.
Um sistema criado para mobilizar eleitores pode identificar quais temas geram maior reação.
A tecnologia pode executar muito bem o objetivo que recebeu.
Mas quem decidiu qual objetivo deveria ser perseguido?
Essa pergunta importa porque inteligência artificial não elimina escolhas humanas.
Ela pode apenas tornar essas escolhas menos visíveis.
E talvez seja justamente aí que a discussão sobre IA e política fique mais complexa.
Não estamos falando apenas de máquinas produzindo propaganda.
Estamos falando de máquinas ajudando seres humanos a entender como influenciar outros seres humanos.
Durante muito tempo, a comunicação política buscou uma mensagem capaz de convencer muitas pessoas.
A inteligência artificial abre a possibilidade de fazer o caminho inverso:
Encontrar, para cada grupo, a mensagem com maior chance de funcionar.
E isso muda as perguntas que precisamos fazer.
Não basta perguntar:
“Essa informação é verdadeira?”
Precisamos perguntar também:
“Por que eu estou recebendo exatamente essa informação?”
“Outras pessoas estão recebendo uma mensagem diferente?”
“Quem decidiu que essa era a mensagem que eu deveria ver?”
“Essa comunicação está tentando me informar ou está tentando descobrir como me influenciar?”
Essas perguntas não significam que devemos rejeitar a inteligência artificial na política.
Ela pode reduzir custos, ajudar pequenas equipes, organizar informações, melhorar processos de comunicação e ampliar a capacidade de analisar demandas da população.
A tecnologia não é, por si só, democrática ou antidemocrática.
Tudo depende de como ela é utilizada, por quem e com quais limites.
E talvez esse seja um dos grandes desafios das eleições que teremos pela frente.
Não será apenas impedir que a inteligência artificial invente aquilo que nunca aconteceu.
Será também discutir até onde podemos permitir que ela ajude a descobrir exatamente o que cada pessoa precisa ouvir para mudar de opinião.
Porque uma democracia depende de informação.
Mas depende também de autonomia.
E quanto maior for a capacidade tecnológica de influenciar escolhas individuais, maior precisa ser a nossa capacidade de questionar como essa influência está acontecendo.
Desafio da Semana
Na próxima vez que você receber uma mensagem política nas redes sociais, não pergunte apenas se ela é verdadeira.
Pergunte também:
“Por que esse conteúdo apareceu para mim?”
“Outras pessoas podem estar recebendo uma mensagem diferente?”
“Que emoção essa comunicação está tentando provocar?”
“Estou recebendo informação ou estou sendo conduzido a uma conclusão?”
Esses poucos segundos de reflexão podem mudar a maneira como consumimos informação política.
Dica da Semana
Se você trabalha com política, marketing ou comunicação eleitoral e utiliza inteligência artificial, estabeleça uma regra simples dentro da sua equipe.
Antes de publicar, pergunte:
“Estamos usando IA apenas para produzir melhor ou também para descobrir como persuadir melhor?”
“Quais dados estamos utilizando?”
“Estamos respeitando as regras para tratamento desses dados?”
“Existe algum público recebendo uma mensagem que os demais não conseguem enxergar?”
“Estamos otimizando informação, participação ou apenas engajamento?”
A inteligência artificial pode ajudar a construir campanhas mais eficientes.
Mas eficiência não é sinônimo de responsabilidade.
Quanto maior for a capacidade de influenciar, maior precisa ser o cuidado de quem decide como essa capacidade será usada.
Porque o futuro da política com inteligência artificial não será definido apenas pela tecnologia que conseguirmos criar.
Será definido também pelos limites que decidirmos estabelecer para aquilo que ela poderá fazer.