OPINIÃO

Olhar para a frente

Remoer o passado para dele se regozijar é perda de um tempo precioso

Por Vittorio Medioli

Publicado em 07 de julho de 2024 | 10:56

 
 
Caderno de anotações Caderno de anotações Foto: Pixabay
Vittorio Medioli
Colunista de Opinião
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Acabou caindo em minhas mãos um caderno de antigas anotações. Um dos raros que sobraram. Eu sou um péssimo arquivista, minhas memórias se reduzem a quatro gavetas. Fico mais voltado ao futuro. Como ensinam no Oriente, tenho a sensação de que nada se perde, tudo se transforma. “O Dharma é a natureza interna, caracterizada em cada homem pelo grau de desenvolvimento adquirido e, além disso, a lei que determina o desenvolvimento no período evolutivo que vem a seguir”, explicou Annie Besant. Essa natureza é indelével, indestrutível, inalienável, segue a personalidade por onde ela for, em todas as vidas que aguardam o ser humano. Para que me preocupar em arquivar?

Não me importo de guardar coisas que envelhecem, “alguém” guardará; dos registros universais, ninguém apagará. Os videntes enxergam o tempo anterior e o posterior. Segundo a profecia, um dia poderemos reproduzir, assim como o monge italiano Pellegrino Ernetti descobriu, qualquer evento, imagem ou pensamento. Teremos o “cronovisor” de Ernetti, sequestrado pelo Vaticano.

Ainda bem, pois a humanidade não o merece nem poderia usar com proveito no estado de imaturidade em que se encontra.

Remoer o passado para dele se regozijar é perda de um tempo precioso. Melhor empregá-lo para realizar coisas boas, do bem. O passado é cheio de pecados, de erros, de imperfeições, chega a constranger.

“Água que se foi”, repetia meu pai, “não move mais as pás do moinho”. Só aquelas que virão.

Com o tempo, passei a ser melhor, não ótimo ou perfeito. A esse ponto ninguém chega, há sempre como avançar.

Segundo o sábio, “quanto mais você aprende, mais compreende sua limitação”. Os horizontes se ampliam rumo ao infinito. Depois de abrir-se a primeira porta, que parecia ser a única, encontram-se duas; ao se abrirem estas, depara-se com quatro ou mais, e daí em diante. O infinito existe, insondável, misterioso, divino, e se expande a cada passo. As portas são incontáveis.

Como escreveu o poeta italiano: “Il naufragar mi é dolce in questo mare”. Lindo! Poder se perder no infinito sem medo, como em águas mornas, acolhedoras, protetoras, como aquelas que conhecemos no ventre de nossa mãe.

Nisso o ignorante, insano e contumaz, aquele que ignora ignorar, como fez notar Sócrates, desconhece sua pequenez, não se perturba com a imensidão do seu desconhecimento, perde-se a cada esquina, mergulha na satisfação de desejos ilusórios, miragem de sua mente desertificada e escaldante.

Com os meus textos passados, com raras exceções, tenho certo incômodo a ler o que já escrevi, pois noto que o texto poderia ser melhor. Prêmio Nobel de Literatura, Marguerite Yourcenar (“Obra em Negro”, “Adriano” e muitos outros livros impecáveis) chegou a reescrever sete vezes algumas de suas obras-primas, exatamente pela insatisfação que a expansão intelectual e espiritual provoca nela.

Há muitos anos as minhas anotações estão nos livros que leio, marcados impiedosamente por notas, comentários e rabiscos. Alguns de estupefação, outros de iluminação, outros de admiração. Afinal, os sentimentos do autor lampejam nos sentimentos que me provocam. Quanto podemos fazer para que outros aproveitassem?

Na anotação do caderno amarelado, assim declara-se para a “eternidade”: “Desconfie daquele que tem apenas adversários, ele é um derrotado”, alguém que não soube encontrar o caminho para anular as forças contrárias ou transformar as forças divergentes em convergentes. “Impossível”, decretou Napoleão, “não existe”.

Na ilusão de sermos o centro do planeta e de nele termos caído para satisfazer apenas desejos do corpo – mais do que aspirações de uma alma eterna –, perdemos oportunidades tão belas e milagrosas de sermos realmente felizes e realizados, presenteando o universo de harmonia, felicidade e amor.