Não é que deu rock!?

Quando a pós-balzaca loura, charmosa e poderosa percebeu que o garotão estava se engraçando com ela, resolveu dar uma de desentendida. Leia mais

Por Laura Medioli

Publicado em 28 de outubro de 2023 | 03:00

 
 
Laura-Medioli-Ilustracao Laura-Medioli-Ilustracao Foto: Hélvio
Laura Medioli
Colunista de Opinião
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Quando a pós-balzaca loura, charmosa e poderosa percebeu que o garotão, bronzeado e tatuado como manda o figurino, estava se engraçando com ela, resolveu dar uma de desentendida, ou seja, captava a mensagem, mas fingia-se de boba.

Enquanto ele, persistente, madrugava na academia, treinando poses em frente ao espelhão, carregando pesos, mostrando músculos, aquela coisa de quem não tem mais o que mostrar a não ser bíceps, tórax e sabe-se lá mais o quê.

Também ela madrugava, afinal, tinha que pegar cedo no batente. Era sócia numa agência de modelos e, relembrando os velhos tempos, apesar da idade, de vez em quando virava a própria, arrasando nas propagandas de loura fatal ou da poderosa do cartão de crédito.

Um dia, na gravação de um comercial de fraldas, substituindo de última hora uma de suas profissionais, teve que dar uma de “mamãe feliz”, acalentando um bebê rosinha e rechonchudo ao lado de um “maridão” sorridente e embasbacado. Chegou com aqueles seios exuberantes, absolutamente nada maternais, um batom avermelhado, com beicinho de quem vai comer a cereja do Martini e, para completar, o cabelão esvoaçante, com cara de propaganda de carro importado. Definitivamente errou na dose. Podia ser tudo, menos mãe de recém-nascido. E, como se não bastasse, o bebê, ao ver aquela “mãe” esplendorosa, entrou em pânico, deixando a equipe de produção e a progenitora de verdade em total desespero.

A propaganda nunca foi ao ar, e ela, estressada, desistiu de ser “mãe”, aproveitou o embalo e jurou nunca mais trabalhar como modelo, afinal, foram anos passados em frente a uma câmara fazendo bocas e olhares, sujeita a dietas mirabolantes, cabelos impecáveis, mau-olhado e concorrências desleais.

Também aproveitou para tirar férias. Deixou a agência nas mãos do sócio e se mandou para um lugar ermo e desconhecido, propositalmente sem badalações, já que por força da profissão tinha mania de sair por aí analisando rostinhos bonitos e corpos esguios.

Foi pro mato, acompanhada de um grupo natureba, bem mais preocupado com a salvação da alma que com a manutenção do corpo. Faziam retiros espirituais abraçando-se a árvores, alimentando-se frugalmente, tomando banhos de cachoeira. Pés descalços, cabelos sem secador, rosto sem maquiagem (só não conseguiu se desfazer dos creminhos); enfim, giro de 180 graus.

Voltando, decidiu mudar radicalmente sua maneira de ser e viver. Contratou um especialista em feng shui e mandou para o espaço o antigo mobiliário, optando por paredes claras, sofás brancos, iluminação indireta. Tudo light!  Assim como seu novo estilo. Também a maneira de se vestir: “Discreta, simples e sem artifícios”.

Até que um dia, cansada de ser espiritual (Ah! Como a carne era fraca!), resolveu voltar à agitação de sempre.

E no espelhão da academia, se viu mais uma vez ao lado do garotão tatuado, cheio de bíceps, tórax, essas coisas.

– Isso ainda vai dar rock – pensou, enquanto se trocava no vestiário.

E deu. Em pouco tempo lá estava ela com o jovem a tiracolo, logo ela, que havia jurado nunca mais dar uma de “mãe” na sua vida. Tudo bem; continuava não tendo cara de mãe, mas que o garoto tinha cara de filho, ah! Isso tinha!