FÉ E MEDICINA

Quando a ciência e a espiritualidade caminham juntas

Estudos mostram que pacientes com a espiritualidade estruturada lidam melhor com doenças, apresentam menor nível de ansiedade e mais engajamento no autocuidado

Por Ana Maria Reimer

Publicado em 09 de fevereiro de 2026 | 21:13

 
 
Para a médica Ana Maria Reimer, em tempos de inteligência artificial, lembrar que o paciente é um ser integral — corpo, mente e espírito — é um ato de responsabilidade ética Para a médica Ana Maria Reimer, em tempos de inteligência artificial, lembrar que o paciente é um ser integral — corpo, mente e espírito — é um ato de responsabilidade ética Foto: Chat GPT

Como médica especialista em clínica médica e pós-graduada em nutrologia, aprendi, ao longo da prática, que a medicina vai muito além de exames, protocolos e prescrições. Cuidar de pessoas exige compreender não apenas o corpo, mas também aquilo que sustenta o ser humano nos momentos de fragilidade — e, para muitos pacientes, esse pilar é a fé.

A medicina moderna é baseada em evidências científicas, e isso é inegociável. Diagnóstico, tratamento e prevenção precisam seguir critérios técnicos rigorosos. No entanto, reduzir o cuidado à dimensão biológica é ignorar um aspecto essencial da experiência humana: o significado que cada pessoa dá à própria doença.

A fé, independentemente da religião, atua como fator de resiliência emocional, favorecendo adesão ao tratamento, esperança, disciplina e enfrentamento do sofrimento. Estudos mostram que pacientes com a espiritualidade bem estruturada lidam melhor com doenças crônicas, apresentam menor nível de ansiedade e, muitas vezes, maior engajamento no autocuidado.

Na prática clínica, é comum perceber que pacientes que mantêm uma vida espiritual ativa toleram melhor tratamentos longos,
enfrentam diagnósticos difíceis com mais equilíbrio e 
desenvolvem maior senso de propósito durante a recuperação.

Isso não significa substituir ciência por crença — pelo contrário. Fé não exclui medicina, e medicina não invalida fé. Elas ocupam campos diferentes, porém complementares.

A ciência trata da doença.

A fé cuida do sentido da vida diante da doença.

Como médica, não me cabe prescrever religião, mas me cabe respeitar e reconhecer a dimensão espiritual do paciente. Ignorá-la pode gerar distanciamento, enquanto acolhê-la fortalece o vínculo terapêutico e humaniza o cuidado.

Em tempos de tecnologia avançada, inteligência artificial e medicina cada vez mais especializada, lembrar que o paciente é um ser integral — corpo, mente e espírito — é um ato de responsabilidade ética.

A boa medicina salva vidas.

A fé, muitas vezes, ensina como vivê-las, mesmo nos momentos mais difíceis.

Finalizo com uma frase que está presente nos meus receituários do meu consultório e que levo como lema nos meus atendimentos: "Ao cuidar de uma doença, você pode ganhar ou perder; ao cuidar de uma pessoa, você sempre ganha” (Hunter Doherty - Patch Adams).