Os gringos da minha casa e da minha vida

Laura Medioli fala sobre os estrangeiros que fazem parte de sua vida. Leia mais

Por Laura Medioli

Publicado em 02 de setembro de 2023 | 03:00

 
 
Foto-Laura-Medioli Foto-Laura-Medioli Foto: Intervenção de Acir Galvão sobre foto de arquivo pessoal
Laura Medioli
Colunista de Opinião
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Não dá para saber o número de estrangeiros que já passaram por minha casa. Alemães, italianos, franceses, iranianos, israelenses, australianos, dinamarqueses...

Paulo, meu irmão, era especialista em encontrar gringos perdidos na cidade e levá-los para lá de mala e cuia. Uma das primeiras estrangeiras a chegar foi a doce americana Janete. Colega de escola do Paulo e fazendo intercâmbio no Brasil, chegou para ficar. Como não fazíamos parte do Rotary, meu pai teve que assinar alguns documentos e, por fim, Janete ganhou um novo lar, enquanto eu, provisoriamente, uma irmã. Achei ótimo, pois assim tinha com quem dividir o quarto e jogar conversa fora.

Depois dela, veio uma alemã morena e desinibida, nem tinha cara de gringa. Também passaram por lá dois alemães loiríssimos de olhos azuis. Chegaram com a tralha toda e permaneceram em nossa companhia durante alguns dias. Eram meio espaçosos e, se me recordo bem, não muito afeiçoados ao banho. Arrumaram algumas namoradas e partiram. Deles, nunca mais tivemos notícias.

Mas sucesso mesmo foi o francês descoberto por meu irmão, perdido na Savassi. Mistura de francês com italiano, era bonito até no nome: Henri Carlo. Veio para ficar um dia e acabou ficando três meses. Mesmo assim, só foi embora porque seu pai, na França, teve um derrame. Falava cinco línguas. Com as pessoas um “portunhol” meio enrolado, com o Paulo, inglês, e comigo, italiano (e eu, claro, achava o máximo!).

Naquela época, minha maior amiga morava no Rio e, como o francês não conhecia a cidade, meu irmão resolveu despachá-lo para lá. Ligou para ela: “Estou mandando um amigo pra sua casa. Deve ficar uns dois, três dias”. Ela, naturalmente, reclamou: “Tá louco? Nem conheço o sujeito!”

No dia seguinte, Henri partiu para o Rio. Dois dias depois ela ligou de volta. Agradecendo.

Depois do Rio, o francês foi para Salvador. Atacado por fogosas morenas, voltou correndo. Apavorado.

Fez tanto sucesso que uma amiga de minha mãe, indo nos visitar, deu de cara com ele na porta. Olhando “aquilo tudo”, correu para perguntar: “Glorinha, onde vocês arrumaram isso?” No dia seguinte, uma tia ligou de São Paulo querendo saber quem era o francês “do outro mundo”. Descobrimos que a amiga, no mesmo dia, telefonou à outra contando a novidade.

Depois de voltar para Paris, Henri escreveu várias cartas. Acabou se mudando para os Estados Unidos, onde se casou com uma bailarina russa fugida do balé Bolshoi.

Certa vez, vieram uns americanos. Cismaram que eu tinha cara de índia canadense. Naquela época, meus cabelos eram longos, e gostava de usar tranças. Tentei explicar que em minhas veias realmente corre sangue de índio – mas índio brasileiro. Também um iraniano, ao ver-me pela primeira vez, comparou-me às mulheres das montanhas do Cáucaso. Não faço a mínima ideia de como são. Devo ser um tipo meio comum, já que em cada lugar que vou tenho cara de alguma coisa: na Itália normalmente “viro” espanhola e, acreditem, até em oriental já me transformaram.

Por volta de 1980, meu irmão Virgílio estudava na Faculdade de Filosofia. Muito bem relacionado com os professores, era constantemente chamado a participar de eventos promovidos pela escola. O Congresso de Cultura Afro-Brasileira foi um desses eventos. Como a faculdade não dispunha de verba para hospedar os palestrantes, meu irmão ofereceu nossa casa, e minha mãe, como sempre, aceitou a tarefa sem objeção.

No dia seguinte, de mala e cuia chegaram duas mães de santo da Bahia, uma professora de iorubá (língua africana) não sei de onde, a embaixatriz do Senegal, um professor da USP, um escritor angolano, um professor de Brasília e um intelectual do Rio Grande do Sul, professor Décio Freitas, sumidade no Brasil sobre questões escravocratas.

O angolano era uma figura. Passava o dia se perguntando em voz alta: “Onde estou? Para onde vou?” O professor de Brasília, um homem finíssimo, questionado se havia dormido bem, respondeu: “Sim, muito bem. Dormi em boa companhia!” Descobrimos, constrangidos, que tinha dividido a cama com Marilu, nossa cachorrinha poodle.

Outro, professor da USP, perguntou à minha mãe como poderia localizar um professor da Universidade Federal, cientista renomado, cujo nome era Ângelo Machado. Achando graça, mamãe respondeu: “Ele é meu irmão e mora aqui ao lado”. Passou o resto do dia na companhia de meu tio.

Um problema foi a embaixatriz do Senegal. A mulher, com suas roupas exóticas e coloridas, não ia embora nunca. Quando resolveu partir, mamãe acompanhou-a ao aeroporto para, finalmente, livre da última hóspede, desmaiar de cansaço.

Há 47 anos, chegou em nossa casa um italiano de caráter forte e belos olhos azuis. Com inteligência e cultura muito acima dos parâmetros normais para um rapaz de 25 anos, muito nos impressionou. Foi-nos apresentado por uma prima, que, apiedando-se do jovem empresário, longe da família, não teve dúvida; levou-o à nossa casa – o porto seguro de gringos perdidos.

E, desde então, nunca mais deixou de frequentá-la. Até que um dia, na tarde de 6 de setembro, ele levou-me consigo – para juntos construirmos nossa própria casa. Há exatamente 37 anos.