DOR INVISÍVEL

Amamentar também dói: a maternidade que ninguém romantiza

Relato da médica de Betim e mãe Ana Maria Reimer expõe o lado exaustivo, por vezes doloroso e pouco discutido da amamentação

Por Ana Maria Reimer


Publicado em 26 de maio de 2026 | 16:59
 
 
Médica de Betim e também mãe Ana Maria Reimer reflete sobre a necessidade de as pessoas terem empatia com as mães no puerpério

"AMAmentar é um gesto de amor, mas é tão difícil que dói na alma...". Escutei isso de uma paciente ainda na época da faculdade, no internato de ginecologia e obstetrícia.

Essa mãe estava internada por uma mastite, e eu nunca vou me esquecer das lágrimas que escorriam dos seus olhos quando, mesmo sem dar conta e sangrando, ela insistia em amamentar seu filho. 

Na época, eu não tinha dimensão do que realmente é amamentar, mas sabia que faria de tudo pra conseguir quando chegasse a minha vez.

E, gente, mais do que nunca, a frase faz sentido. Vou te falar uma coisa, como me disse uma prima amada:

- "Livre demanda é a escravidão da atualidade".

E eu acrescento que, de livre, não se tem nada, pois, para a mãe, parece um cárcere privado.

- "Credo, doutora Ana, amamentar é lindo, é o mais sublime momento da vida de uma mulher".

Sim. Concordo, mas sem romantizar. Apenas pense com a razão:

É fácil?. Nunca.  

Era uma e meia da manhã, e eu já estava na segunda mamada. Escrevia esse texto enquanto ela se aconchegava no meu tórax, e essa era a única forma que ela conseguia dormir. Experimente tirar e deitar. 

Tem espinho na cama, com certeza (rindo, mas é de nervoso).

Não fiquei triste. Escolhi viver a livre demanda nas duas gestações que tive, mas o cansaço é gigante, e, sim, nós temos direito de reclamar.

Por isso, deixo aqui meu respeito e minha admiração: 

- pelas mães que deixam suas carreiras para viver a livre demanda até os 2 anos do bebê;
- pelas mães que amamentam sangrando seus mamilos por fissuras;
- pelas mães que, mesmo com mastite, chorando de dor, se mantêm firmes e insistem até dar certo;
- pelas mães que adquirem a habilidade de comer com a mão esquerda (pois é a única forma de se alimentar enquanto a cria está pendurada no peito);
- pelas mães que se privam do sono amamentando igual Tele Sena, de hora em hora na madrugada, e fazem isso meses a fio;
- pelas mães que tentaram de tudo e não 'deram conta' de ir além. Não se culpem, pois na mamadeira também tem muito amor.

Não julgue quem desiste. Você não sabe a luta que ela lutou, as dificuldades que enfrentou, a dor que carregou até tomar essa difícil decisão.

E tenha mais empatia com quem está em livre demanda em vez de falar: 

- "Nossa! Está pendurada no peito de novo?"
- "Ela mama o tempo todo."
- "Esse leite deve estar fraco porque ela não sai do peito."
- "Dá mamadeira que ela dorme melhor."
- "Nossa, você está um trapo. Melhora essa cara."
- "Se eu fosse você..." 

Você não é. Então, se não for pra acrescentar algo positivo e ajudar, não abra a boca pra falar nada.

E a principal coisa: se você já é mãe, não julgue a outra se baseando na sua experiência. Se foi fácil pra você, parabéns, mas não tente diminuir a dor da outra. Você não viveu a história dela.
 
Quer ser útil de verdade? 

Faça um bolo bem gostoso, passe um café e segure o bebê pra ela tomar antes de esfriar. 

Este texto foi escrito durante o puerpério da minha segunda filha, Júlia, que hoje tem 6 anos.

Ana Maria Reimer - CRMMG 48892/RQE 36289