
Como médica especialista em clínica médica e pós-graduada em nutrologia, aprendi, ao longo da prática, que a medicina vai muito além de exames, protocolos e prescrições. Cuidar de pessoas exige compreender não apenas o corpo, mas também aquilo que sustenta o ser humano nos momentos de fragilidade — e, para muitos pacientes, esse pilar é a fé.
A medicina moderna é baseada em evidências científicas, e isso é inegociável. Diagnóstico, tratamento e prevenção precisam seguir critérios técnicos rigorosos. No entanto, reduzir o cuidado à dimensão biológica é ignorar um aspecto essencial da experiência humana: o significado que cada pessoa dá à própria doença.
A fé, independentemente da religião, atua como fator de resiliência emocional, favorecendo adesão ao tratamento, esperança, disciplina e enfrentamento do sofrimento. Estudos mostram que pacientes com a espiritualidade bem estruturada lidam melhor com doenças crônicas, apresentam menor nível de ansiedade e, muitas vezes, maior engajamento no autocuidado.
Na prática clínica, é comum perceber que pacientes que mantêm uma vida espiritual ativa toleram melhor tratamentos longos,
enfrentam diagnósticos difíceis com mais equilíbrio e
desenvolvem maior senso de propósito durante a recuperação.
Isso não significa substituir ciência por crença — pelo contrário. Fé não exclui medicina, e medicina não invalida fé. Elas ocupam campos diferentes, porém complementares.
A ciência trata da doença.
A fé cuida do sentido da vida diante da doença.
Como médica, não me cabe prescrever religião, mas me cabe respeitar e reconhecer a dimensão espiritual do paciente. Ignorá-la pode gerar distanciamento, enquanto acolhê-la fortalece o vínculo terapêutico e humaniza o cuidado.
Em tempos de tecnologia avançada, inteligência artificial e medicina cada vez mais especializada, lembrar que o paciente é um ser integral — corpo, mente e espírito — é um ato de responsabilidade ética.
A boa medicina salva vidas.
A fé, muitas vezes, ensina como vivê-las, mesmo nos momentos mais difíceis.
Finalizo com uma frase que está presente nos meus receituários do meu consultório e que levo como lema nos meus atendimentos: "Ao cuidar de uma doença, você pode ganhar ou perder; ao cuidar de uma pessoa, você sempre ganha” (Hunter Doherty - Patch Adams).