LAURA MEDIOLI

Uma religião chamada Amor

Nunca me esqueci da noite que passei em Uberaba, quando, com 18 anos, me vi equilibrando no alto de uma janela

Por Laura Medioli

Publicado em 29 de agosto de 2026 | 15:40

 
 
Ilustração-Laura-Medioli Ilustração-Laura-Medioli Foto: Fernando Fiuza
Laura Medioli
Colunista de Opinião
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Passaram-se mais de 20 anos da morte de Chico Xavier. Nunca me esqueci da noite que passei em Uberaba, quando, com 18 anos, me vi equilibrando no alto de uma janela. Eu e uma multidão que foi àquela cidade para vê-lo psicografando, em estado mediúnico.

O guarda me tirava, e eu voltava correndo até, finalmente, conseguir adentrar na sala apinhada. A emoção era tanta que nem sequer piscava os olhos, sabia que estava diante de uma pessoa ímpar.

Lembro-me da casa simples, da mesa de madeira em que ele, com a cabeça abaixada e os olhos cerrados, psicografava mensagens daqueles que já se foram, dirigidas a parentes e entes queridos ali presentes. Imagino quanto conforto essas mensagens pessoais e detalhadas levavam àquela gente.

Nesse dia, adquiri vários dos seus livros, entre os mais de 400 que já psicografou e cujos direitos autorais eram e continuam sendo doados a obras assistenciais.

Na manhã seguinte, acordei cedo para acompanhá-lo a uma peregrinação por bairros pobres da cidade. Humilde, caladinho, com uns óculos enormes e pesados, repartia mantimentos e sorrisos tímidos. Voltei para casa com a certeza de ter visto uma pessoa verdadeiramente do bem, nascida para distribuir amor. Um “anjo” que ainda hoje, por meio de suas mensagens, acompanha e dá conforto a tantos.

Ao ler sua biografia, descobri que seu primeiro contato com a doutrina espírita foi em 1927. Quando criança, costumava ouvir vozes ou sentir mãos sobre as suas, guiando suas escritas. Menino, não compreendia como sua mãe, já falecida, continuava a lhe aparecer, principalmente nos momentos de aflição.

Chico Xavier, com certeza o maior médium que já tivemos, certa ocasião, disse: “Nunca quis mudar a religião de ninguém, porque não acredito que a religião ‘a’ seja melhor que a religião ‘b’. Nas origens de toda religião cristã está o pensamento de Nosso Senhor Jesus Cristo. Se Allan Kardec tivesse escrito que ‘fora do espiritismo não há salvação’, eu teria ido por outro caminho. Graças a Deus ele escreveu ‘fora da Caridade’, ou seja, fora do Amor não há salvação...”

Admiro e me identifico com a doutrina kardecista. Ouvir sobre o Evangelho ou tomar um passe são coisas que me trazem conforto, assim como comungar numa igreja católica ou participar de um encontro na Sociedade Teosófica (que não diz respeito a uma religião específica, mas à Verdade de todas).

Estar num templo hinduísta na Índia, ao som de um mantra, é fascinante. O budismo, para muitos, é quase uma filosofia de vida. Nunca entrei numa sinagoga, mas sei da profundidade da cabala. Na minha última viagem à Turquia, orei sob os imensos pilares da Mesquita Azul, com os pés descalços e a cabeça coberta por um véu. Admiro os evangélicos pela sua fé e pelo papel social que exercem nos aglomerados das cidades. Deus é igual para todos, não importa a que religiões pertençam.

Para finalizar, transcrevo uma das inúmeras manifestações escritas que Chico nos delegou: “Vida É o amor existencial. Razão É o amor que pondera. Estudo É o amor que analisa. Ciência É o amor que investiga. Filosofia É o amor que pensa. Religião É o amor que busca a Deus. Verdade É o amor que eterniza. Ideal É o amor que se eleva. Fé É o amor que transcende. Esperança É o amor que sonha. Caridade É o amor que auxilia. Fraternidade É o amor que se expande. Sacrifício É o amor que se esforça. Renúncia É o amor que depura. Simpatia É o amor que sorri. Trabalho É o amor que constrói. Indiferença É o amor que se esconde. Desespero É o amor que se desgoverna. Paixão É o amor que se desequilibra. Ciúme É o amor que se desvaira. Orgulho É o amor que enlouquece. Sensualismo É o amor que se envenena. Finalmente, o ódio, que julgas ser a antítese do amor, não é senão o próprio amor que adoeceu gravemente”.

Lindo, não?