O FIM DA CAIXA

O mito do estilo fixo

Rótulos podem facilitar a compreensão da moda, mas também podem aprisionar. O estilo pessoal se transforma à medida que a vida muda.

Por Ana Rodrigues


Publicado em 10 de agosto de 2026 | 17:23
 
 
Clássica, criativa, romântica, natural: categorias podem ajudar a compreender preferências, mas não precisam limitar a maneira como cada pessoa se expressa

Na última coluna, falamos sobre as mentiras da moda. Hoje, vamos desmistificar o conceito de "estilo". Existe uma ideia que atravessa quase todas as consultorias de imagem, testes de estilo e conteúdos nas redes sociais: a de que cada pessoa possui um único estilo, quase como uma identidade permanente esperando para ser descoberta. 

Mas essa premissa merece ser questionada. 

Ao longo da vida, mudamos de profissão, de cidade, de relacionamentos, de referências culturais e de prioridades. A neurociência mostra que nosso cérebro continua se reorganizando ao longo da vida, incorporando novas experiências e modificando preferências. A psicologia entende a identidade como um processo contínuo de construção, não como algo fixo. 

Então, por que esperar que a forma de nos vestir permaneça exatamente a mesma? 

Essa busca incessante por um “estilo definitivo” talvez seja um reflexo da necessidade humana de organizar o mundo em categorias. Gostamos de rótulos porque eles simplificam a realidade. Na moda, eles aparecem como “clássica”, “romântica”, “criativa”, “natural”, “dramática”. 

Essas categorias podem ser ferramentas úteis para compreender preferências. O problema começa quando deixam de ser ferramentas e passam a  funcionar como limites. 

Nenhuma pessoa é apenas uma coisa. 

Somos mais formais em alguns ambientes, mais experimentais em outros. Há dias em que buscamos discrição; em outros, queremos ocupar espaço. A roupa acompanha esses movimentos. 

Curiosamente, isso sempre aconteceu na história da moda. Pense em figuras como Coco Chanel, David Bowie ou Iris Apfel. Nenhum deles construiu uma imagem memorável por permanecer preso a uma única estética. O que permaneceu constante foi a coerência entre quem eram e a forma como escolhiam se expressar. 

Talvez seja justamente essa a diferença entre identidade e estilo. 

A identidade evolui. O estilo evolui junto. 

Por isso, talvez a pergunta não seja: “Qual é o meu estilo?”. Talvez seja: “Quem eu sou hoje  e como quero comunicar isso ao mundo?”. 

Porque estilo não é uma caixa onde você entra para nunca mais sair. É uma linguagem. E, como qualquer linguagem, quanto maior o repertório, melhor conseguimos contar nossa própria história. 

Talvez a pergunta mais importante seja: "como posso me vestir para comunicar quem eu sou hoje?".