
Hoje quero compartilhar com vocês um texto lindo de uma colega que vive o dia dia de acompanhamentos médicos difíceis na oncologia clínica.
Esse texto vai ao encontro de tudo que eu mais prezo nos meus atendimentos: ser o apoio que cada paciente que me procura espera que eu seja, em cada momento da vida e em cada necessidade que ele tem.
Leia com o coração:
“Ao receber um novo paciente, com uma doença grave, penso que estamos ambos sentados à margem do rio. O paciente precisa atravessar para a margem oposta. Ele tem que fazer isso antes que anoiteça.
Eu não conheço o paciente, mas conheço bem o rio. Sei onde ele é mais fundo, sei em que época ele é cheio de piranhas, sei quando tem corredeira. Meu paciente não. Só que é ele quem precisa atravessar, e tem que atravessar agora. Não vai dar para esperar a melhor época do ano, quando o rio está mais favorável à travessia. E ele conta com o que eu sei sobre aquelas águas para tentar chegar em segurança do outro lado.
Às vezes, o rio é estreitinho, e eu posso dizer para o paciente: “Pode pular, garanto que você chega do outro lado sem nem molhar seus pés!”. E ele vai, e fica tudo bem.
Às vezes, o rio é mais largo, não dá pra pular, mas eu sei de um trecho onde ele é mais raso, e posso dizer para o meu paciente: “Olha, você vai se molhar, mas vai chegar do outro lado em segurança!”. E ele vai. Chega encharcado do outro lado, mas sorri agradecido e segue seu caminho.
Só que, às vezes, muitas vezes, o rio é bem largo e bem fundo. É tão largo e tão profundo que vou ter que ter muito mais critério ao avaliar as chances de ele chegar ao outro lado.
Definitivamente, não temos o poder que imaginamos sobre a vida das pessoas. Nem sequer somos capazes de salvar vidas: na melhor das hipóteses, conseguimos adiar o momento da morte ou trocar uma forma de morrer por outra, que ocorrerá um pouco mais adiante.
Salvar, mesmo, não dá.
E assim, olhando para o rio, fica fácil entender que estamos muito mais para “equipe de apoio” do que para guardiões das vidas dos nossos pacientes.
Então, que sejamos a melhor equipe de apoio com que eles possam contar. Sempre."
Ana Lúcia Coradazzi
Médica oncologista clínica