OPINIÃO

De Jair a Messias

Bolsonaro, de condenado, por um ato sem materialidade e efeitos, apenas por uma intenção, sem sequelas, não comprovada, pode se transformar num ídolo

Por Vittorio Medioli

Publicado em 15 de março de 2026 | 14:43

 
 
Ex-presidente Jair Bolsonaro Ex-presidente Jair Bolsonaro Foto: Ton Molina/STF
Vittorio Medioli
Colunista de Opinião
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É sempre recomendável manter um olhar sobre Adélio Bispo, o esfaqueador de Bolsonaro. Ele vive preso desde o atentado, mesmo sem ter sido condenado penalmente – foi considerado inimputável por transtornos mentais. Está isolado numa prisão federal de Campo Grande (MS) até hoje para tratamento psiquiátrico.  

Mantê-lo fora de circulação representa, segundo os juízes do caso, um cuidado com a ordem pública, não uma condenação penal. A recomendação, neste momento, é mantê-lo isolado e sob cuidados clínicos por ao menos 20 anos, ou até 2038. Quais são esses cuidados? Quem fiscaliza o tratamento de Adélio? Teve uma perícia externa independente? O Congresso Nacional exerce sua faculdade fiscalizadora? Absolutamente não.  

A transferência para Minas Gerais, jurisdição do atentado e do próprio Adélio, foi negada em 2023 pelo STJ, e Adélio ficou até agora no presídio federal de segurança máxima de Mato Grosso do Sul.  

Segundo as últimas informações, Adélio não apresenta sinais de melhora, ao contrário, sua sanidade estaria piorando. Tem um laudo apreciável? 

No último mês de janeiro, há cerca de 45 dias, ele teria confidenciado aos seus carcereiros, que passaram a informação ao portal Metrópoles, estar com disposição de disputar a eleição à Presidência da República. Teria afirmado ainda que, para compor a chapa, teria William Bonner e Patrícia Poeta.  

Não é totalmente doido. Poderia ter escolhido outras opções, como Napoleão ou Stálin. Temporalmente e circunstancialmente, possui coordenadas coerentes. 

Ele se tornou portador de loucura, segundo os diagnósticos oficiais, após o atentado, mas durante os preparos demonstrou extrema coordenação, ainda com requintes de precisão cirúrgica na própria ação, que não era tão fácil como se imagina para um louco. Embrulhou a faca num saquinho de papel e aparentemente não conseguiria chegar perto do candidato naquela maré de gente sem ajuda de alguém que abrisse o caminho, nem chegaria a Juiz de Fora por vontade e discernimento próprio. Ele teve a capacidade de se inscrever na mesma academia de tiro ao alvo de um dos filhos de Bolsonaro e segui-los durante meses, com elevados custos. Fosse inimputável, não chegaria a vencer por si só as dificuldades dessa trama. As redes sociais dele mostravam um ódio à maçonaria e outros aspectos que não alcançam um por mil da população. Requerem raciocínio, conhecimento, síntese e disposição pessoal de uma mente que funciona em níveis complexos.  

O quadro dele supera, quando analisados os detalhes, o de Lee Oswald, no atentado a JF Kennedy, em 1963, em Dallas. Foi silenciado com alguns tiros à queima-roupa logo em seguida – o assassino dele também seguiu para o túmulo. Apagou-se assim a possibilidade de desvendar os bastidores e mandantes. Ficou apenas a dedução lógica de que havia forças poderosas e de elevadíssimo nível conduzindo os fantoches. 

A debilidade de Adélio se mostrou relativa e carece ainda de uma certificação independente, assim como suas movimentações anteriores ao atentado, conduzido com precisão, lucidez e coordenação. Não teria seguido a trilha complexa do candidato a presidente. Revela-se um sujeito lúcido, não um louco desamparado. Não teria cinco celulares, nem dois computadores, nem farto dinheiro à disposição, mesmo sem fonte declarada de origem, para se movimentar Brasil afora e se hospedar em hotéis. 

Não teria advogado se apresentando imediatamente após o atentado na delegacia de Juiz de Fora. Advogado que não tem perfil de filantropo, mas de cobrar salgados honorários e defender traficantes sem constrangimento. 

Neste momento, Bolsonaro está em situação crítica de saúde. Depois de nove cirurgias no aparelho gástrico em oito anos, está com pneumonia, agravada por refluxo gástrico, ou seja, pela entrada nos pulmões de restos de comida, vômito e substância altamente contaminante. Disso vêm a febre alta e os calafrios que acontecem numa súbita infecção bacteriana pela invasão contaminante dos pulmões. Os médicos lutam também contra o estado depressivo, derivado de um tratamento inusitado, que o levou à condenação a 27 anos de cadeia – sem qualquer atenuante na pena, aparentemente escondendo a criticidade das suas condições de saúde. 

Bolsonaro, de condenado, por um ato sem materialidade e efeitos, apenas por uma intenção, sem sequelas, não comprovada, pode se transformar num ídolo, e seu fim, arrastar as massas. Subindo ao Calvário, entre humilhações, sua fama messiânica pode explodir sobre quem o condenou. 

Jair se tornando Messias? Que se cuidem os Pilatos.