
Ter levado a economia venezuelana ao fracasso não é apenas culpa do governo chavista e de sua incompetência, tradicional em ditaduras sul-americanas. A Venezuela, apesar de constar como a maior detentora de reservas petrolíferas mundiais, extrai petróleo extrapesado com características inferiores ao Brent e ao texano (leve) produzidos mundo afora. Para vender o venezuelano, o desconto em relação ao Brent chega a US$ 20 por barril. Hoje, com o Brent cotado a US$ 63, não há quem pague mais do que US$ 43 pelo venezuelano. Paralelamente, o custo extrativo do extrapesado é bem mais alto do que o do petróleo do Mar do Norte, da Arábia, do Texas e da África em geral. Trata-se de um óleo impróprio para um refino eficiente de produtos nobres como gasolina e diesel.
O petróleo venezuelano (especialmente o da Faixa do Orinoco) é de difícil bombeamento: tem aspectos de pasta fria de amendoim, com alta acidez e enxofre. Isso exige equipamentos especiais e refinarias sofisticadas para processá-lo. Para transportar esse óleo pesado por oleodutos, é necessário misturá-lo com diluentes (nafta), o que adiciona um custo de cerca de US$ 15 por barril antes mesmo de chegar ao porto. Provoca, ainda, maior deterioração da infraestrutura, e seu custo extrativo só se justificaria com o barril cotado acima de US$ 80, conforme se apura na literatura setorial.
O quadro é bem pior do que se possa imaginar neste momento. Calcula-se que a recuperação e a modernização da infraestrutura petrolífera venezuelana possam custar mais de US$ 100 bilhões, tornando o aumento da produção um processo lento, caro e dependente das cotações oscilantes do mercado. Com custo extrativo mais elevado (US$ 15) e cotação menor (US$ 20), a equação do petróleo venezuelano é assombrosa. Neste momento, com a cotação de US$ 63/barril, a indústria extrativa estaria perdendo entre US$ 35 e US$ 37 por barril.
Contudo, o óleo venezuelano ainda é valorizado por algumas refinarias americanas – para onde o governo dos Estados Unidos, ultimamente, tem desviado os petroleiros capturados –, principalmente no Golfo do México (EUA), que são equipadas para processar esse tipo de petróleo e aproveitar os metais pesados.
Desvalorizado e rejeitado mundo afora, mas ainda comprado pela China, que melhorou bastante seus processos de refino, o petróleo da Venezuela é uma aposta interessante para os países tecnologicamente avançados, sobretudo em razão do novo fôlego gerado pelos atrasos nas mudanças da matriz energética. Garantiram-se, assim, algumas décadas de sobrevida.
Os bastidores dessa guerra de supremacia econômica dos americano e europeus, ameaçada pelo Brics, mostram que a Venezuela, estacionada ao lado dos Estados Unidos, passou a ter um valor substancial.
A Venezuela viveu seu auge durante o governo Hugo Chavéz, quando a escassez mundial de petróleo, determinada por embargos e guerras, elevou o barril a um pico de US$ 147, em 2008, o que resultou em ganhos de bilhões de dólares ao instável e aloprado ditador venezuelano. Decidiu, assim, nacionalizar a indústria petrolífera, o que poderia até ter sido um grande negócio, mas colocou seus asseclas, incompetentes e perdulários, para tomar conta das jazidas e refinarias. O valor do barril, em seguida, caiu aos níveis de US$ 35, e a gangorra das cotações transformou lucros exorbitantes em perdas desastrosas.
A refinaria de Suape, em Pernambuco, fruto do acordo entre Lula e Chávez em 2008, deveria ter sido o primeiro passo para fazer da região equatorial um polo de refino do petróleo pesado brasileiro e do extrapesado venezuelano. Contudo, a lambança tupiniquim, certificada pela operação Lava Jato, fez com que se perdesse, além de centenas de bilhões, o momento favorável e propício.
Não há situação favorável ao extremo que resista à incompetência e à corrupção. A Venezuela perdeu 20% de sua população, reduzida de cerca de 40 milhões para os atuais 30 milhões, ou menos. O cenário é de fome, miséria, repressão, matanças e descalabros, e mesmo assim há quem defenda o regime.
Provavelmente, não é o caso de comparar com o Zé que entra na sala cirúrgica, vê o paciente apodrecendo de câncer e denuncia por tentativa de homicídio o cirurgião que afunda o bisturi na tentativa de extrair os tumores. O uso de lâmina serve para matar e, com perícia, para curar, assim como medicamentos podem ser ótimos ou venenosos.
A Venezuela apodreceu, e vale lembrar que a situação atual contou com a omissão – e ainda com o apoio – de quem poderia ter tomado atitudes diplomáticas para que a vontade majoritária da população (e não a manutenção cruel e oportunista do chavismo) fosse respeitada, e não violentada de todas as formas ao longo das últimas três décadas.
Resta uma dúvida nesse mar de lama revolto: por que Daniel Vorcaro (sempre ele), com US$ 150 milhões, e os irmãos Batista (onipresentes), com ainda mais dólares, estavam investindo em poços petrolíferos na Venezuela? Um país mergulhado no caos, na miséria, na ditadura e no narconegócio. E ainda: por que o Planalto decretou sigilo de cinco anos nas comunicações entre o Itamaraty e o governo da Venezuela, quando os nomes dos “investidores” brasileiros apareceram nos noticiários da Globo?
Sigilo generalizado nas operações do Master e de seu dono, decretado às pressas pelo Supremo Tribunal Federal, pelo Banco Central, pela Polícia Federal, pelo Itamaraty e até pelo Tribunal de Contas da União – típico jabuti na copa da árvore –, que tenta salvar Vorcaro e dar-lhe fôlego para pleitear, talvez, alguns bilhões de indenização. Tudo isso turbinado por R$ 2 milhões em fake news, atribuídas a Vorcaro, que contratou, por uma centena de milhões, assessorias de parentes de ministros.
O ano de 2026 se iniciou com o sistema político brasileiro soltando fumaça e labaredas, com revelações devastadoras que enfrentarão a onda gigante com a volta do recesso parlamentar no começo de fevereiro.
Contudo, a economia funciona. Parece que os brasileiros, depois de tantas crises, aprenderam que o trabalho honesto ainda é a melhor forma de enfrentar o mal.