No colo de mãe, o que parecia impossível de suportar encontra espaço para ser dividido
Foto: Imagem gerada a partir de IA
No colo de mãe, o que parecia impossível de suportar encontra espaço para ser dividido
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Se existe um remédio que a vida me ensinou a reconhecer, ele se chama colo de mãe.
Um remédio sem bula, sem hora marcada e sem dose certa. Às vezes, bastam alguns minutos. Em outros dias, a vontade é ficar ali até o mundo lá fora deixar de pesar tanto.
E esse remédio não muda com a idade. Filho cresce, ganha responsabilidades, constrói a própria família… mas continua precisando de colo. Mesmo quando já não cabe inteiro e só consegue repousar a cabeça no ombro da mãe.
Colo de mãe acolhe o joelho ralado, a frustração com o vestibular, a dor de uma demissão, o fim de um relacionamento e aquele cansaço que não passa depois de uma noite de sono.
Nele, a dor ganha outra dimensão. O que parecia impossível de suportar encontra espaço para ser dividido. Nem sempre há uma solução, mas há uma presença. E, muitas vezes, é dessa presença que mais precisamos.
Há abraços em que podemos chorar sem explicar o motivo. Há mãos que acariciam nossos cabelos enquanto procuramos palavras. Há silêncios que dizem com uma clareza imensa: “Estou aqui, minha filha”.
Mas existem momentos em que uma mãe também precisa de colo.
Sou médica, mãe de dois filhos e, graças a Deus, ainda tenho a minha mãe. Conheço a responsabilidade de cuidar e a alegria de ser procurada pelos meus filhos quando alguma coisa dói. Também conheço os dias em que sou eu quem precisa ser acolhida.
Porque a maternidade traz um amor imenso, mas também traz medo, dúvidas e cansaço. Há noites maldormidas, decisões difíceis e lágrimas que seguramos até as crianças adormecerem. Há momentos em que gostaríamos que alguém percebesse, sem precisarmos dizer, que também estamos precisando de cuidado.
E há fases em que o colo da mãe da mãe consegue alcançar justamente esse lugar. Ao recebermos seu abraço, podemos descansar um pouco da obrigação de ter todas as respostas. Podemos voltar a ser filhas.
Para quem já não tem a mãe por perto, esse colo pode permanecer na lembrança de um gesto, no som de uma frase, numa receita de família ou no jeito de abraçar os próprios filhos. A saudade revela o quanto aquele lugar foi precioso.
Por isso, enquanto houver a possibilidade de dar e receber colo, que não nos falte tempo para esse encontro. Que a pressa não encurte o abraço. Que a ideia de que “depois eu vou” não adie sempre a visita.
Cada minuto de colo dado ou recebido é único. A criança cresce, a vida muda, nossas mães envelhecem.
Hoje, talvez seu filho precise ficar um pouco mais nos seus braços. Talvez seja você quem precise encostar a cabeça no ombro da sua mãe.
Se puder, fique mais um pouco.