O STF já teve tempo de sobra para corrigir seus excessos
Foto: Marcelo Casal Jr/Agência Brasil
O STF já teve tempo de sobra para corrigir seus excessos
Foto: Marcelo Casal Jr/Agência Brasil
Qualquer atitude tem o seu tempo, e o tempo não espera, continua seu curso.
O STF já teve tempo de sobra para corrigir seus excessos. Agora uma longa conta chegou para complicar os ministros e assustar. “Qui gladio ferit, gladio perit (Quem fere com a espada, pela espada morre).
Disse o menestrel: “O poder é uma droga”, altera, entorpece, especialmente quem não percebe que continua sendo um homem comum no meio de bajuladores e pedintes. Por isso um toque de cinza depois do Carnaval: “Lembra-te, homem, de que és pó e ao pó voltarás”.
Esquecer-se de que o momento é fugaz pode ser fatal. O “gladio” não tem relógio nem alma.
O poder inebria quem não se preparou. O poder não diminui as responsabilidades, antes as aumenta exponencialmente. Trata-se, na prática, de um empréstimo de prerrogativas, concedido temporariamente a um simples ser humano. Algum mérito teve para chegar, mas deve considerar que qualquer gesto ou exemplo em cargo de poder se reflete numa cadeia de consequências, positivas e negativas, que deixam um saldo.
O patrimônio moral e intelectual no poder tem como se ampliar ou até se aniquilar em caso de excessos. O resultado depende da dedicação sincera e, muito, da humildade adotada. As teorias do bem de Marco Aurélio, duradouras, mais que do proveito de Maquiavel, fugazes, consolidam as ações de uma figura na história, que pode passar como portador de evolução ou de desgraça. Pode deixar saudades ou raiva. Apenas depende dele.
O poder é uma roupagem, um manto precisa vestir com sobriedade, naturalidade e genuinidade. A sofisticação pode embasbacar alguns, mas é mortal para os resultados, pois o bizantinismo se torna motivo de atraso nas entregas e gastos desnecessários. Com a sofisticação o poder se enrola nas formas e se exaure nelas, enquanto os componentes do bolo precisam de essencialidade, com o sal, o açúcar e a farinha em dose coerentes. O poder não tem princípios antigos ou modernos, eles são universais.
Eu tive o privilégio e a bênção especial de participar de um encontro, improvisado de última hora, com o dalai-lama em Brasília. Cerca de 300 pessoas num salão do Congresso Nacional, há muitos anos, cobravam um contato com ele. As cadeiras eram suficientes para cerca de cem pessoas, o restante dos presentes se apinhava nas escadarias e onde sobrava espaço. O calor do dia ensolarado e o local lotado não eram dos mais agradáveis.
Vestindo seu simples manto monacal e calçando sandálias, igual aos demais monges tibetanos, chegou sorrindo, tomou o lugar reservado, quando chegou de imediato um copeiro da casa e lhe serviu um copo d’água. Ele o recebeu, olhou para o copeiro, para a plateia e hesitou por alguns segundos. Em seguida, ele o ofereceu a um fotógrafo à sua frente, que, obviamente, não o aceitou e passou a oferecê-lo insistentemente aos outros mais próximos, até deixá-lo de lado. Poderia parecer inusitado, mas um iluminado não age inconscientemente em momento nenhum, como um mísero mortal que vive adormecido a vida inteira. Tem plena consciência de cada instante, de cada detalhe e gesto. Evita pisar em formigas, vive integralmente desperto. Sua esfera se expande e, por onde circula, sua aura solar brilha.
No budismo os grandes mestres são aqueles que reconhecem, mais que os outros, a própria ignorância e trabalham para transformá-la em sabedoria, desapegando-se de qualquer premissa de superioridade em relação a quem quer que seja. Eles não satisfizeram a própria sede, deixando outros com sede.
Os gestos desse santo homem são declarações e, apesar de enigmáticos, se tornaram inesquecíveis. Quando passei a ter vislumbres da iluminação e seus efeitos nos seres humanos, compreendi que não podia ser diferente a atitude de um “santo” iluminado. Seus gestos carregavam a explicação da “compaixão”.
Com a oferta reiterada, com sorriso radiante, queria “apenas” dizer: “Se há um só copo d’água para matar a sede de tantas pessoas, a maior autoridade tem que ser a última a se servir...”.
Exatamente o contrário daquilo que nós vimos em nosso país, com autoridades brindadas com todas as mordomias, em contraponto a uma população excluída do essencial.
O dever do exemplo é irrenunciável para adquirir para a verdadeira autoridade, é orgânico, não fabricado. Respeitar a regra áurea do Reino de Deus: “Os últimos serão os primeiros, ou os primeiros serão os últimos”.
Se a autoridade máxima não der naturalmente o exemplo, será uma flor de plástico, uma enganação sem perfume e vida. Pior, o que acontecerá debaixo dele, nas camadas mais carentes de educação e de saber? A miséria, o caos, o conflito permanente. O mal, o egoísmo, as perversões se ampliarão.
O iluminado desenvolveu uma consciência oceânica, que o faz viver cada instante como fosse o mais importante e o último de sua passagem terrena, pois sabe que qualquer instante é igualmente importante, que sua existência é eterna neste universo.
Infelizmente vivemos numa sociedade ainda primitiva. O egoísmo impera onde deveria ser proibido e adquire seu ápice em líderes que abusam do desperdício e dos supérfluos. Isso é pago diretamente pelos inocentes, ao quais se deveria dar o exemplo, como o dalai-lama sabe oferecer até num copo de água fresca.